Referendo da Venezuela comprova democracia no país

 

 

 

Luiz Alberto Moniz Bandeira

Diciembre 2007

 

A derrota do presidente da Venezuela Hugo Chávez no referendo sobre a reforma constitucional no último domingo foi importante para o próprio líder venezuelano, por mostrar, antes de mais nada, que a democracia funciona em seu país.

A observação foi feita nesta terça-feira pelo cientista político, historiador e professor emérito da Universidade de Brasília, Luiz Alberto Moniz Bandeira, em entrevista à Agência Informes. ”O presidente Chávez ganhou, porque, perdendo, salvou seu governo de uma situação cada vez mais difícil, em virtude da fratura social e política existente na Venezuela“, disse Moniz Bandeira.

Outro significado importante do ”não“ à mudança constitucional venezuelana é a facilitação do ingresso da Venezuela no MERCOSUL, pois,na opinião de Moniz Bandeira, destruiu-se o argumento de que o regime de Chávez é ditatorial e contraria a cláusula democrática do Bloco. “E a entrada da Venezuela é demasiadamente importante para a expansão do MERCOSUL e o avanço da união de nações da América do Sul”.

Abaixo, a íntegra da entrevista:

Informes - ¿Qual o significado da vitória do NÃO na Venezuela, tanto local como Regional?

Moniz Bandeira – A vitória do Não comprova que a democracia está funcionando na Venezuela.

Informes - A mídia conservadora vinha chamando a Venezuela de país ditatorial. Com o referendo o senhor acha que esta imagem que a mídia tenta passar vai mudar?

Moniz Bandeira – As palavras não mudam a realidade dos fatos. E os fatos freqüentemente contraditam o que a mídia escreve. No caso, o fato é que o plebiscito e a pronta aceitação do resultado pelo presidente Hugo Chávez demonstraram, categoricamente, que na Venezuela democracia, o que, aliás, as grandes manifestações da oposição estavam a evidenciar. As eleições não são a única característica do regime democrático.

Informes - ¿Nesse caso, Chávez sai ganhando ?

Moniz Bandeira – O presidente Chávez ganhou, porque, perdendo, salvou seu governo de uma situação cada vez mais difícil, em virtude da fratura social e política existente na Venezuela. A vitória do Sim poderia gerar um acirramento maior das contradições e levar o país a um beco sem saída e a um enfrentamento armado entre oposição e governo. Chávez estava esticando muito o elástico e um governo não pode avançar além das condições objetivas e subjetivas, das possibilidades reais do país. É necessário considerar as relações reais de poder, do que ele descuidava, levado pelo voluntarismo.

Informes - O presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, está tentando obter um terceiro mandato, mas não tem sido criticado pelas elites latino-americanas, incluindo a imprensa conservadora. ¿O sr. acha que a partir do resultado na Venezuela Uribe poderá ser demovido?

Moniz BandeiraEm verdade, tentar um terceiro mandato ou reeleição sem limite de vezes, como queria Chávez, não tem em si nada de antidemocrático. Nenhum país na Europa, onde funciona o parlamentarismo, limites de mandatos para os primeiro-ministros, desde que seu partido vença sucessivas eleições. Na Alemanha, Adenauer permaneceu cerca de 14 anos no governo. Helmut Kohl, cerca de 16 anos. E outros exemplos poderiam ser apontados, como o de Margareth Thatcher e Tony Blair, na Inglaterra. O importante para a democracia é que haja possibilidade de alternância no poder. Esta tese eu defendi em 1995, em artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo. Com respeito ao presidente Uribe, se será ou não removido, depende da correlação de forças na Colômbia. E, ao contrário de Chávez, ele conta com a simpatia das forças conservadoras e da mídia.

Informes – ¿No âmbito das relações Regionais, o que significa a derrota de Chávez?

Moniz Bandeira – A derrota de Chávez, como disse, liquida com o argumento de que a Venezuela não pode ser admitida no MERCOSUL, por ser uma ditadura e contrariar, portanto, a cláusula democrática estabelecida pelos quatro sócios da união aduaneira. Este argumento foi levantado por setores políticos brasileiros e até pelo Paraguai, cujo governo atual joga em favor dos interesses dos Estados Unidos.

Informes - Os EUA têm sido acusados por Chávez de interferência no assuntos venezuelanos. Como fica o governo Bush agora, com a derrota de Chávez?

Moniz BandeiraSim, os Estados Unidos interferiram e ainda continuam a interferir na Venezuela, assim como em outros países da América do Sul. As atividades da CIA na América Latina, conforme revelou o próprio embaixador John Negroponte, quando diretor de Inteligência dos Estados Unidos, voltaram aos níveis do tempo da Guerra Fria. Mas o governo do presidente George W. Bush está fenecendo, derrotado por suas próprias políticas, que têm contribuído para o declínio da hegemonia dos Estados Unidos, perceptível na desvalorização do dólar. dois dias, o programa de televisão da agência Bloomberg, dedicada a negócios e investimentos, aconselhou na Alemanha os países a trocarem os dólares por moedas asiáticas, o yen, e o real, do Brasil. A China e os países árabes estão a converter suas reservas em dólares em euros, mas o fazem cautelosamente, devagar, para evitar uma súbita débâcle, que desvalorize seus próprios acervos.

Informes - Charles de Gaulle, na França, ficou vários anos no poder, legitimado por consultas populares como as feitas pelo governo Chávez. Por que agora questiona-se o mecanismo do plebiscito? por que se trata de Chávez?

Moniz Bandeira – O plebiscito é um recurso legítimo, democrático, mas De Gaulle permaneceu no poder porque era reeleito. Com o plebiscito, ele buscava referendar seus projetos, como agora Chávez pretendeu. E, aliás, era o que Allende queria fazer no Chile, em face da oposição do Congresso ao programa da Unidade Popular.

Informes - Por fim, para o Brasil e o governo Lula, o que significa tudo isto?

Moniz Bandeira – A derrota de Chávez em nada afeta o Brasil, como também a sua vitória não afetaria. A derrota, porém, aplainará o terreno para a aprovação do ingresso da Venezuela no MERCOSUL, destruindo o argumento de que o regime de Chávez é ditatorial e contraria a cláusula democrática. E a entrada da Venezuela é demasiadamente importante para a expansão do MERCOSUL e o o avanço da união de nações da América do Sul.