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O DESAFIO DA INTEGRAÇÃO O mundo multipolar e a integração
sul-americana Samuel Pinheiro
Guimarães Marzo 2008 A importância
essencial da América do Sul 3. O cenário econômico mundial se
caracteriza pela simultânea globalização e gradual formação de grandes Blocos
de Estados na Europa, na América do Norte e na Ásia; pelo acelerado progresso
científico e tecnológico, em especial nas áreas da informática e da
biotecnologia, com sua vinculação às despesas e atividades militares; pela
concentração do capital e oligopolização de mercados, medida pelo número de
fusões e aquisições que passaram de 9 mil, no valor de US$ 850 bilhões, em
1995, para 33 mil, no valor de quase 4 trilhões de dólares, em 2006, e pela
financeirização da economia, pois os ativos (ações, títulos e depósitos)
financeiros passaram de 109% da produção mundial, em 1980, para 316% em 2005;
pela transformação dos mercados de trabalho e pela pressão permanente para
reverter os direitos dos trabalhadores; pela acelerada degradação ambiental;
pela insegurança energética e pelas migrações. O cenário político mundial se caracteriza pela concentração
de poder político, militar, econômico, tecnológico e ideológico nos países
altamente desenvolvidos; pelo arbítrio e pela violência das Grandes Potências;
pela ameaça real, e sua utilização oportunista, do terrorismo; pelo desrespeito
aos princípios de não-intervenção e de autodeterminação de parte das Grandes
Potências políticas, econômicas e militares; pelo individualismo dos Estados
ricos e a insuficiente e cadente cooperação internacional; pela emergência da
China, como potência econômica e política, regional e mundial. 4. Os Estados no centro do sistema
mundial, cada vez mais ricos e poderosos, pois a diferença de renda entre
Estados ricos e pobres passou de 1 para 4 em 1914 para 1 para 7 em 2000, porém
vinculados às economias periféricas quanto a recursos estratégicos e mercados e
com uma população cadente, procuram, por meio de negociações internacionais,
definir normas e regimes que permitam preservar e até ampliar sua situação
privilegiada no centro do sistema militar, político, econômico e tecnológico
que é o resultado, por um lado, da II Guerra Mundial e dos regimes coloniais e,
por outro lado, do êxito de seus esforços nacionais, em especial na esfera
científica e tecnológica. Nesse processo, sua capacidade de articular ideologias
e de apresentar “soluções” como benéficas a toda a “comunidade internacional” é
extraordinária e importantíssima pois é a base de sua estratégia de
arregimentação de Estados e de elites periféricas cooptadas para alcançar seus
objetivos nacionais, vestidos com a capa de objetivos da humanidade. 5. Neste cenário violento e instável
de grandes blocos, multipolar, há uma tendência a que países pequenos e até
médios venham a ser absorvidos, mais ou menos formalmente, pelos grandes
Estados e economias aos quais ou se encontram tradicionalmente vinculados por
laços de origem colonial ou estão em sua esfera de influência histórica, como
no caso da América Central; ou tenham feito parte de seu território, como no
caso dos países que formam a Comunidade de Estados Independentes - CEI; ou se
vinculam por laços étnicos e culturais, como no caso da diáspora chinesa na
Ásia. 6. Os países médios que constituem a
América do Sul se encontram diante do dilema ou de se unirem e assim formarem
um grande Bloco de 17 milhões de quilômetros quadrados e de 400 milhões de
habitantes para defender seus interesses inalienáveis de aceleração do
desenvolvimento econômico, de preservação de autonomia política e de identidade
cultural, ou de serem absorvidos como simples periferias de outros grandes
blocos, sem direito à participação efetiva na condução dos destinos econômicos
e políticos desses blocos, os quais são definidos pelos países que se encontram
em seu centro. A questão fundamental é que as características, a evolução histórica
e os interesses dos Estados poderosos que se encontram no centro dos esquemas
de integração são distintos daqueles dos países subdesenvolvidos que a eles se
agregam através de tratados de livre comércio, ou que nome tenham, os quais
ficam assim sujeitos às conseqüências das decisões estratégicas dos países
centrais que podem ou não atender às suas necessidades históricas. 7. Os desafios sul-americanos diante
desse dilema, que é decisivo, são enormes: superar os obstáculos que decorrem
das grandes assimetrias que existem entre os países da região, sejam elas de
natureza territorial, demográfica, de recursos naturais, de energia, de níveis
de desenvolvimento político, cultural, agrícola, industrial e de serviços;
enfrentar com persistência as enormes disparidades sociais que são semelhantes
em todos esses países; realizar o extraordinário potencial econômico da Região;
dissolver os ressentimentos e as desconfianças históricas que dificultam sua
integração. 8. As assimetrias territoriais são
extraordinárias. Na América do Sul convivem países como o Brasil, com 8,5
milhões de quilômetros quadrados; como a Argentina, com seus 3,7 milhões de
quilômetros quadrados e em seguida outros dez países, cada um com território
inferior a 1,2 milhão de quilômetros quadrados. Três dos países da Região se
encontram voltados exclusivamente para o Pacífico, três se debruçam sobre o
Oceano Atlântico, quatro são caribenhos e dois são mediterrâneos. O Brasil tem 9. O Brasil tem 190 milhões de
habitantes, que correspondem a cerca de 50% da população da América do Sul,
enquanto o segundo maior país em população, que é a Colômbia, tem 46 milhões de
habitantes e o terceiro, a Argentina, tem 39 milhões. As taxas de crescimento
demográfico variam de 3% no Paraguai a 0,7 % no Uruguai. A América do Sul viveu
nos últimos anos um processo acelerado de urbanização, com o surgimento de
megalópoles que concentram grandes parcelas da população total de cada país, e
que exibem periferias paupérrimas e violentas. Há significativas populações de
deslocados internos no Peru, como conseqüência da luta feroz contra a insurreição
do Sendero Luminoso, e de refugiados, como no caso de colombianos na Venezuela
e no Equador. No passado, as ditaduras e os regimes militares provocaram o
exílio de numerosos militantes políticos, intelectuais, operários e
sindicalistas, com grave prejuízo para o desenvolvimento político dos países
mais afetados. Ademais, durante algumas décadas o reduzido ritmo de
crescimento econômico provocou movimentos migratórios significativos dos países
da região em direção aos Estados Unidos e à Europa Ocidental. Há um milhão de
uruguaios vivendo fora do Uruguai enquanto três milhões se encontram no país.
Há 400 mil equatorianos na Espanha e 4 milhões de brasileiros no exterior. Ao
mesmo tempo, há grandes espaços despovoados na América do Sul, onde a densidade
demográfica é inferior a 1 habitante por quilômetro quadrado, enquanto nas
megalópoles a densidade populacional atinge mais de 10.000 habitantes por
quilômetro quadrado. A América do Sul exibe índices de concentração de renda e de
riqueza, de pobreza e de indigência, de opulência e luxo, contrastes espantosos
entre riquíssimas mansões e palafitas miseráveis, entre excelentes hospitais
privados e hospitais públicos decadentes, entre escolas de Primeiro Mundo e
pardieiros escolares. Todavia, conta a América do Sul com as vantagens da
ausência de conflitos raciais agudos, ainda que ocorra discriminação racial;
com a presença dominante de idiomas de comum origem ibérica, ainda que em
alguns países existam idiomas indígenas que conseguiram sobreviver; com a
ausência de conflitos religiosos e predominância católica ao lado da rápida
expansão das igrejas protestantes; com uma população grande, mas que não é
excessiva, como em certos países asiáticos. O desafio que representa a
emergência das populações indígenas historicamente oprimidas e seus efeitos
para as relações políticas entre os países da América do Sul vão exigir,
todavia, especial atenção e habilidade. 11. Encontra-se na América do Sul a
maior floresta tropical do mundo, um tema central no debate político sobre o
efeito estufa e suas conseqüências para o clima, e o maior estoque de
biodiversidade do planeta, o qual é de grande importância para a renovação da
agricultura e para a indústria farmacêutica; uma parcela importante das
reservas de água doce do planeta, recurso cada vez mais estratégico e causa já
de conflitos em certas regiões do globo, e o maior lençol de águas
subterrâneas, o Aqüífero Guarani, que subjaz os territórios do Brasil, do
Paraguai, da Argentina e do Uruguai. As políticas
econômicas 12. Os choques do petróleo ( 1973 e 1979), o endividamento excessivo e o súbito aumento
das dívidas externas acarretaram crises e estagnação econômica que contribuíram
para o fim dos regimes militares na América do Sul, em meados da década de 13. Tais políticas neoliberais
agravaram a já elevada concentração de renda e de riqueza, ampliaram o
desemprego, contribuíram para a violência urbana, provocaram a fragilização do
Estado e dos serviços públicos, o que levou por sua vez à gradual emergência de
importantes movimentos políticos e sociais que passaram a preconizar (explícita
ou implicitamente) a revisão do modelo econômico e social neoliberal. 14. Os países da América do Sul, em
conseqüência das políticas neoliberais que determinaram a redução negociada e
às vezes até unilateral de suas tarifas aduaneiras, a privatização de suas
empresas estatais e a liberalização de seus mercados de capital, aumentaram
suas importações de produtos industriais dos países desenvolvidos e o ingresso
descontrolado de capitais estrangeiros. Essas políticas levaram à
desindustrialização em maior ou menor grau, à maior influência do capital
transnacional e à desnacionalização de importantes setores de suas economias,
em especial do setor financeiro, com efeitos econômicos, e inclusive políticos,
significativos. 15. Essa maior integração, porém de
natureza passiva, dos países sul-americanos na economia mundial é radicalmente
distinta da integração na economia global que ocorre com os países altamente
desenvolvidos ou com certos países emergentes, como a Coréia. Nesses últimos
casos, essa maior integração se verifica através da internacionalização das
atividades de suas grandes empresas de atuação transnacional mas de capital
nacional, bem como de suas exportações de alto conteúdo tecnológico enquanto
que, no caso dos países sul-americanos, se verifica através da maior
participação de megaempresas transnacionais em suas economias, já que não
possuem esses últimos países (com raras exceções) grandes empresas capazes de
se internacionalizarem, e da expansão de suas exportações de “commodities”. 16. Em decorrência, os países da
América do Sul retomaram, voluntária ou involuntariamente, sua especialização
histórica na exportação de produtos primários, tradicionais ou novos, com maior
grau, por vezes, de elaboração, para atender à demanda dos países altamente
desenvolvidos e da China. Assim, grosso modo, sua agricultura se sofisticou e
passou a ser denominada de agribusiness; sua indústria foi adquirida ou cerrou
suas portas em um processo de desindustrialização/desnacionalização e muitas de
suas empresas de serviços, em especial as empresas modernas e aquelas do setor
financeiro, foram adquiridas por megaempresas transnacionais. 18. Assim, em grande parte se explicam
as baixas taxas de crescimento na América do Sul, das décadas de 80 e 90,
quando comparadas às de alguns países da Ásia, e a eventual derrocada dos
governos neoliberais na Argentina, no Brasil, no Chile, na Bolívia, no Equador
e na Venezuela. Nos últimos anos, surgiram na América do Sul governos que
procuram manter as políticas de austeridade fiscal e de controle inflacionário
enquanto tentam ressuscitar o Estado como agente suplementar do desenvolvimento
econômico e como agente de redução da desigualdade social, diante das enormes
injustiças e das pressões dos segmentos historicamente oprimidos em suas
sociedades. O Bloco sul-americano Em primeiro lugar, o trauma da desintegração dos
Vice-Reinados do Império espanhol a partir de Segundo, a tentativa do notável economista argentino, Raul
Prebisch, de explicar as razões do desenvolvimento na América do Norte em
confronto com o atraso sul-americano levou à formulação da teoria
estruturalista pela Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL). Prebisch
encontrou essas razões nas características das economias primário-exportadoras
sul-americanas e na natureza de seu processo de incorporação do progresso
tecnológico; na reduzida dimensão e no isolamento de cada mercado nacional; na
deterioração secular dos termos de intercâmbio; na importância da
industrialização como estratégia para a transformação econômica. Em terceiro lugar, a percepção de êxito da experiência de
planejamento econômico e de industrialização acelerada vivida pela União
Soviética, da experiência keynesiana e da planificação de guerra
norte-americana e, finalmente, as políticas de economia mista e de planejamento
indicativo dos governos socialistas europeus após a II Guerra Mundial. Quarto, na experiência de construção da Comunidade Econômica
Européia, fundada na integração de mercados, na elaboração de políticas comuns
e no financiamento pelos países mais ricos do esforço de redução de assimetrias
entre as economias participantes. 20. Este conjunto de experiências
inspirou os programas de desenvolvimento econômico com base na
industrialização, em especial no Brasil durante o Governo Juscelino Kubitschek,
as propostas da CEPAL de constituição de um mercado comum latino-americano, as
propostas argentinas de criação de uma área de livre comércio que reunificasse
economicamente as partes do antigo Vice-Reinado do Prata, e estimulou à
constituição em 1960 da Associação Latino-Americana de Livre Comércio – ALALC. 21. Naturalmente, ao processo de
integração da América do Sul e do Cone Sul subjazia a latente rivalidade entre
Brasil e Argentina por influência política na região do Rio da Prata, os
resquícios de um passado de lutas e a lembrança da inicial predominância
industrial argentina. E outros ressentimentos decorrentes de conflitos e
quase-conflitos passados, como entre Chile e Argentina; entre Bolívia, Chile e
Peru; entre Peru e Equador; entre Colômbia e Venezuela, entre a Bolívia e o
Paraguai, entre Brasil e Paraguai e entre Brasil e Bolívia. 24. Em 1969, os países andinos
celebraram o Pacto Andino (mais tarde CAN) como um projeto mais audacioso de
integração e de planejamento do desenvolvimento, prevendo inclusive a alocação
espacial de indústrias entre os Estados membros e a elaboração de políticas
comuns, inclusive no campo do investimento estrangeiro. 25. Em 26. Em 1985, Brasil e Argentina
decidiram lançar um processo de integração bilateral gradual, com o objetivo
central de promover o desenvolvimento econômico, a que se juntaram, em 1991,
Paraguai e Uruguai, formando-se assim o MERCOSUL. Este último surgiu como um
projeto enquadrado na concepção do Consenso de Washington do livre comércio
como instrumento único e suficiente para a promoção do desenvolvimento, redução
das desigualdades sociais e geração de empregos, na melhor tradição das Escolas
de Manchester e de Chicago. 27. Após a conclusão do NAFTA em 1994,
em que o México na prática abandonou a ALADI, os Estados Unidos, no contexto da
Cúpula das Américas, lançaram um projeto ambicioso de negociação de uma Área de
Livre Comércio das Américas (ALCA). Esse projeto, na realidade, mais do que uma
área de livre comércio de bens, criaria um território econômico único nas
Américas, com a livre movimentação de bens, serviços e capital (mas não de
mão-de-obra ou tecnologia) e estabeleceria regras uniformes ainda mais
restritivas à execução de políticas nacionais ou regionais de desenvolvimento econômico,
já que as propostas originais eram OMC-Plus e NAFTA-plus (e parecem continuar a
ser tais como revelam os textos dos tratados bilaterais de livre comércio,
celebrados pelos Estados Unidos). 28. Apesar das declarações diplomáticas
feitas na ocasião, e reiteradas posteriormente, de que a ALCA não afetaria os
projetos de integração Regional como a Comunidade Andina e o MERCOSUL, estava
claro que a eventual concretização da ALCA eliminaria de fato a possibilidade
de formação de um Bloco econômico e político sul-americano. 29. Após o início das negociações da
ALCA, e diante da extrema desigualdade de forças políticas e econômicas entre
os países participantes, a negociação se interrompeu em 2004, após os Estados
Unidos terem retirado os temas agrícolas e de defesa comercial (antidumping e
subsídios) levando-os para o âmbito da OMC sob o pretexto de ser necessária uma
negociação mais abrangente, inclusive com a União Européia. Em conseqüência e
para equilibrar as negociações, o MERCOSUL considerou que os temas de
investimento, compras governamentais e serviços deveriam também passar para o
âmbito da Rodada de Doha na OMC e propôs aos Estados Unidos a negociação de um
acordo do tipo 4+1, no campo do comércio de bens, proposta até hoje sem
resposta, ou melhor, cuja resposta prática tem sido a firme atividade
norte-americana de negociação de acordos bilaterais de livre comércio (na
realidade com escopos muito mais amplos) com os países da América Central, a
Colômbia, o Peru e (quase) com o Equador. 30. Paralelamente, o MERCOSUL
empreendeu a negociação e celebrou acordos de livre comércio com o Chile
(1995), com a Bolívia (1996), com a Venezuela, Equador e Colômbia (2004), e com
o Peru (2005), que se referem exclusivamente ao comércio de bens e não incluem
o comércio de serviços, compras governamentais, regras sobre investimentos,
propriedade intelectual, etc. 31. Em 2002, o Congresso dos Estados
Unidos tinha aprovado o ATPDEA (Andean Trade Promotion and Drug Eradication
Act) pelo qual concederiam unilateralmente preferências comerciais, sem
reciprocidade de parte dos beneficiários, para listas de produtos de países
andinos em troca da execução de programas de erradicação das plantações de
coca. O resultado da aplicação durante cinco anos dessa lei foi, de um lado,
expandir as exportações de tais produtos desses países para os Estados Unidos
e, de outro, ensejar o surgimento nesses países de grupos de interesses
empresariais locais favoráveis à negociação de acordos de livre comércio com os
Estados Unidos quando se encerrasse o prazo de vigência daquele Ato. 32. Posteriormente, foi lançada em
2004, em Cusco, o projeto de formação de uma Comunidade Sul-Americana de
Nações, hoje denominada UNASUL, organização que se pretenderia semelhante à
União Africana, na África; à União Européia na Europa; à ASEAN, na Ásia; e ao
MCCA, na América Central. As negociações para concretizar a UNASUL têm
encontrado três distintas resistências: primeiro, a de países que celebraram
acordos de livre comércio com os Estados Unidos; segundo, a de países que dão
prioridade ao fortalecimento do MERCOSUL e que acreditam que o Brasil estaria
“trocando” o MERCOSUL pela UNASUL; terceiro, a de países que consideram ser
necessário uma organização mais audaciosa, com base na solidariedade e na cooperação
e não naquilo que consideram ser o individualismo “mercantilista” das
preferências comerciais, dos projetos de investimento e do livre comércio. A Argentina e a
estratégia de integração brasileira 33. Não há a menor possibilidade de
construção de um espaço econômico e político sul-americano (economicista ou
solidarista, não importa) sem um amplo programa de construção e de integração
da infra-estrutura de transportes, de energia e de comunicações dos países da
América do Sul. O comércio entre os seis países fundadores da Comunidade
Econômica Européia correspondia em 34. Uma das maiores dificuldades dos
países da América do Sul é o acesso a crédito para investimentos em
infra-estrutura devido a limites ao endividamento externo e à falta de acesso a
instrumentos de garantia. Este acesso ao mercado internacional de capitais é
tanto mais importante quanto maior for a dificuldade desses países em elevar
sua poupança interna, devido à prioridade concedida ao serviço da dívida
interna e externa. O Brasil tem contribuído para o fortalecimento da Cooperação
Andina de Fomento – CAF, entidade financeira classificada como AA no mercado
internacional e voltada para investimentos em infra-estrutura, e tem
participado, de forma positiva e prudente, do processo de construção de um
Banco do Sul que se deseja eficiente. O Brasil é um dos poucos, senão o único país da Região, que
dispõe de um forte banco de desenvolvimento, cujos ativos são de US$ 87
bilhões, maiores que os do Banco Interamericano de Desenvolvimento - BID ( US 66 bilhões), que pode emprestar recursos para a
execução de obras de infra-estrutura em condições competitivas com as do
mercado internacional e sem condicionar tais empréstimos a “compromissos” de
política externa ou à execução de “reformas” econômicas internas. É parte
essencial da estratégia brasileira de integração fornecer crédito aos países
vizinhos para a execução de obras de infra-estrutura e, no futuro, vir a
fornecer créditos a empresas desses países em condições normais semelhantes às
que se exigem de empresas brasileiras, tendo em vista o interesse vital
brasileiro no crescimento e no desenvolvimento dos países vizinhos até mesmo
por razões de interesse próprio, devido à grande importância de seus mercados
para as exportações brasileiras e, em conseqüência, para o nível de atividade
econômica geral e de suas empresas. 35. Além da integração da
infra-estrutura física em termos de rodovias, pontes, ferrovias e de energia é
essencial a integração das comunicações aéreas, pela sua importância para a
economia e a política, assim como da mídia em especial a televisão, essencial à
formação do imaginário sul-americano, através do conhecimento da vida política,
econômica e social dos países da Região, hoje desconhecida do grande público e,
portanto, fonte de toda sorte de preconceitos e manipulações que envenenam a
opinião pública e afetam os discursos, as atividades e as decisões políticas. A
TV Brasil - Canal Integración e a TELESUR são experiências não-hegemônicas de
integração de comunicações, assim como a iniciativa brasileira de procurar
estabelecer um padrão Regional de TV Digital, com a participação dos Estados do
MERCOSUL, inclusive no processo industrial. Assim, a integração energética da Região permitirá reduzir
as importações extra-regionais e fortalecer a economia da América do Sul. No
esforço de fortalecer e de integrar o sistema energético da Região, o Brasil
tem financiado a construção de gasodutos na Argentina e tem se empenhado na
concretização do projeto do Grande Gasoduto do Sul que deverá vincular os
maiores centros produtores de energia (a Venezuela e a Bolívia) aos maiores
mercados consumidores (o Brasil, a Argentina e o Chile). O Brasil está disposto
a compartilhar a tecnologia que desenvolveu na área dos biocombustíveis,
acreditando que a crise energética e ambiental somente poderá ser enfrentada
com eficiência a partir de uma modificação gradual da matriz energética
mundial, de uma redução do consumo e do desperdício nos países altamente
desenvolvidos, principais responsáveis pela emissão de gases de efeito estufa. O Brasil, apesar de ser o maior país da Região, não acredita
ser possível desenvolver-se isoladamente sem que toda a Região se desenvolva
econômica e socialmente e se assegure razoável grau de estabilidade política e
segurança. Assim, a solidariedade nos esforços de desenvolvimento e de
integração é uma idéia central na estratégia brasileira na América do Sul,
assim como a idéia de que este processo é um processo entre parceiros iguais e
soberanos, sem hegemonias nem lideranças. Finalmente, houve considerável expansão das populações de
imigrantes intra-regionais. Todos esses fatores contribuem para a formação de
um mercado único sul-americano, já que, implementados os acordos comerciais
bilaterais entre países da Região, cerca de 95% do comércio intra-Regional será
livre de tarifas, em No campo externo, a estratégia brasileira visa a ampliar os
mercados para as exportações do MERCOSUL através da negociação de acordos de
livre comércio ou de preferências comerciais com países desenvolvidos, como no
caso da União Européia; e com países em desenvolvimento tais como a Índia e a
África do Sul, em busca da abertura de mercados e visa a prestigiar e
fortalecer o processo de negociação em conjunto, que não só favorece os
parceiros maiores, mas também os parceiros menores do MERCOSUL, na medida em
que obtêm eles condições de acesso que possivelmente não alcançariam caso
negociassem isoladamente. 41. Em um sistema mundial cujo centro
acumula cada vez mais poder econômico, político, militar, tecnológico e
ideológico; em que cada vez mais aumenta o hiato entre os países desenvolvidos
e subdesenvolvidos; em que o risco ambiental e energético se agrava; e em que
este centro procura tecer uma rede de acordos e de normas internacionais que
assegurem o gozo dos privilégios que os países centrais adquiriram no processo
histórico e em que dessas negociações participam grandes blocos de países, a
atuação individual, isolada, nessas negociações não é vantajosa, nem mesmo para
um país com as dimensões de território, população e PIB que tem o Brasil.
Assim, para o Brasil é de indispensável importância poder contar com os Estados
vizinhos da América do Sul nas complexas negociações internacionais de que
participa. Mas talvez ainda seja de maior importância para os Estados vizinhos
a articulação de alianças entre si e com o Brasil para atuar com maior
eficiência na defesa de seus interesses nessas negociações. 42. Apesar das assimetrias de toda ordem que caracterizam os
países da Região, somos todos subdesenvolvidos e as características centrais do
subdesenvolvimento são as disparidades sociais, as vulnerabilidades externas e
o potencial não-explorado de nossas sociedades. No caso das desigualdades
sociais, a América do Sul se caracteriza como uma das Regiões do mundo onde há
a maior concentração de renda e de riqueza e onde há ativos enormes aplicados
no exterior, resultado de “fugas” históricas de capital. Por outro lado, o
Brasil tem procurado estabelecer programas de combate à fome e à pobreza, e de
natureza social em geral, que podem ser objeto de útil intercâmbio de
experiências. Uma das características da região é o crescente número de
imigrantes ( legais e ilegais) de refugiados e de
deslocados cuja situação necessita ser regularizada de forma solidária e
humanitária, a exemplo do que têm feito a Argentina e a Venezuela. O Brasil tem como prioridade a cooperação nas áreas de
fronteira, cada vez mais vivas, a promoção de eliminação de vistos e de
exigências burocráticas que dificultam a circulação de mão de obra e a
negociação da concessão de direitos políticos aos cidadãos sul-americanos em
todos os países da Região, a começar pelo Brasil. A decisão brasileira de
tornar obrigatório o espanhol no ensino médio no Brasil contribuirá para o
processo de integração social e cultural da América do Sul. 43. No campo da política, os mecanismos
de integração devem propiciar e estimular a cooperação entre os Estados
sul-americanos nos foros, nas disputas e nas negociações internacionais,
encorajar a solução pacífica de controvérsias, sem interferência de potências
extra-regionais, o respeito absoluto e estrito aos princípios de
não-intervenção e de autodeterminação, i.e. não deve nenhum Estado e muito menos
o Brasil imiscuir-se nos processos domésticos dos países vizinhos nem procurar
exportar modelos políticos por mais que os apreciemos para uso interno. O Brasil tem, como princípio, manter-se sempre imparcial
diante de disputas que surgem periodicamente entre países vizinhos, bastando
lembrar a ressurreição da questão da mediterraneidade entre Bolívia, Chile e
Peru; da fumigação na fronteira entre o Equador e Colômbia; das divergências
ocasionais entre Colômbia e Venezuela; da questão das papeleiras entre
Argentina e Uruguai. E o Brasil tem procurado tratar com generosidade e lucidez
política, e não com o rigor do economicismo míope, apesar das resistências
internas e dos preconceitos de setores conservadores da sociedade brasileira,
as reivindicações econômicas, em relação ao Brasil, que fazem por vezes
Bolívia, Paraguai e Uruguai. O Parlamento do MERCOSUL será o foro para o
conhecimento mais íntimo dos políticos e dos estadistas dos países da América
do Sul, contribuindo para o indispensável ambiente político a um processo de
integração. 44. No processo de integração do
MERCOSUL e da América do Sul e nas relações políticas com o mundo multipolar
violento e “absorvedor” em que vivemos, Brasil e Argentina se encontram unidos
pelos objetivos comuns de transformar o sistema internacional no sentido de que
as normas que regem as relações entre os Estados e as economias sejam de tal
natureza que os países em desenvolvimento como o Brasil e a Argentina preservem
o espaço necessário para a elaboração e a execução de políticas de
desenvolvimento que permitam superar as desigualdades, vencer as
vulnerabilidades e realizar o potencial de suas sociedades. 45. No mundo arbitrário e violento em
que vivem o Brasil, e a América do Sul, é indispensável ter forças armadas
proporcionais a seu território e à sua população. A estratégia brasileira de
defesa vê o continente sul –americano de forma integrada e considera a
cooperação militar entre as Forças Armadas, inclusive em termos de indústria
bélica, como um fator de estabilidade e de equilíbrio Regional através da
construção de confiança. A inexistência de bases estrangeiras no continente
sul-americano, à exceção de Manta, é um importante fator político e militar
para o desenvolvimento e a autonomia Regional. Por outro lado, o Brasil rejeita
qualquer intervenção política, e ainda mais militar, de origem extra-regional
nos assuntos da América do Sul. Os programas de intercâmbio militar exercem
importante papel no processo de construção da confiança, assim como a participação
de efetivos militares de países da Região em operações de paz das Nações
Unidas, em especial na Minustah. 46. Finalmente, como mencionou o
Ministro Celso Amorim, é necessário promover a integração e o desenvolvimento
econômico e social de nossos países antes que o crime organizado o faça em suas
diversas facetas: o narcotráfico, o contrabando, o tráfico de armas. A coordenação política que ocorre entre a Argentina e o
Brasil na defesa de seus interesses nos foros, nas negociações, nos conflitos e
nas crises internacionais atingiu extraordinária intensidade e eficiência e foi
isto que nos permitiu agir no âmbito do Conselho de Segurança, das negociações
ambientais, das negociações hemisféricas desiguais e das negociações
multilaterais econômicas da Rodada Doha, através do G-20, de modo a impedir o desequilíbrio
de seus resultados e a garantir o espaço necessário às nossas políticas de
desenvolvimento econômico. 48. Falta muito a fazer, em especial
nos campos avançados do desenvolvimento científico e tecnológico que plasmarão
a sociedade do futuro, tais como as atividades espaciais, aeronáuticas,
nucleares, de defesa, de informática e de biotecnologia. É necessário e
indispensável que todos os organismos da estrutura burocrática dos Estados
brasileiro e argentino, ainda muitas vezes envolvidos em rivalidades,
ressentimentos e desconfianças históricas, compreendam o desafio que a Nação
argentina e a Nação brasileira enfrentam neste início do Século XXI,
compreendam a visão estratégica dos presidentes Nestor Kirchner e Luiz Inácio
Lula da Silva e contribuam, assim, para que se realize a faceta gloriosa da
profecia de Juan Domingo Perón: “O Século XXI nos encontrará unidos ou
dominados”. * Samuel Pinheiro Guimarães é Secretário-Geral das Relações
Exteriores do Brasil. |