MERCOSUL, Sua Evolução, Crises e Propostas
Abraham Benzaquen Sicsú Frederico Jayme Katz Romina Paradiso Enero de 2005 1.
Introdução. Neste artigo, tomando
como ponto de partida o resgate da lógica de formação e evolução do Mercosul,
bem como a observação de suas crises recentes, procura-se apontar aspectos que,
se considerados, poderão dar maior sustentabilidade e solidez ao Bloco. Para
tal, analisa-se a história de sua constituição, alguns traços relevantes de sua
performance nos primeiros anos de sua existência, sem esquecer os momentos de
crises e de refluxo em seu ímpeto. A idéia é que o estudo destes comportamentos
ajude a entender as razões destes movimentos cíclicos e, contando também com o
apoio de elementos analíticos, se possam fazer sugestões sobre mecanismos que
ajudem a contornar as dificuldades por que vêm passando, que se espera sejam
transitórias. 2. Breve Histórico. A formação de
Blocos Econômicos foi adotada por diversos grupos de países nos últimos tempos,
entendendo-se que pode vir a beneficiar
os participantes de diversas maneiras. Em boa parte os ganhos estarão,
naturalmente, ligados ao fato de que passarão a dispor de um mercado maior,
onde vigorará certa proteção. Além do aumento no numero de consumidores, este
mercado ampliado pode propiciar: (1) Economias de escala, por permitir que,
algumas indústrias, instalem plantas maiores; (2) Intensificação da
concorrência, que venha a ser obtida pela viabilização da operação de um número
maior de empresas de alguns ramos, graças a maior dimensão do mercado; (3)
Menor dependência de moedas fortes de outros países, pois, parte do comércio
internacional será dentro do bloco; (4) Possibilidade de desenvolver novas
atividades nos campos tecnológico e industrial, antes inviabilizadas pelo isolamento
(melhor aproveitamento da sinergia); (5) Aumento do poder de negociação frente
a outros países ou blocos; (6) Apoio mútuo com vistas ao desenvolvimento, e a
articulação de suas condições, pela tendência a generalização dentro do bloco
de certos avanços econômicos e sociais (Tamanes e Huerta, 1999, pp. 213/8).
Mencionam-se outros ganhos, entre eles o enfrentamento de problemas que
transcendem as fronteiras nacionais como a defesa do meio ambiente, o combate
ao tráfico de drogas. Por fim, vale lembrar que a constituição de Blocos está também alinhada com a
idéia de utilizar uma estratégia de desenvolvimento econômico que combine o
‘Modelo Voltado para Fora’ com o ‘Modelo Voltado para Dentro’, estratégia
vencedora adotada pelos paises desenvolvidos (Lima e Katz). O Mercado Comum do
Cone Sul da América Latina - Mercosul, instituído formalmente pelo Tratado de
Assunção, celebrado entre a Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai em 1991,
constitui um bloco de integração econômica regional, formalmente classificável
como um ‘mercado comum’ [1].
Embora, na prática, sua implantação esteja ainda incompleta. O Tratado previa
um período de preparação e negociações, que se estenderia até 1994, quando as
principais medidas nele definidas deveriam entrar em vigor, eliminando-se –
salvo no caso de exceções especificadas - todas as barreiras tarifárias entre
os países membros e implementando-se uma “tarifa externa comum” (TEC), assim
como outras medidas de incentivo à livre circulação de bens, serviços e fatores
de produção, dentro do marco geográfico compreendido por esses países. Por
motivos diversos, o cronograma de implantação sofreu atrasos e, oficialmente, o
Bloco foi implementado em 1995, com a institucionalização da entrada em vigor
da TEC acordada. Até 1997, o Mercosul parecia estar em crescente consolidação –
mas, a partir do ano seguinte, problemas de balanças de pagamentos, associados
à conjuntura do mercado internacional e a inconsistências e incompatibilidades
entre as políticas macroeconômicas (sobretudo cambiais) dos dois maiores
parceiros, levaram a uma queda acentuada do comércio intra-Bloco. Apesar disso,
e da intensa crise que atravessou a Argentina e, ainda, das incertezas
relacionadas com as negociações para criação da Área de Livre Comércio das
Américas (ALCA), o Mercosul continua sendo visto, pelos governos de seus países
membros, como uma experiência positiva e como uma esperança de caminho para
fortalecimento de suas economias e promoção do desenvolvimento na Região. A constituição do
Mercosul pode ser vista como a etapa mais recente de uma longa história de
tentativas de se aproximarem as economias – assim como outras dimensões da vida
social – dos países latino-americanos, inspiradas, possivelmente, na visão da
União Latino-americana idealizada por Simon Bolívar, ainda no início do
processo de surgimento das primeiras nações independentes na América do Sul [2]. Embora algumas
tentativas preliminares tenham ocorrido já na década de 1950, os passos mais
concretos no sentido da integração foram dados em 1960, com a criação da ALALC
– Associação Latino-Americana de Livre Comércio, abrangendo, além dos atuais
parceiros do Mercosul, o Chile e o México, com a adesão posterior da Bolívia e
Venezuela. Essa Associação – transformada em ALADI (Associação Latino-Americana
de Integração), em 1980 – já colocava como objetivo de longo prazo a
liberalização total do comércio entre todos os países membros, ao mesmo tempo
em que favorecia a aproximação e busca de integração entre grupos menores,
cujas condições econômicas e políticas fossem mais favoráveis. Foi no marco de
tais aproximações parciais que se firmaram, em 1986 – após a queda dos governos
militares nos dois países, e sob o forte impacto dos efeitos da crise da dívida
externa – os acordos de cooperação entre o Brasil e a Argentina, com vistas a
incrementar o comércio em setores chaves para as economias dos dois países,
como petróleo, bens de capital, trigo e automóveis. Os avanços no processo de
negociação e implementação desses acordos levaram à celebração, em 1988, do
Tratado de Integração, contemplando a formação de um mercado comum, abrangendo
as duas maiores economias da América do Sul. Pouco depois, em 1990, os vizinhos
menores, Paraguai e Uruguai, que já tinham aqueles dois países como principais
parceiros comerciais, formalizaram sua intenção de aderir ao Bloco - o que
levou, finalmente, à institucionalização do Mercosul, em março de 1991, com a
celebração do já referido Tratado de Assunção. 3 - As relações intra
Mercosul – crises e contradições. Após
a desvalorização do real em 1999, Argentina e Brasil passaram por um período de
desgaste em suas relações diplomáticas e comerciais. É justa a queixa
Argentina, de que a desvalorização do real tornou os produtos brasileiros mais
baratos e competitivos para o comércio internacional, prejudicando suas
exportações, assim como passando a competir em posição privilegiada em seu
mercado interno. Mas, passados anos do episódio, e a luz dos dados e gráficos
apresentados a seguir, é óbvio que isto foi responsável apenas por uma parte,
pequena, dos fatores que levaram o país vizinho àquela crise. A questão
central, que prejudicou a Argentina frente a todo o resto do mundo, e não só ao
Brasil, foi sua política de taxa de câmbio fixa, um Peso igual a um Dollar norte-americano. Lopes
(1991) ressalta que para conseguir manter fixa a taxa de câmbio nominal é
preciso atender a três condições (ou pré-requisitos): (1) reservas em moedas
estrangeiras suficientes no Banco Central para lastrear toda a base monetária[3];
(2) abrir mão de uma política monetária para solucionar qualquer déficit do
tesouro; e, ainda, (3) que o nível da taxa de câmbio real seja compatível
com o equilíbrio a médio e longo prazo
do balanço de pagamentos. Passemos
a analisar um a um esses pré-requisitos: com respeito ao primeiro, baseados nas
informações da Tabela 1, podemos observar o desempenho das reservas em moedas
estrangeiras, ouro e títulos nacionais em moeda estrangeira do Banco Central
Argentino. Essa tabela mostra o esforço argentino no sentido de manter as
reservas de ativos internacionais elevadas, sendo esses esforços frustrados a
partir de 1999 e ainda mais frustrados em 2001. Tabela 1 Argentina: Reservas
de ativos Internacionais – saldos ao final do período - em milhões de US$
FONTE:
disponível em: www.mecon.gov.ar
Não é difícil entender por que isto aconteceu
se lembrarmos que essas reservas são mantidas pelas exportações (que trazem
para o país divisas estrangeiras) e pelo fluxo de capital externo no país
(investimentos diretos, por exemplo). No caso argentino, percebe-se que essa
condição tornou-se insustentável, primeiro por que a Argentina é um país que
acumulou grandes déficit na Balança Comercial (conforme mostra a Tabela 3) e,
conseqüentemente, no Balanço de Pagamentos – saldo em conta corrente (vide
Tabela 2), que acabam sendo financiados por essas reservas; e segundo, por que
a expectativa pelo investimento externo deixa a economia extremamente
vulnerável a conjunturas externas e a ataques especulativos. Segundo Sachs
(2001), “A Argentina sofre crises com muita freqüência por que os investidores
estão sempre a temer o pior e retiram os fundos ao primeiro sinal de problema,
o que aprofunda as crises ainda mais”. Tabela 2
Argentina:
Saldo em Conta Corrente - US$ milhões
Tabela 3
Argentina:
Comércio Exterior – (milhões de dólares)
Fonte: www.mercosur.org.uy Com relação à segunda condição, ao adotar a
conversibilidade, a economia fica sem o instrumental monetário para sanar
problemas de déficit do tesouro. Ou seja, segundo Lopes & Rossetti (1998:
256): “Quanto
à base monetária, cabe assinalar que ela pode ser alterada, exogenamente pelas
autoridades monetárias. As alterações nessa variável, geralmente destinam-se às
seguintes finalidades: a) financiar déficit orçamentários do governo; b)
Conceder empréstimos de liquidez aos bancos comerciais; c) Realizar operações
de compra e venda de moeda estrangeira, necessárias para a realização de
transações econômicas do país com o resto do mundo” [grifo nosso]. Ao observar o Gráfico 1, perceberemos que existe na
Argentina uma crescente dívida interna e, ainda pela Tabela 3, notam-se os
crescentes déficit comerciais acumulados desde 1991, portanto, não existiam
condições sustentáveis, na Argentina, nem em médio prazo, de abrir mão do
instrumental de política monetária. Ao fazê-lo, a Argentina perdeu outra
maneira de sanar seus déficit orçamentários, precisando novamente recorrer às
suas reservas de divisas, que comprometeram a manutenção do lastreamento de
100% da base monetária, conforme exige a lei. Essa dificuldade pode ser também
vista quando analisamos quanto do PIB está comprometido com o endividamento
externo e interno (ver Tabela 4).
Tabela
4 Argentina:
Relação Dívida/PIB
Fonte: www.mecon.gov.ar Abrindo
mão de sanar seus déficit internos com o instrumental de política monetária, a
Argentina necessitou rolar sua dívida com base em endividamento externo. O que
de fato aconteceu. Nos primeiros quatro anos do plano, a entrada de capitais
externa garantiu uma certa folga para manter a solvência do país, mostrando que
a criação e absorção de dinheiro havia se tornado uma variável exógena. Mas, a
partir de 1995, com a crise do México, houve uma redução no fluxo de capitais,
o que levou a Argentina a se endividar ainda mais externamente, (ver gráfico
2). No
que diz respeito à terceira condição, ainda segundo Lopes (1991), o equilíbrio
no balanço de pagamentos é necessário por que os déficit na conta corrente são
financiados por instituições financeiras internacionais e também pelas reservas
financeiras internacionais, assim estas caíram e o lastro para a base monetária
exigida por lei foi, novamente, comprometido (para ver a evolução do déficit no
saldo em conta corrente argentino ver Tabela 2). Ao expor esses três
requisitos necessários para o sucesso e a sustentabilidade da estabilização de
preços via conversibilidade da moeda nacional, observa-se ser inviável esse
tipo de política, pelo menos no caso argentino. Este país tornou-se insolvente,
pois para garantir um déficit zero, como propõe o FMI em seu receituário,
precisaria gerar grandes superávits primários, mas com o câmbio fixo, impedindo
o uso de políticas monetárias, não se conseguiu estimular a economia. De
toda forma, este não era o entendimento à época e muitas foram às mútuas
reclamações. Vale a pena relembrar os detalhes, até para ajudar a perceber os
termos da disputa mais recente. Com
relação a esse fato, a revista Veja publicou uma reportagem em março de 2000
onde se lê: “Comenta-se naquele
país que suas indústrias estão fechando as portas e se transferindo para o Brasil.
E que produtos brasileiros, mais baratos graças à desvalorização do real, estão
ameaçando os artigos argentinos, mais caros”. Nesta
mesma época, Carlos Ruckauf, governador da província de Buenos Aires, afirmava
“Os brasileiros são como maus vizinhos que entram em nossa casa para roubar os
móveis”. O então ministro Cavallo endossou esse tipo de discurso ao declarar
que a culpa da crise Argentina era do Brasil. O Presidente Fernando Henrique
teria preferido empobrecer seu povo ao desvalorizar a moeda, e agora quem
estaria pagando seria a Argentina. O então Presidente Fernando de la Rúa
procurou amenizar as declarações feitas por seu Ministro e reduzir as
desconfianças acerca do fim do Mercosul para os investidores, afirmando que o
Brasil é ainda o maior parceiro comercial da Argentina. O Brasil era a única
grande fonte de superávit da Argentina, 30% do que ela exportava vinha para o
Brasil. Um outro componente
desta crise foi à redução, feita pela Argentina, nos impostos de importação
para produtos de informática e telecomunicações importados de países de fora do
Mercosul. Isto, naturalmente, eliminou as vantagens brasileiras com relação ao
mercado. O objetivo era se modernizar e atrair investimentos para o país
(Revista Veja, 11/07/01). Foi pleiteada uma isenção na Taxa de Exportação Comum
(TEC) para uma lista de máquinas e equipamentos, sob alegação de necessidade de
renovação do parque industrial argentino. Só que nessa lista constavam produtos
de informática e telecomunicações, produtos salvaguardados por convenção em
tratado do Mercosul. Para ressaltar a “temperatura” dos sentimentos naquele
momento, basta dizer que esse episódio foi chamado, no Brasil, de “Golpe da
Lista” (Estado de São Paulo, 06/07/2001). Quando
questionado pela revista Veja, sobre a inclusão de aparelhos celulares e de
informática na lista de produtos cuja importação fora liberada de impostos na
Argentina, o Ministro Cavallo respondeu de forma, no mínimo, surpreendente
(Revista Veja, 11/07/2001): “O Brasil é nosso sócio, e só recebo sinais
de apoio do governo brasileiro. Estive com o ministro Alcides Tapiás (do
Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior) e disse a ele que vamos tirar
os produtos de informática e telecomunicações da relação de itens de importação
beneficiados com a redução tarifária. Na verdade foi um engano nosso. Pensava
que produtos de informáticas e de telecomunicações eram bens de capital, mas
nas cláusulas do Mercosul, eles têm nomenclatura à parte”. O Brasil respondeu em
tom severo. O Itamaraty anunciou a suspensão, por tempo indeterminado, das
negociações em torno da Taxa de Exportação Comum e das medidas antidumping no
setor automotivo. A Argentina, não satisfeita com a decisão da diplomacia
brasileira, contestou a suspensão das negociações bilaterais que os países
mantinham no âmbito do Mercosul (Revista Veja, 11/07/2001). Em viagem a Roma, o
Ministro Cavallo, ao saber da decisão brasileira, comparou o Brasil a um
“elefante”, reclamando das dificuldades que seu país tinha de fazer negócios
com um país “pesado, lerdo e instável”. O Ministro interino de Relações
Externas Luiz Felipe Seixas Corrêa, que substituía Celso Lafer, respondeu em
tom igualmente enérgico: “Não vamos alterar nossos estilo de fazer diplomacia
por circunstâncias episódicas ou insinuações zoológicas” (Revista Veja,
11/07/01). Novamente ficou clara a fragilidade do Bloco e a dificuldade de
articulação em torno de assuntos que comprometem interesse de setores ou
corporações específicas. Na época, O
embaixador brasileiro em Buenos Aires, Sebastião do Rego Barros, rebateu as
afirmações do Ministro da Argentina da seguinte forma: “É espantoso que a
Argentina critique o Brasil, com quem tem superávit, esquecendo-se que a
competitividade da Argentina é sofrível. Com o resto do mundo ela só tem déficits”.
Para confirmar essa afirmação, basta analisar os dois gráficos a seguir que nos
mostram que, mesmo com a desvalorização do Real em 1999, o saldo da balança
comercial para a Argentina, em relação ao Brasil continuou sendo positivo, como
já acontecia há anos, enquanto que, em relação ao resto do mundo, sua balança
comercial vinha no negativo desde 1992, e só se recuperou com a brutal
diminuição das importações após a crise. A balança comercial brasileira com
relação à relação com a Argentina, todavia, desde 1994 até 2003, permaneceu
negativa.
Em agosto de 1999,
porém, o então candidato à sucessão do governo de Menem, Eduardo Duhalde,
afirmou, contrariando a tendência dos políticos e da imprensa argentina, em
encontro com o embaixador brasileiro na Argentina, Sebastião do Rego Barros,
admitiu que “a partir da desvalorização do real, começou na Argentina um
processo recessivo, mas não por culpa do Brasil, ninguém pode pôr a culpa em um
outro governo, por que tem políticas macroeconômicas determinadas”, assim,
complementou Duhalde, “Brasil e Argentina devem estar juntos, porque no mundo
atual, se estiverem separados, não serão respeitados” (O Estado de São Paulo,
06/08/99a). Parece
haver uma contradição entre todo este clima de queixas da Argentina e o fato de
que, do ponto de vista do volume total dos fluxos de importações e de exportações,
este país tem bons resultados em relação ao Brasil, e ao Mercosul. Estas
vantagens podem até ter diminuído, após a mudança cambial brasileira, mas não
se inverteram. Um dos elementos da explicação desta aparente contradição, a
nosso ver, que também lança luzes sobre o episódio atual, é que uma parte muito
importante destes ganhos comerciais se realiza com bens, como o petróleo, cujas
repercussões para a economia e a sociedade Argentina, em termos de renda e
emprego, não tem grande efeito multiplicador. Por outro lado, as perdas se
deram em setores, como o de calçados que, devido a sua forte inserção no mundo
das pequenas empresas, que empregam muito e às vezes não são bastante
competitivas. Assim, as perdas reais em termos de opções de sobrevivência
foram, de fato, cruéis. Aliando-se a isto, a existência, em alguns casos, de
elevado nível de conscientização e participação política, e de forte poder de
vocalização, por parte dos trabalhadores atingidos, sucedeu que a reação fosse
muito forte e aparente [4].
O que deve ser ressaltado é que a
desvalorização cambial que o Brasil efetivou em 1999 trouxe um clima de
desconfiança para os parceiros do Mercosul, principalmente entre as duas
grandes nações, o que, de certa forma, mostrou a vulnerabilidade do bloco a
crises econômicas e dificuldades de articulação entre as nações quando
economias específicas enfrentam problemas estruturais. No
entanto, após este momento negativo, a relação entre os países passou a
melhorar, talvez devido à conscientização das reais causas da crise. No final
de julho de 2001, os Presidentes do Mercosul aproveitaram o encontro no Peru
para relançar o Bloco Comercial. Em reunião os quatro países decidiram a
criação de um mecanismo de consultas e comunicações prévias sobre medidas em
relação à Tarifa Externa Comum e ao próprio câmbio (O Estado de São Paulo,
06/07/2001). A
crise cambial da Argentina, em 2001, mostrou uma nova perspectiva das relações
entre os países dentro do Bloco. O Brasil tem adotado uma postura de total
apoio ao país vizinho. Pediu ajuda dos países mais ricos, concordou com
salvaguardas que inibiram a entrada de seus produtos no mercado argentino, como
forma de compensar o impacto da desvalorização do real e tem procurado defender
os interesses do vizinho junto ao FMI (Estado de São Paulo, 10/12/2001). Esta
crise chegou a um ponto em que por um lado, a dolarização total da economia
argentina não ajudaria a resolver o problema da competitividade visto que seus
produtos continuariam caros no mercado internacional. Por sua vez, a
desvalorização do peso argentino trouxe para a população conseqüências sociais
gravíssimas. Antes
de comunicar as novas medidas econômicas ao povo argentino, no começo de 2002,
o então presidente Eduardo Duhalde mandou representantes a Brasília a fim de
apresentar o plano em primeira mão ao governo brasileiro. João Manuel de la Sota,
governador da província de Córdoba afirmou “nosso principal parceiro merece
conhecer as medidas antes do anúncio”, logo após uma conversa com o então Presidente Fernando Henrique
Cardoso. A
aproximação do Brasil com a Argentina parece estar incomodando as autoridades
americanas. Ricardo Lagorio, que era na época ministro-conselheiro da
representação argentina em Washington, ouviu dos diplomatas americanos em uma
reunião no Departamento de Estado: “Acham que o Brasil negociará por vocês com
o FMI? E quem vai lhes dar o dinheiro para sustentar seu programa econômico?”.
Ainda com relação aos Estados Unidos, o jornal Wall Street afirmou em editorial
que o Mercosul foi a causa dos problemas da Argentina e recomendou que o país
deixasse o Mercosul e dolarizasse sua economia (Estado de São Paulo
13/01/2002). Pelo menos no discurso, a forma dos
países da União Européia (UE)é totalmente diferente. Alguns porta-vozes
europeus chegam a afirmar que a sobrevivência do Mercosul é um dos principais
instrumentos para evitar a preponderância econômica dos Estados Unidos na
América Latina. Para um negociador europeu ”Se o Bloco desaparecer, a Doutrina
Monroe[6]
estará de volta” (Estado de São Paulo, 15/01/2002). Infelizmente, na prática,
as atitudes do Bloco Europeu não se distinguem, em termos de barreiras e
protecionismo, daquelas dos Norte-Americanos. O episódio recente de rompimento
das negociações comerciais entre Mercosul e os europeus exemplifica este fato. 4. As relações intra
Mercosul: Panorama Atual A crise mais recente entre Argentina
e Brasil, de 2004, mostra a vulnerabilidade que o Bloco apresenta. Com a
tendência a inversão do saldo positivo de muitos anos, no comércio bilateral
pró Argentina, setores da economia daquele País, se vêem pressionados com a entrada
crescente de produtos brasileiros. E, forçam o Governo Argentino a tomar
medidas protecionistas, principalmente na área de linha branca de
eletrodomésticos. Novamente, o Brasil cede e cria-se um sistema de cotas,
limitando a entrada naquele País de produtos brasileiros. Não entrando na
análise detalhada desta crise, o que se quer ressaltar, são as dificuldades de
um Bloco bipolar, onde qualquer crise interna a um dos pólos do Bloco, coloca
em cheque os princípios que levaram à sua concepção. O atual embaixador argentino em
Brasília, Juan Pablo Lohlé, fez uma afirmação que demonstra a diferença de
relacionamento entre Brasil e Argentina, agora com o incidente da linha Branca:
“O Brasil compreende bem que a Argentina não pode gastar sua reativação econômica
exclusivamente com a importação de produtos brasileiros. Sabem que necessitamos
produzir mais e gerar mais empregos” (Folha on-line, 06/07/2004). Chegou-se a um acordo com relação à
linha branca na noite do dia 15/07/2004, no qual ficou acertado que o Brasil
não pode ter uma participação superior à aproximadamente 50% do mercado
argentino, dando, dessa forma, espaço para a recuperação das empresas locais.
Para as vendas de fogões o acerto garantiu ao Brasil a exportação de 90 mil
unidades em 2004 e, no máximo, 47,5 mil unidades no primeiro semestre de 2005
(Folha on-line, 15/07/2004). O ministro da economia argentino,
Roberto Lavagna, institui também um imposto de 21% para a importação de
televisores da Zona Franca, essa taxa valerá durante 200 dias. Essas barreiras
são, na verdade, um pedido da União Industrial Argentina (UIA), que esta
deveras preocupada com o déficit comercial que apresenta com o Brasil. Segundo
o ministro Lavagna, “o governo argentino tem como política fundamental a
reindustrialização e esperamos que o Mercosul seja ambiente para isso (...)
essas perdas dos anos 90 [do processo de industrialização] tiveram a ver com
decisões argentinas. Não há responsabilidade dos outros” (Folha on-line,
10/09/2004). Na verdade, essa é a primeira vez que
o Brasil se encontra superavitário nas trocas comercias com a Argentina desde
1995 (como se pode verificar no gráfico 3). Entre janeiro e maio de 2004 as
importações de fogões brasileiros na Argentina aumentaram 121%, de geladeiras
126% e de máquinas de lavar roupa 176%. Fato que levou ao fechamento várias
empresas do setor (Folha on-line, 15/07/2004). No
entanto, deve-se destacar que o Bloco torna-se importante, por que mesmo com
conflitos de interesses, duas economias como Brasil e Argentina estão expostas
ao mesmo problema: a vulnerabilidade externa. Juntas as economias poderão se
fortalecer e se ajudar, tanto no comércio externo quanto no comércio
intrabloco. Nesse sentido, mesmo que existam conflitos entre as duas economias
que são competitivas entre si em alguns segmentos, é fundamental que exista o
Bloco com um potencial atenuador em épocas de crise. 5. Considerações à cerca de caminhos
para a superação das crises no Mercosul A descrição destas
crises passadas e recentes confirma que a configuração da correlação de forças
entre os países que atualmente constituem o Mercosul, Bipolar, é certamente uma
das causas da dificuldade de sua consolidação [7].
Nesta perspectiva, a sua superação ficará facilitada pela adoção de um caminho
que leve a um diferente arranjo para a
integração Regional. Esta linha de ação, que vem sendo buscada pelo Governo
Lula, embora ainda com poucos resultados concretos, consiste em procurar
evoluir para outro tipo de situação, onde nos aproximaríamos de uma
configuração Multipolar, como a da UE, mais estável. Isto seria conseguido
através da ampliação do número de
elementos no conjunto, ou seja, no Bloco. Dessa maneira, se trataria de
tentar envolver, de imediato, mais países da América do Sul, todos se possível,
nos entendimentos, em estrutura mais flexível, formando amplo bloco de
cooperação econômica. Mesmo assim, e da
mesma forma que ocorre na UE, haveria países que são bem maiores que os outros,
mas o resto do conjunto ainda seria suficiente para viabilizar a formação do
bloco, mesmo que ocorresse a retirada de um destes maiores. Isto diminuiria o
poder isolado do Brasil, e da Argentina, o poder de veto, e poderia facilitar a
superação dos impasses. Evidentemente, que estes dois países continuariam tendo
pesos econômicos expressivos, no entanto, tanto do ponto de vista econômico
quanto político, as decisões poderiam ser mediadas por uma participação, e
mesmo pressão, maior do conjunto dos paises menores. Obviamente,
esta sugestão não está ignorando o fato de que a complexa operação de
constituição de um bloco demanda tempo e esforço. Também, se aumenta o número
de participantes do Bloco, multiplica-se o número de interações e,
conseqüentemente, de situações a serem mediadas. No entanto, em muitos casos a
ampliação da dimensão quantitativa do problema o eleva a um patamar onde
soluções são mais viáveis. Parece-nos ser este um caso. O avanço de um projeto deste tipo
conduziria a um novo contexto, onde haveria um número maior de países
envolvidos. A proporção de combinações em que o Brasil e a Argentina, ambos,
estão incondicionalmente lutando pelo sucesso da constituição do bloco, em
relação ao número total de situações não mudaria com a entrada de mais países.
Porém, o importante é que, na medida em que o conjunto for crescendo, em termos
quantitativos, estaria em progresso, também, uma mudança qualitativa e, a
partir de certo número de adesões, o poder de veto individual começaria a ficar
gradativamente minado. Naturalmente, não se está imaginando neste tipo de
raciocínio, e para esta fase, a incorporação de país com economia de tal forma
maior que as outras de maneira a transformar o Bloco em unipolar, como no caso
da configuração da ALCA [8]. No entanto, em face da possibilidade
da adesão não ser unânime, e ou inabalável, o processo de consolidação, e
manutenção, do bloco pode, portanto, ser atacado, como de fato tem acontecido.
Passemos então a discussão de alguns aspectos referentes à estabilidade e
continuidade do bloco. Prevalecendo
um ambiente de livre comércio dentro do bloco e, considerada a heterogeneidade
dos países que poderão se envolver, os ganhos resultantes da formação da
Coalizão, certamente, não serão automaticamente distribuídos a todos de forma
satisfatória. E, sabemos que a estabilidade e a continuidade do bloco estarão
mais garantidas na medida em que o arranjo se aproxime de um ‘Ótimo de Pareto’.
Para tal, além da ‘Racionalidade de Grupo’, mediante a qual o conjunto de
países atinge em grupo um somatório de produtos maior do que a simples adição
do que conseguiriam isoladamente, é necessário também que haja a ‘Racionalidade
Individual’, ou seja, que cada país individualmente situe-se após a Coalizão em
posição, no mínimo, equivalente àquela que desfrutava anteriormente. Então,
para a sustentabilidade do bloco será então absolutamente necessário o
estabelecimento de um sistema de Pagamentos,
ou Compensações, Laterais, que poderão assumir formas diversas. Isto é
indispensável, pois, caso não se atentasse para esta condição, ficaria muito
fácil, para qualquer país interessado em perturbar o processo, fazer uma Objeção através da propositura de outra
Coalizão, que poderia, até, ser com só um país de nosso grupo, através de um
simples acordo bilateral, e desequilibrar o arranjo. Torna-se, assim, de importância
crucial conceber mecanismos que garantam alguma redistribuição dos frutos do
processo de integração regional do Mercosul, aceitável pelas partes. Em relação
a isto, vimos que a experiência de espontaneidade, que prevalece até este
momento, não tem sido positiva. Quando analisamos os dados do Mercosul
verificamos que durante o período 1991/2001 o Uruguai praticamente manteve o
volume negativo do saldo de sua balança comercial com o resto do bloco,
enquanto que o saldo negativo do Paraguai, entre 1991 e 2000, até aumentou [9].
Também, não se registrou um volume suficiente de mudanças na composição
setorial do comércio no bloco, sugerindo poucas mudanças qualitativas na
situação relativa dos países, no que tange ao comércio intrabloco. Obviamente,
a médio e longo prazo, estes não seriam resultados unanimemente satisfatórios.
Porém, felizmente, trata-se de um tipo de problema, em princípio, superável,
desde que se atente para esta necessidade de garantia de obtenção de vantagens
para todos. E, desde que haja compreensão disseminada de que a integração tem
custos, mas, pode mais que compensar pelos resultados positivos. É de se
esperar que os países maiores assumam que, devido a seus portes, e posições de
liderança, lhes será demandado mais iniciativa e, pelo menos, de saída, mais
custos [10].
Ao longo do processo, havendo continuidade, todos podem ter, e certamente
terão, ganhos compensatórios. Na
realidade alguns passos estão sendo dados nessa direção, por exemplo, o
ministro Furlan informou que está em estudo a possibilidade de que o BNDES faça
financiamentos de equipamentos incluindo 60% de peças e componentes produzidos
no Mercosul, não só no Brasil como até então (Folha On line, 10/09/2004). Por
outro lado, a reunião de Puerto Iguazu em julho de 2004 decidiu pela
criação de um tribunal para solução dos conflitos do Mercosul. Naturalmente,
são ainda fatos isolados que necessitam ser complementados dentro de ma
estrutura integrada de instituições supranacionais. Em
relação a esta necessidade de instituições supranacionais, um primeiro ponto a
se concordar é que, vai se tornando cada vez mais óbvia a necessidade de
utilização de uma estratégia de Desenvolvimento Econômico que não exclua a atuação Governamental. Além disso, a
necessidade dos ‘Pagamentos Laterais’ é esquema de difícil funcionamento sem a
participação articulada dos Estados Nacionais. Isto significa a necessidade de
criação de entidades técnicas supranacionais que teriam várias missões.
Deveriam gerir as compensações e, também, controlar o bom funcionamento das regras
combinadas. O detalhamento destes mecanismos foge ao escopo deste trabalho e
terá que ser fruto da negociação dos parceiros. Porém, há algumas observações
que não devem deixar de ser apresentadas. Quando
da concepção do Mercosul, seus planejadores propuseram que se seguisse, em
relação a diversos aspectos, o que seria, praticamente, uma cópia do modelo da
UE. Um desses aspectos diz respeito à seqüência das fases prevista no acordo [11].
Parece-nos que esta não foi uma escolha adequada, levando-se em conta as
especificidades dos países. Pois, por um lado previa um avanço bastante ousado,
e rápido, em certas direções como, por exemplo, em relação à estrutura político
jurídica do Bloco e, também, a certas mudanças econômicas, e, por outro não
determinava o desenvolvimento de estruturas supranacionais, indispensáveis para
garantir os primeiros passos. Este desequilíbrio é um problema para o Bloco,
sendo nossa opinião que o avanço mais seguro do projeto demanda ações imediatas
no sentido de reconsiderar este modelo. Em uma frente, para criar rapidamente
estas estruturas, e em outra, para tornar mais flexível o arranjo que só deve
incorporar mecanismos que sirvam às demandas características de nossa situação. Em
relação a estas estruturas supranacionais, o primeiro impulso seria copiar do
modelo da UE. Em verdade trata-se de uma rica experiência que deve ser estudada
e que, certamente colaborará com inspirações para o Mercosul. No entanto, a
discussão do que fazer em relação a esta questão deve tomar em conta de que há
heterogeneidades dentro de cada bloco, no que diz respeito às condições
iniciais dos países membros, além do que, a sua ordem de prioridades de
objetivos não terá que ser a mesma, o que leva a haver diferenças entre os
blocos no que diz respeito aos arranjos que podem ser mais eficientes para
obter sucesso. A UE, então, pode ser útil como indicativo, pode até ter
elementos parciais a serem adaptados, mas, não deve ser tomada como fórmula a
ser seguida na sua totalidade. Os caminhos do Mercosul devem ter a marca de
suas especificidades. Em
relação a isto se pode dizer que há algo em comum entre os países do
subcontinente, que é o desejo e necessidade de fazer avançar o processo de
Desenvolvimento Econômico. Devemos lembrar que uma das possíveis vantagens da
integração Regional seria o apoio mútuo
para o desenvolvimento. Ai está uma especificidade do Mercosul que poderia
servir de guia para a montagem do esquema de compensações internas. Neste
sentido, por exemplo, os ‘Pagamentos Laterais’ deveriam atender a um viés
desenvolvimentista. Assim, os fundos a serem criados para permitir a operação
das estruturas supranacionais, com suas comissões técnicas e obrigações de
‘Pagamentos Laterais’, além de serem utilizados para compensações financeiras
diretas, devem, por exemplo, financiar ações desenvolvimentistas de interesse
Regional, como obras de infraestrutura e outras que facilitem o comercio
intrabloco e de exportação, como o apoio à consolidação da capacidade de
inovação e modernização [12].
O importante é ter flexibilidade e criatividade em termos do sentido dos
‘Pagamentos Laterais’, que poderiam, e deveriam, até significar o
estabelecimento do espaço econômico que possibilite países menores criarem e ou
consolidarem ‘Retainable Industries’ [13]. Não se pode deixar de comentar o
momento político especial pelo qual passamos. Um de seus aspectos é a profunda
mudança ocorrida, recentemente, no comportamento das instituições
internacionais de apoio ao desenvolvimento e estabilização da moeda, em
particular o FMI e o BIRD, em relação aos países periféricos [14].
A crise que a Argentina passou a partir de 2002 é uma mostra clara das novas
posturas destas instituições. Tendo na sua base, principalmente, uma política
econômica que procurava cumprir, à risca, o receituário do FMI, inclusive no
que tange a uma política cambial de paridade com o dólar, ao surgirem os
problemas, teve como reação daquele órgão algo inédito em relação às crises
periféricas anteriores. Não foi dado nenhum apoio de imediato e exigiu-se mostrar
que o País poderia sair desta situação por seus meios, antes de ter um aporte
externo. Evidentemente, tal postura fez agravar a situação. Deixar economias
que atravessam períodos de fragilidade sem recursos mínimos para a reversão de
situações desfavoráveis é o mesmo que condená-las a uma crise social interna de
grandes proporções. No caso argentino, tal crise mostrou aspectos bastante
cruéis para sua população, que terminou por eleger o novo Presidente Kirchner,
que declara forte oposição a estas políticas ditadas pelos órgãos dominados
pelos países centrais. Nesse contexto,
acredita-se, as crises trouxeram, indiretamente, um aspecto relevante, qual
seja, a importância de uma aliança desses países periféricos, que seria cada
vez mais significante se houvesse uma maior consolidação do Bloco Econômico.
Nesse caso, o enfoque internacional não poderia ser de isolamento de um país e
de sua problemática, mas de compreender a importância desse complexo, como um
todo, nos objetivos de longo prazo de desenvolvimento de um mundo cada vez mais
interdependente. Então, se com a visão de transformar atuais dificuldades em
soluções, um grupo de países decide consolidar a formação de um amplo bloco na
América do Sul, estaremos pisando em terreno mais seguro e, pelo menos, quando
soar a hora da ALCA existiria um grupo com algum grau de consolidação, que
poderia obter condições de acordo mais vantajosas. Em pouco tempo, países que
tenham visão e responsabilidade geopolítica podem fazer um novo Bloco avançar
muito. Ademais, os caminhos do futuro são cheios de inesperados. E se a ALCA
for adiada de 2005, ou mesmo perder fôlego por longo tempo? Referências
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Matéria publicada no jornal Folha de São Paulo, dia 27 de maio de 2001, Seção
Dinheiro, p. B10. [1] Entende-se por Mercado Comum um espaço
multinacional onde ocorre livre circulação de mercadorias, capitais, serviços e
pessoas. [2] - Fonseca (1998), p. 32. [3]Ainda, sabe-se que para manter a
conversibilidade da base monetária, faz-se necessária a manutenção dos ativos
das reservas de divisas internacionais, já que pela Lei de Conversibilidade,
artigo 4º, temos que: “As reservas de
livre disponibilidade do banco central da república Argentina em ouro e divisas
estrangeiras serão sempre equivalentes a, pelo menos, cem por cento (100%) da
base monetária”. [4] Este é um setor com forte
representação de classe no país. Já com 2,5 mil fábricas e, na atualidade, possui
apenas 700 empresas. Foram perdidos 16 mil postos de trabalho nesta indústria
desde 1991. Enquanto as exportações de calçados brasileiros passaram de 700 mil
pares em 1991 para 11 milhões de pares em 1998, a produção Argentina de sapatos
é de 60 milhões de pares e suas exportações são de apenas três milhões de pares
(O Estado de São Paulo, 06/08/1999b). [5] Referência à matéria publicada na
revista Veja do dia 29/03/2000:“E eles
culpam o Brasil: Imersa em uma grande crise econômica, incapaz de exportar seus
produtos com lucro para o mundo, a Argentina descobre um bode expiatório: o
vizinho” [6] Monroe defendia a
independência das colônias norte americanas da metrópole Inglaterra, e tinha
como lema ‘a América para os americanos’. Ao afirmar a volta à doutrina Monroe,
o negociador quer ressaltar o retornos aos princípios de exclusivismo e
isolacionismo com relação aos demais países do mundo. [7] Acerca desta questão, ver Katz et al, 2002. [8] É importante deixar claro que a
estratégia que entendemos mais conveniente para o Brasil é aquela de Mercosul e
ALCA. Em outras palavras, achamos que o Brasil deve tomar iniciativas fortes e
ousadas para agilizar e ampliar a consolidação do Mercosul, sem se afastar das
negociações da ALCA, para as quais estará, junto com os parceiros, tão melhor
preparado quanto mais maduro estiver o próprio Mercosul. [9] Nestes dois casos a contabilização dos
serviços, e mais de outras prováveis atividades informais dariam outra feição
aos números. [10] É importante ressaltar que não seriam
custos proibitivos ou puramente danosos. Na verdade, do ponto de vista de
porte, quantias de dimensão praticamente desprezível para o Brasil, por
exemplo, podem ser suficientes para que países menores superem problemas
cruciais. Ademais, a forma como o apoio, deste tipo, ou de outros, pode ser
feito poderá até, de forma mais imediata e concreta, trazer resultado de
dinamização para a economia do provedor.
[11] Vale ressaltar que nosso entendimento
aponta na direção de que é impróprio considerar as diversas estruturas
organizativas que podem assumir os blocos, quais sejam: ‘Zona Preferencial de
Comércio’, ‘Zona de Livre Comércio’, ‘União Aduaneira’, ‘Mercado Comum’ e
‘União econômica e Monetária’, como uma seqüência a ser necessariamente
trilhada por todos os blocos. O NAFTA, por exemplo, decidiu definir-se apenas,
e para o futuro, como uma ‘Zona de Livre Comércio’, que, por sinal, é o formato
que também se propõe para a ALCA. [12]
Esta questão dos recursos tem sido apresentada como uma barreira
intransponível, em virtude das dificuldades pelas quais realmente passam os
países da região. Naturalmente, não vamos oferecer, neste texto, detalhamentos
e tentativas de quantificações. Parece-nos, no entanto, que um dimensionamento,
que levasse em consideração as diferenças de porte mostraria, que muito poderia
ser feito. Ademais, certamente se conseguiria recursos de órgãos de
financiamento internacional para a montagem geral do projeto e, também, para
obras que envolvessem o interesse de grupos de países da região. Isto sem falar
no setor privado, onde se apresentam empresas que tem experiência, capacidade
administrativa e técnica, assim como credibilidade internacional, que
permitiriam o desenvolvimento de importantes projetos. Neste caso, havendo um
suporte legal internacional e garantias de diversos países, muitos destes
projetos poderiam sair da imaginação e transformar-se em realidade. [13] Este é um conceito de Gomory e Baumol,
2000, que diz respeito a indústrias de importância estratégica para os países
sede, em virtude de sua capacidade de resistir, e até de se beneficiar, do
processo de Globalização. [14] A mudança de comando da política
americana, da era Clinton para a era Bush, sem dúvida, deve ter colaborado para
essa mudança. Uma visão geopolítica da importância da América Latina para os
Estados Unidos perde destaque com essa mudança, fazendo com que não se
considere prioritária a estabilidade econômica dessa região. Esta maior
indiferença tem esta face negativa. Porém, por outro lado, o ímpeto da
interferência desestruturadora em relação ao Mercosul, assim como a pressa em
relação à ALCA parecem amenizadas. |