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MERCOSUL, ALBA, Integração Sul-Americana:
quais os desafios da política externa? Marco Cepik Julio 2006 No início da semana, a decisão do governo boliviano de
nacionalizar a exploração das reservas de gás e petróleo do país e a ameaça do
governo uruguaio de deixar o MERCOSUL reacenderam o debate sobre os rumos do
projeto de Integração Sul-Americana. Para tentar definir melhor o que está em
jogo neste debate, a CARTA MAIOR ouviu o professor Marco Aurélio Chaves Cepik,
pesquisador na área de política internacional e Integração Regional e professor
do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do
Sul (UFRGS). Para ele, o governo brasileiro está reagindo bem aos
acontecimentos da Bolívia, mas estamos vivendo uma crise política que envolve o
futuro do MERCOSUL e, de modo mais amplo, do projeto da Comunidade
Sul-Americana de Nações. “Precisamos usar essa crise para dar uma resposta aos
pontos que nos paralisam, algo que possa transcender instâncias como o MERCOSUL
e a Comunidade Andina de Nações, transformando-os em algo mais do que meras
uniões aduaneiras”. Logo no início da conversa, Cepik fez um esclarecimento
básico sobre uma confusão que costuma freqüentar esse debate. A confusão é
entre projeto de integração latino-americana e projeto de Integração
Sul-Americana. Trata-se, observou, de duas coisas distintas. “A própria idéia
de integração da América Latina envolve sérias dificuldades, principalmente
depois dos acordos que os Estados Unidos firmaram com o México (Nafta) e com países
da América Central”. Por que essa distinção é importante? Entre outras coisas,
para entender que há hoje, em linhas gerais, três grandes projetos em disputa
no continente americano: o da Área de Livre Comércio das Américas (defendido
pelos EUA, debilitado fortemente na última Cúpula das Américas em Mar del
Plata, mas que permanece como um horizonte estratégico hoje reduzido a esforços
para assinar tratados bilaterais de livre comércio), o da Alternativa
Bolivariana para as Américas (proposto pelo presidente da Venezuela, Hugo
Chávez, com o apoio já declarado de Cuba e Bolívia), e o da Comunidade
Sul-Americana de Nações (que expressa, em suas linhas gerais, a posição
brasileira). Na avaliação de Marco Cepik, a nacionalização das reservas de gás
e de petróleo radicaliza claramente a posição da Bolívia pró-ALBA,.aproximando
Evo Morales de Chávez e Fidel. Neste sentido, ela representa um risco para a
idéia brasileira de Integração Sul-Americana, pois demarca muito claramente uma
fissura entre as propostas da ALBA e da Comunidade Sul-Americana de Nações. AS RAZÕES DA NACIONALIZAÇÃO Do ponto de vista econômico, analisa o professor da UFRGS, o
preço do gás vigente até o anúncio da nacionalização e a maneira como foi feita
a privatização da indústria petrolífera boliviana eram inaceitáveis e
alimentaram uma série de revoltas populares. “O preço que as empresas estavam
pagando pelo gás era, de fato muito baixo”, assinala. Além disso, acrescenta,
“não me parece que o texto de decreto seja expropriatório”. “Não é muito
diferente do que diz a Constituição brasileira que estabelece o controle
nacional sobre as riquezas do subsolo”. Para Cepik, houve algumas coisas
excessivas, como a ocupação militar de poços e refinarias, “mas o resto não”. O
maior risco, segundo ele, é a possibilidade de alterações contratuais
unilaterais. O decreto de nacionalização deu um prazo de 180 dias para as
empresas apresentarem novas propostas de contratos, alegando que os atuais
violam abertamente os artigos 136, 137 e 139 da Constituição boliviana, segundo
os quais, “os hidrocarbonetos são bens nacionais de domínio originário, direto,
inalienáveis e imprescritíveis do Estado, razão pela qual constituem
propriedade pública inviolável”. O GOVERNO BRASILEIRO FOI INGÊNUO? Cepik discorda daqueles que acusaram o governo brasileiro de
ingenuidade no episódio da nacionalização. “Não há ingenuidade, o que há é uma
dificuldade política decorrente de dois fatores. Durante o governo Fernando
Henrique Cardoso, a lentidão com o processo para a criação de uma Comunidade
Sul-Americana criou espaço para dois movimentos: um dos EUA, em favor da
assinatura de Tratados de Livre Comércio (TLCs) e outro para soluções mais
radicais. Essa dificuldade reforça a imagem da existência hoje de dois projetos
de integração concorrentes (a ALBA e a Comunidade Sul-Americana de Nações). O
governo brasileiro foi avisado e estava preparado, mas há uma limitação em
torno do que se pode fazer”, avalia. Críticos da política externa do governo
Lula associam essa suposta ingenuidade à simpatia demonstrada com a eleição de
Evo Morales. Mais uma vez, Cepik diverge dessas vozes: “O risco de Evo não ser
eleito era o risco de uma revolta popular que poderia, de modo muito mais
concreto do que agora, paralisar as exportações de gás para o Brasil.
Ingenuidade é pensar que o programa neoliberal não causaria o que causou na
Bolívia. Hoje, Evo é um fator de estabilidade para o país”. Para o pesquisador, a reação do governo brasileiro ao
episódio foi adequada, ao reconhecer o direito da Bolívia exercer o controle
sobre seus recursos do subsolo e defender negociações. “Se a questão central se
resumir ao preço do gás, creio que terá havido muito barulho por nada”. Cepik
acredita que a Bolívia não tem escolha a não ser negociar com a Petrobras, uma
vez que a empresa representa hoje cerca de 25% do Produto Interno Bruto do
país. Sobre a possibilidade da PDVSA (a estatal venezuelana de petróleo) vir a
ocupar o papel hoje desempenhado pela Petrobras na Bolívia, ele manifesta
ceticismo. “Não é simples assim. O petróleo e o gás que a PDVSA processa não é o mesmo
que há na Bolívia. Há problemas técnicos aí”. “Mas é óbvio”, reconhece por
outro lado, “que há uma coordenação de esforços entre Bolívia e Venezuela”. “O
governo brasileiro tem que lidar com esses dois países como uma única facção.
Neste sentido, a posição da Argentina será decisiva”, sustenta Cepik. O CASO DO URUGUAI E
O MERCOSUL Marco Cepik também avaliou a possibilidade de o Uruguai vir
a deixar, de fato, o MERCOSUL. Para ele, essa possibilidade é real. “Pode
realmente sair. Isso não depende da coloração política do governo. O Uruguai
vive uma situação sui generis e não tem muita alternativa. É um pequeno país
que virou uma plataforma exportadora de uma ou duas commodities. O que foi o
gado em um passado recente hoje está passando a ser a celulose”. Neste sentido,
quando o presidente Tabaré Vázquez expressa simpatia pelo modelo chileno, isso
não ocorre por acaso. “O modelo chileno funciona bem para um país pequeno como
o Uruguai, cuja população é menor do que a do Rio Grande do Sul. Num país com
esse perfil, duas plantas industriais podem fazer toda a diferença”, diz o
pesquisador, numa referência à polêmica envolvendo a instalação de fábricas de
celulose na região do rio Uruguai. Neste contexto, conclui, as declarações de
Tabaré Vázquez representam tanto uma forma de pressão quanto uma ameaça real. O DESAFIO DA POLÍTICA EXTERNA Diante deste cenário, Marco Cepik resumiu do seguinte modo
um dos principais desafios para a política externa brasileira hoje: “Estamos
vivendo uma crise política que envolve o futuro do projeto da Comunidade
Sul-Americana de Nações. Precisamos usar essa crise para dar uma resposta aos
pontos que nos paralisam, algo que possa transcender instâncias como o MERCOSUL
e a Comunidade Andina de Nações, transformando-os em algo mais do que meras
uniões aduaneiras”. O Brasil precisa apostar, acrescentou, no princípio da
soberania compartilhada: “Nenhum país vai se deixar dominar pelo Brasil. Para
países como a Colômbia, onde apenas algo em torno de 400 mil pessoas pagam
imposto, e como o Uruguai, entre estar amarrado em uma união aduaneira com o
Brasil e com os Estados Unidos, é mais vantajoso ficar amarrado com este
último”. O pesquisador da UFRGS concordou com a avaliação do jornal
argentino “Clarín” que, em um editorial publicado esta semana, disse que o
MERCOSUL vive seu momento de maior fragilidade. Mas qualificou essa afirmação.
“Trata-se de uma debilidade que aponta para a necessidade de transcender o
MERCOSUL e transformá-lo em algo mais do que uma união aduaneira. O problema é
quem vai colocar o guizo no pescoço do gato e dizer que do jeito que está o
Bloco não tem futuro”. |