A integração é atributo dos Estados e não do setor privado

 

 

Gilberto Maringoni

Julio 2006

Quem assiste a uma intervenção de Ali Rodríguez Araque, 68, Ministro das Relações Exteriores da Venezuela, aparentemente encontra poucos pontos de contato com dirigentes políticos de seu país. Ex-presidente da poderosa PDVSA (Petróleos de Venezuela S. A.), este advogado não tem a retórica inflamada comum aos líderes caribenhos. Seu estilo é sintético, preciso e de poucos adjetivos.

Rodriguez tem uma tortuosa carreira política. Militante do PCV (Partido Comunista da Venezuela), no final dos anos 1950, logo aderiu ao braço armado da agremiação, as FALN (Forças Armada de Libertação Nacional). Entre 1962 e 1981, conhecido como “Comandante Fausto”, ele desenvolveu intensa atividade guerrilheira, no campo e na cidade, até ser preso. Libertado pouco depois, aderiu ao partido Pátria Para Todos (PPT), originário do PCV. Elegeu-se deputado federal e especializou-se em questões ligadas ao petróleo. Vem daí sua fama de negociador paciente, calmo e duro.

Ali Rodríguez foi protagonista da primeira grande investida do governo Chávez no terreno internacional, quando acumulou as funções de Ministro das Minas e Energia e a Secretaria-geral da OPEP (Organização dos Países Produtores de Petróleo), em 2000. Sua atuação foi decisiva para que, em pouco mais de um ano, o preço do produto saltasse de US$ 9 para US$ 22 o barril, revertendo uma tendência de baixa que estrangulava a economia dos países exportadores.

Há alguns dias, em Caracas, Rodríguez proferiu uma palestra na Cúpula da Dívida Social e concedeu uma entrevista a Carta Maior. Os principais trechos de ambas são publicados abaixo.

LIVRE CIRCULAÇÃO DE CAPITAIS

O que vemos no mundo é um processo de concentração de capital e de monopolização como nunca ocorreu antes na História. Hoje trafegam pelo mundo quantidades incalculáveis de dinheiro em intensas ações especulativas.O irônico é que quanto mais se fala em livre circulação de capitais e de mercadorias, maiores são as restrições para a circulação de pessoas. Isso tudo gera um aumento da pobreza em todo o mundo. Quanto maior é a pobreza, especialmente nos países do sul, maior é a migração rumo ao norte. Na fronteira entre o México e os Estados Unidos, por exemplo, há uma enorme barreira para impedir a passagem de seres humanos.

CONFLITO E IDEOLOGIA

O conflito mundial atual não tem por base exatamente a ideologia – como no caso leste/oeste de outros tempos – mas é de natureza social, opondo o norte e o sul. Hoje se debate nos Estados Unidos uma maior rigidez nas leis de imigração, a qual é resultado exatamente pelas políticas imperiais da Casa Branca.

INTEGRAÇÃO PARA QUÊ?

Quando se fala em integração latino-americana, todos a princípio são a favor. Mas vale a pergunta: vamos nos integrar para quê, mesmo? Como? Temos de nos integrar para reduzir a pobreza, para desenvolver os formidáveis potenciais dessa nossa Região e para colocar esses recursos a favor dos seres humanos.

ALCA E TLCs

Contra a integração colocam-se dois mecanismos inconciliáveis com nossas concepções, a Alca (Área de Livre Comércio das Américas) e os tratados de livre-comércio (TLCs). Sobre estes últimos, o caso mexicano é impressionante. O país faz parte há anos de uma área desse tipo com EUA e Canadá. Pois bem, depois dos ingressos petroleiros, a maior fonte de divisas do México com o exterior são as remessas dos emigrantes que vão aos EUA.

POLÍTICAS INCONCILIÁVEIS

O processo de integração não e um caminho tranqüilo. Tem à sua frente o desafio do poder imperial, sob o palavreado vazio do livre-mercado. Assim, há duas políticas excludentes entre si. A primeira é a dos interesses imperiais. A segunda é a da integração, que implica complementariedade, solidariedade e soberania.

INTEGRAÇÃO E ESTADO

Para fazermos a integração, temos de pensar em nossos potenciais. Vou dar o exemplo da Venezuela e da Argentina. Nós somos uma grande potência energética. A Argentina é uma grande potência agrícola e tecnológica. Somos complementares. Importamos produtos e tecnologia e eles demandam gás e petróleo. O Gasoduto do Sul é um caminho decisivo para essa integração. Mas há outras empresas de energia no continente. É o caso da Petrobras. Ao queremos competir com ela. Também somos complementares. Ela tem tecnologia para extração de petróleo em águas profundas, nós extraímos de terra firme, o que é mais barato. Mas ainda não exploramos nossas bacias oceânicas. Podemos nos integrar para realizar essas explorações. Para a etapa seguinte, estamos construindo uma refinaria junto com a empresa brasileira em Pernambuco. Assim, trocamos o esforço competitivo pelo esforço colaborativo mútuo. Há um destaque a ser feito: a política de integração é atributo dos Estados nacionais e não do setor privado. É política de Estado, por suas características estratégicas e de longo prazo. A cooperação é a melhor maneira de estabilizarmos a Região.

VENDA DE PETRÓLEO

Comentam que a Venezuela está dando petróleo a alguns países. Não fazemos isso a ninguém. Apenas damos prazo, condições de pagamento, com juros abaixo dos cobrados pelo mercado financeiro, a alguns parceiros. Não é doação, é solidariedade. Essa nossa política não está condicionada a nada. No caso do Equador, por exemplo, vamos comprar títulos da sua dívida pública. Sua grande ironia é ser um país petroleiro que importa derivados. Com a Bolívia, vamos auxiliar na redução da pobreza, ajudar na capacitação tecnológica e realizar um fundo financeiro para projetos diversos.

NACIONALIZAÇÃO BOLIVIANA

Evo Morales, durante a campanha eleitoral, comprometeu-se a nacionalizar o gás. E cumpriu. Há uma campanha internacional grotesca e grosseira contra Evo e contra Lula. Na reunião de Porto Iguazú, entre os presidentes da Argentina, Bolívia, Brasil e Venezuela houve uma decisão unânime pelo auxílio à Bolívia.

INGRESSOS PETROLEIROS

Nós vivemos uma situação paradoxal durante a abertura petroleira [política adotada no início dos anos 1990, de internacionalizar a PDVSA, abrindo o país para a exploração de empresas privadas do setor]. Essa política reduziu enormemente o pagamento de royalties ao Estado. Esse mecanismo é que possibilita ao proprietário dos recursos viabilizar sua exploração. É o principal instrumento de realização da soberania.

AVIÕES DA EMBRAER

A questão da venda dos aviões da Embraer para a Venezuela envolve cláusulas penais nos contratos entre a empresa e os fornecedores de equipamentos nos EUA. A Embraer não é uma empresa do Estado brasileiro. As conversações continuam e há até a possibilidade de a Embraer instalar uma fábrica na Venezuela.

COMUNIDADE ANDINA

A Venezuela saiu da Comunidade Andina de Nações (CAN). Ela surgiu através do Acordo de Cartagena, em 1969, e constituiu-se num passo muito positivo. Mas aos poucos essa articulação se desnaturou pelas orientações neoliberais e desviou-se para tratados de livre-comércio de cada país com os EUA. Não é preciso ser profeta para examinar o futuro desses tratados. Na Venezuela, 64% dos produtos que consumimos provêm de empresas transnacionais. Se assinarmos os TLCs, sufocamos nossa economia.

MERCOSUL
O MERCOSUL representa 75% do PIB da América do Sul. A certa altura, houve aqui também um enfoque neoliberal, de se fazer apenas ma integração comercial e aduaneira. Mas houve uma grande reação dos povos, e esta orientação mudou. Falta apenas uma formalização para nosso país se integrar plenamente ao Bloco. Há conflitos em seu interior, como a recente diferença entre Uruguai e Argentina. Acreditamos que as soluções apropriadas serão encontradas no interior do próprio Bloco, pois o conflito é real. Não há contradição entre o MERCOSUL e a Alba (Aliança Bolivariana as Américas). São articulações complementares. Há especificidades e assimetrias que podem ser resolvidas com o tempo.

MUNDO MULTPOLAR

Queremos a paz e a estabilidade nas relações internacionais. Esses dois atributos foram comprometidos com o fim da União Soviética, que possibilitava um relativo equilíbrio de foras. Não pode haver estabilidade num mundo unipolar. Por isso, buscamos estreitar nossas relações com a China, com a Índia e com a Comunidade Européia. Queremos um mundo multipolar. A América Latina é peça chave nessa engenharia política.