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AMERICA DO SUL
& EUA EM PAUTA Maria
Helena Tachinardi
Junho 2003 - É útil
revisitar a história para se conhecer a raiz dos acontecimentos atuais. É para
essa direção que aponta o livro de Luiz Alberto Moniz Bandeira - "Brasil,
Argentina e EUA (da tríplice aliança ao Mercosul, 1870-2003)", publicado
pela editora Revan. Em suas 676 páginas, há referências baseadas em pesquisa e
indicação precisa de fontes sobre os antecedentes da Área de Livre Comércio das
Américas (Alca), sobre a idéia americana de uma união aduaneira no continente
inspirada no "Zollverein" - que desmantelou as barreiras comerciais
entre os diversos estados alemães e permitiu a unificação econômica e política
da Alemanha em 1870-1871 -, e sobre as tentativas dos EUA de dividir o
Mercosul. O livro aborda também o temor do Brasil de uma "vietnamização" da América do Sul com o Plano Colômbia. A informação de que o presidente dos EUA, George W. Bush, quer conversar sobre a liderança brasileira na América do Sul, no encontro que terá com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, dia 20 deste mês, em Washington, reforça a utilidade do livro para os estudiosos das relações hemisféricas. Moniz Bandeira conta, por exemplo, que
duas semanas antes da reunião de cúpula do Mercosul, que se realizou em
Florianópolis, nos dias 14 e 15 de dezembro de 2000, o presidente do Chile,
Ricardo Lagos, revelou ‘con particular satisfación’ que havia mantido
conversações com Bill Clinton, já em fim de mandato, e decidido iniciar
imediatamente a negociação de um acordo de livre comércio entre o Chile e os
EUA." De acordo com Moniz Bandeira, "aparentemente Lagos sofrera
pressões dos EUA, que assim trataram de evitar que o ingresso do Chile como
membro pleno do Mercosul fosse decidido, finalmente, durante o evento. O governo brasileiro, que soube da
notícia pela imprensa, irritou-se e suspendeu as negociações com o Chile,
declarando que a adesão ao Nafta era incompatível com o Mercosul." Moniz
Bandeira recorda, no livro, que a decisão chilena de negociar um acordo com os
EUA "estimulou as divergências dentro do Mercosul. O presidente do
Uruguai, Jorge Batlle, imaginando que podia vender carne uruguaia no Texas,
mostrou-se satisfeito, por entender que ela (a decisão chilena) contribuía para
acelerar a formação da área de comércio continental, e o então ministro da
Economia da Argentina, José Luis Machinea, não só felicitou o Chile e declarou
que a Argentina devia imitar-lhe o exemplo como defendeu a antecipação da Alca
para 2003, com o objetivo provavelmente de agradar aos EUA, pois negociava com
o FMI um empréstimo no valor total de US$ 39,7 bilhões, equivalente a quase 20%
do PIB da Argentina, como ‘blindagem’ para a grave crise de liquidez"
enfrentada pelo país. O republicano e ex-secretário de Estado
americano, Henry Kissinger, comentou no The New York Times a famosa concepção
do governo Fernando Henrique Cardoso de que o Mercosul era o destino e a Alca,
uma opção. "Especialmente no Brasil, existem
líderes atraídos pela perspectiva de uma América Latina unificada politicamente
em confronto com os EUA e o Nafta (Acordo de Livre Comércio da América do
Norte)", escreveu Kissinger. O ex-secretário de Estado (1973-1977)
observou, baseado na concepção de que o Mercosul era o destino, que o bloco buscava
definir uma identidade política européia distinta da dos EUA, "se não em
manifesta oposição aos EUA", relata Moniz Bandeira. Conforme o autor, "os Estados,
dito nacionais, são organismos vivos, surgiram e conformaram-se em determinadas
condições históricas, e comportam-se conforme a tradição e herança sedimentadas
na cultura dos respectivos povos, que eles politicamente organizam e
representam." Nesse sentido, Moniz Bandeira diz que os Estados são o que
suas ações revelam. "A tendência para o messianismo nacional, acentuada no
povo norte-americano pela crença de que é o eleito de Deus, gerou a idéia,
segundo a qual o ‘destino manifesto’ dos EUA consistia em expandir suas
fronteiras não apenas territoriais, mas também econômicas por todo o
hemisfério." Moniz Bandeira diz que a Alca reacendeu
um antigo projeto dos EUA de implementar a Doutrina Monroe (‘a América para os
americanos’) em sua dimensão econômica. Sobre o Plano Colômbia, Moniz Bandeira,
diz que "Clinton (que anunciou a iniciativa em agosto de 2000) pretendia
legitimar a presença militar dos EUA na América do Sul." O livro "Brasil, Argentina e
Estados Unidos" foi prefaciado pelo embaixador Samuel Pinheiro Guimarães,
que, em 18 páginas, faz as suas "Reflexões sul-americanas." Ele diz:
"a análise da estratégia norte-americana para a América do Sul, e para o
Brasil em particular, é de preliminar relevância para definir e executar uma
política externa eficaz. Daí a importância extraordinária da obra de Moniz
Bandeira que, ao desvendar a dinâmica histórica das relações entre Brasil, EUA
e Argentina, permite identificar, ao longo do tempo, a permanência dos
objetivos políticos norte-americanos."
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