UNASUR-DISCURSO DEL PRESIDENTE LULA DA SILVA

 

Junio 2008

O Governo e o povo brasileiros se sentem profundamente honrados em receber os Presidentes e chefes de Governo da União de Nações Sul-Americanas, neste momento histórico em que assinaremos o Tratado Constitutivo da Unasul. É uma particular alegria, para mim, ser o anfitrião desta reunião, tendo ao meu lado o companheiro Evo Morales. Quero transmitir-lhe, caro Evo, o meu reconhecimento pessoal pela competência e dedicação com que a Secretaria Pro Tempore boliviana trabalhou neste ano e meio. Quando lançamos em Cusco, em Dezembro de 2004, os fundamentos deste empreendimento, poucos imaginavam que quatro anos mais tarde teríamos constituído uma verdadeira União Sul-Americana. A América do Sul renova a confiança na capacidade de seus povos de construírem um destino comum de desenvolvimento, justiça social, democracia e paz.

O Tratado Constitutivo dá personalidade jurídica à UNASUL, que ganha expressão política e meios institucionais para realizar seus objetivos. Tiraremos proveito da vastidão de nosso território, banhado pelos oceanos Atlântico e Pacífico e pelo mar do Caribe. Valorizaremos a diversidade de nossos povos e de nossa cultura. Construiremos nossa unidade sobre a base dos processos de integração bem-sucedidos do MERCOSUL e da Comunidade Andina. Nosso foro será enriquecido pela contribuição caribenha, por meio da Guiana e do Suriname. Mais de 300 milhões de homens e mulheres se beneficiam, hoje, de uma excepcional fase de crescimento econômico e de exitosos programas de inclusão social. Constituem enorme base produtiva e grande mercado de bens de consumo. Não por acaso, somos hoje um dos principais pontos de atração de investimento no mundo.

A América do Sul é hoje uma Região de paz, onde floresce a democracia. Todos os seus governantes foram eleitos em pleitos democráticos e com ampla participação popular. A instabilidade que alguns pretendem ver em nosso continente é sinal de vida, especialmente de vida política. Não há democracia sem povo nas ruas, sem confronto de idéias e de propostas. Tampouco há democracias sem regras e sem diálogo. Esses progressos nos campos econômico e sociopolítico nos conferem crescente projeção num novo mundo multipolar que se está constituindo.

Com este Tratado Constitutivo, a América do Sul ganha estatuto de ator global. Estamos superando a inércia e as resistências que, ao longo de 200 anos de vida política independente, impediram que trilhássemos juntos o caminho da unidade. Ao darmos institucionalidade à nossa União, estamos transformando em realidade o sonho integrador de nossos próceres e libertadores. Já no preâmbulo, o Tratado nos lembra que a Integração Sul-Americana é essencial para o fortalecimento da América Latina e do Caribe. Com a entrada em vigor do Tratado, nossos vizinhos latino-americanos e caribenhos estão convidados a associar-se à União. A UNASUL nasce, assim, aberta a toda a Região, e nasce também sob o signo da diversidade e do pluralismo. As decisões da UNASUL serão tomadas por consenso, que se construirá na base do diálogo, da harmonia e do respeito mútuo. Por meio do exercício permanente do entendimento, afiançaremos a estabilidade Regional e o desenvolvimento em bases solidárias.

Senhoras e senhores Presidentes,

O Tratado Constitutivo não é um fim em si mesmo, é o fundamento normativo para que nossa União possa alcançar seus objetivos. Queremos avançar rapidamente com projetos inovadores e de grande alcance em áreas prioritárias, como integração financeira e energética, melhoria da infra-estrutura Regional e das conexões rodoviárias e ferroviárias, estabelecimento de uma vigorosa agenda de cooperação em políticas sociais e fortalecimento da cooperação educacional.

O Conselho Energético e os grupos de trabalho já colocaram sobre a mesa elementos que nos permitirão ter um plano de ação com propostas concretas e metas alcançáveis. Necessitamos de trocas comerciais justas e equilibradas. Precisamos fazer do comércio um instrumento de crescimento econômico e progresso social em prol, sobretudo, dos mais pobres. Devemos incentivar a criação de cadeias de integração produtiva entre nossas empresas estatais e privadas. Vamos desenvolver parcerias em setores estratégicos, como indústria aeronáutica, construção naval, medicamentos e equipamentos militares. São mecanismos abrangentes e estruturais para superar as assimetrias entre nossos países.

Senhoras e senhores,

Estou convencido de que é chegada a hora de aprofundarmos nossa identidade Sul-Americana, também no campo da defesa. Nossas Forças Armadas estão comprometidas com a construção da paz. A presença de muitos de nossos países na MINUSTAH, força da ONU que garante a segurança no Haiti, é exemplo dessa determinação. Devemos articular uma visão de Defesa na Região fundada em valores e princípios comuns, como o respeito à soberania e à autodeterminação, a integridade territorial dos Estados e a não-intervenção em assuntos internos.

Por isso, determinei ao meu Ministro da Defesa que realizasse consultas com todos os países da América do Sul sobre a constituição de um Conselho Sul-Americano de Defesa. Creio que deveríamos discutir essa decisão aqui. Com esse mesmo espírito proponho a realização no Brasil, no segundo semestre deste ano, de uma reunião que permita detalhar o funcionamento e os objetivos do Conselho.

Caros companheiros,

A América do Sul vive momento de excepcional crescimento, com a redução da pobreza e da desigualdade. Criamos as condições para um desenvolvimento sustentado, que nos têm permitido enfrentar a atual instabilidade econômica mundial. Nossa Região torna-se um interlocutor cada vez mais indispensável, à medida que o mundo se vê diante da necessidade de compatibilizar segurança alimentar, suprimento energético adequado e preservação do meio ambiente. Quando a escassez de alimentos ameaça a paz social em muitas partes do mundo, é em nossa Região que muitos vêm buscar propostas. Temos consciência de nossas responsabilidades globais, mas não abrimos mão de exercê-las de forma totalmente soberana. Não nos deixamos iludir, tampouco, pelos argumentos daqueles que, por interesses protecionistas ou motivações geopolíticas, se sentem incomodados com o crescimento de nossa indústria e de nossa agricultura e com a realização do nosso potencial energético. Uma América do Sul unida mexerá com o tabuleiro do poder no mundo, não em benefício de um ou de outro dos nossos países, mas em benefício de todos.

Senhoras e senhores Presidentes,

Estamos deixando para trás uma longa história de indiferença e de isolamento recíproco. Nossa América do Sul não será mais um mero conceito geográfico. A partir de hoje é uma realidade política, econômica e social, com institucionalidade própria. A UNASUL deve ser construída como parte de nossos projetos nacionais de desenvolvimento, e essa tem sido a orientação do meu Governo desde o primeiro dia. O Brasil quer associar seu presente e seu futuro ao destino da América do Sul. Nenhum de nossos países pode, sozinho, aspirar à prosperidade. Mais do que generosos, temos que ser solidários. Hoje dotamos a América do Sul de um arcabouço flexível e ágil para articular as iniciativas comuns nesse processo ambicioso de integração. Nossos êxitos permitirão aumentar nossas ambições e realizar novos avanços.


Meus amigos e minhas amigas,

Temos razão de sobra para renovar o nosso orgulho, e o local em que estamos, que leva o nome do pai da Constituição brasileira, deputado Ulysses Guimarães, não poderia ser mais apropriado. Além de lutar com obstinação pela redemocratização do Brasil, Ulysses Guimarães soube aliar ousadia à capacidade de diálogo, o que tornou possível o consenso. Nossos governantes têm o sentido da história. Sabem que os contenciosos atuais, mesmo quando revestidos de dramaticidade, são passageiros, não devem se sobrepor ao projeto de integração. Juntos seremos mais soberanos.

Antes de convidá-los a proceder à assinatura do Tratado Constitutivo da União de Nações Sul-Americanas , eu quero passar a palavra ao nosso querido companheiro Evo Morales.

Muito obrigado.