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Política Exterior do Brasil – De FHC a
Lula Luiz Alberto Moniz Bandeira* Septiembre de
2004 Após um período de crescentes dificuldades entre o Brasil e os Estados
Unidos, no curso nas décadas de 1970 e 1980, Fernando Collor de Mello (1990/92), o primeiro
presidente da República eleito pelo voto direto desde 1960, prometeu que
sua visita a Washington, em 1991, marcaria o fim de uma “fase amadorística
(sic) e romântica” nas relações dois países.
Empenhou-se em esvaziar o contencioso, que havia, e iniciou a desregulamentação
e liberalização do economia, fazendo diversas concessões aos Estados Unidos,
cedendo e concedendo, sem exigir reciprocidade. Seu sucessor, Itamar Franco
(1992/95), com viés nacionalista, moderou o discurso e a prática liberalizante do
governo de Collor de Mello, ao mesmo tempo em que tratou de conter a inflação e
estabilizar a moeda, mediante a execução do Plano Real. Fernando Henrique
Cardoso, seu sucessor, assumiu a presidência da República em 1995, com a
pretensão de revitalizar a agenda Brasil-Estados Unidos, “sem as incompreensões
do passado”. Reconheceu as divergências que existiam como “próprias dos
relacionamentos caracterizados pela amplitude de interesses recíprocos”[1] e, através do diálogo,
procurou sobrepor ao contencioso bilateral cotidiano uma agenda mais
abrangente, incluindo a “crescente democratização das relações internacionais”.
Ao longo de seus dois mandatos (1995/99 e 1999/2003), procurou ajustar os objetivos do Brasil aos interesses dos
Estados Unidos, ou seja, à nova ordem internacional unipolar, de modo a
facilitar-lhe a inserção, harmoniosamente, no processo de globalização
econômica e permitir-lhe a obtenção de um lugar permanente no Conselho de
Segurança da ONU. A adesão ao TNP, ao
Regime de Controle de Tecnologia de Mísseis (MTCR), e a outros tratados
assimétricos e discriminatórios, como a Organização Mundial do Comércio (OMC),
que sagravam a predominância dos Estados Unidos e das potências ricas e
nucleares, constituíram aspectos marcantes de tal esforço,. Entretanto, a adoção de políticas econômicas neoliberais, como
conseqüência da renegociação da dívida externa e das condicionalidades
estabelecidas pelo Fundo Monetário Internacional e pelo Banco Mundial, tais como redução do Estado, através da
privatização, desregulamentação e reforma institucional, bem como a manutenção
de um regime de taxas fixas ou semi-fixas de câmbio, em geral,
sobre-valorizado, aumentaram enormemente a vulnerabilidade externa do Brasil, sobretudo a partir de
1999. A privatização, ou melhor, a estrangeirização das empresas estatais, dos
setores de telefonia e energia elétrica e outros, com a entrega do seu controle
aos capitais estrangeiros, foi um dos aspectos mais perversos das políticas
neoliberais, pois, nada contribuindo para o aumento das receitas de exportação,
essas empresas, desnacionalizadas, passaram a pressionar o balanço de
pagamentos, agravando o desequilibro, com a transferência de lucros para as
suas matrizes no exterior. O déficit na
balança de serviços saltou de US$ 15,3 bilhões, em 1990, quando o processo
inflacionário se intensificara no Brasil, para US$
28,8 bilhões, em 1998, e o déficit nas
transações correntes pulou de US$ 3,7 bilhões para US$ 33,6 bilhões, no mesmo período[2]. Com um déficit
comercial acumulado, entre 1995 e 1999,
da ordem de US$ 24,9 bilhões, após anos consecutivos de saldo positivo,
o Brasil defrontou-se com a necessidade de ter de captar, anualmente, cerca de
US$ 40 bilhões a US$ 50 bilhões, no mercado internacional, para atender aos
compromissos com o pagamento de juros e transferência de lucros, fretes e royalties,
bem como amortizar os empréstimos e
fechar as contas externas. Não
obstante o forte apoio dado ao Brasil, diretamente, pelo presidente dos Estados
Unidos, Bill Clinton, quando ocorreu a crise financeira de 1999, o projeto da
ALCA, tal como pretendido por Washington, continuou como o nervo mais sensível
das divergências entre o Brasil e os Estados Unidos, na medida em que os
objetivos econômicos, políticos e estratégicos dos dois países se contradiziam,
encapados pelo conflito de interesses comerciais. O escopo da ALCA consistia em revivificar a Doutrina Monroe,
em sua dimensão econômica e comercial, e permitir aos Estados Unidos não apenas
restabelecer sua hegemonia sobre a América Latina como enfrentar a União
Européia, embrião do futuro Estado europeu (meta do Tratado de Maastricht) do
qual a Alemanha, que já incorporava ao seu espaço econômico a Rússia e os
demais países do extinto Bloco Socialista, constituía o epicentro. Fernando Henrique Cardoso, depois da aprovação Trade Promotion
Authority (TPA), pela Câmara de Representantes, em fins de 2001, afirmou que,
“se as condicionantes forem levadas ao pé da letra, isto significa que não
haverá ALCA”. E acrescentou, enfaticamente, que “a ALCA será aceita ou não
dependendo do nosso interesse. Tem que ser uma toma lá da cá”[3]. Fernando Henrique Cardoso manteve
bom relacionamento direto com Bill Clinton, mas as divergências com os Estados Unidos
explicitaram-se em várias outras questões de política exterior, com respeito,
sobretudo, à América do Sul, e à possível intervenção armada na Colômbia, a
pretexto de combater a narcoguerrilha, assim denominada porque os negócios da
droga se converteram na mais importante fonte de financiamento da insurgência
política[4]. O Brasil proibiu a
utilização do seu território para qualquer operação militar na Colômbia,
porquanto contrariava os princípios de não-intervenção e auto-determinação, que
pautavam tradicionalmente sua política exterior. E continuou a não aceitar que,
sob pretexto estratégico-militar ou de combate ao narcotráfico, os Estados Unidos estendessem suas instalações
militares à Amazônia brasileira, cuja defesa sempre preocupou as Forças Armadas
brasileiras, que passaram a implementar a “estratégia de resistência”, como
hipótese de guerra contra uma potência tecnologicamente superior. A partir de ascensão de George W. Bush à presidência dos Estados Unidos,
a política exterior de Brasil afigurou-se deveras contraditória. O chanceler
Celso Lafer demitiu o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, da diretoria do
IPRI, porque criticava a ALCA e, depois, aceitou que os Estados Unidos
destituíssem ilegalmente o embaixador José Maurício Bustani da direção da OPAC.
Essas iniciativas e atitudes subservientes e servis de Celso Lafer, que se
configurou como o pior chanceler na história do Itamaraty, não foram
consistentes com os incisivos e altivos pronunciamentos de Fernando Henrique
Cardoso, que talvez para arrefecer a repercussão altamente negativa que teve a
demissão do embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, voltou a manifestar-se, de
maneira mais categórica sobre a ALCA. Em discurso na III Cúpula das Américas,
em Quebec (22 de Abril), ela declarou
que a ALCA
seria “bem-vinda” se sua criação fosse um passo para dar acesso aos mercados
mais dinâmicos; se efetivamente fosse o caminho para regras compartilhadas
sobre anti-dumping; se reduzisse as barreiras não-tarifárias; se evitasse a
distorção protecionista das boas regras sanitárias; se, ao proteger a propriedade
intelectual, promovesse, ao mesmo tempo, a capacidade tecnológica de povos; e
se fosse além da Rodada Uruguaia, corrigindo as assimetrias então
cristalizadas, sobretudo na área agrícola. “Não sendo assim, seria irrelevante
ou, na pior das hipóteses, indesejável” - concluiu[5]. Após
os atentados terroristas que destruíram as torres gêmea do WTC e de parte do
Pentágono, com mais de 3.000 mortos, Fernando Henrique Cardoso, na mesma manhã
de 11 de Setembro, telefonou para Bush, a fim de emprestar-lhe integral
solidariedade, e Celso Lafer tomou a iniciativa de convocar uma reunião do
Órgão de Consulta da OEA, invocando o Tratado Interamericano de Assistência
Recíproca (TIAR), conhecido como
Tratado do Rio de Janeiro, alegando que “a excepcional gravidade dos ataques e
a discussão de seus desdobramentos” justificavam o recurso ao mecanismo de
segurança coletiva do hemisfério. Três dias depois,
declarou que o Brasil poderia participar da guerra, se viesse a ocorrer,
apoiando uma ação militar dos Estados Unidos, desde que o grupo terrorista que
atacou as torres do World Trade Center e o Pentágono fossem identificados.
E, durante a XXIV Reunião de Consulta
dos Chanceleres Americanos, em 21 de Setembro, afirmou que “as mais de cinco
décadas decorridas desde a assinatura do TIAR[6] não lhe retiram a validade”[7]. Seu propósito declarado
foi criar uma “moldura jurídica de cooperação, compatível com as resoluções da
ONU”, com a “vantagem” de excluir o Brasil do compromisso de emprego da força
armada no trato do terrorismo, delimitando juridicamente a manifestação
política de solidariedade[8]. Essa
foi a explicação que também ofereceu a Fernando Henrique Cardoso[9]. Porém, a invocação do
TIAR, cujo Art. 3 indicava que “um ataque armado por parte de qualquer Estado a
um Estado americano será considerado um ataque contra todos os Estados
americanos”, foi evidentemente inepta. O ataque contra o World Trade Center e o
Pentágono não partira de nenhum outro Estado nacional, como em Pearl Harbor
(1941). Conquanto pudesse ser considerada uma ação bélica, não prevista na
normativa internacional de guerra, ela partiu de um inimigo difuso, disperso,
que recorreu ao terrorismo, mesmo à custa de suicídio, porque não dispunha de
mísseis e outras armas para atacar os Estados Unidos. A convocação do Órgão de Consulta da OEA, agravada pela
declaração de que o TIAR, instrumento da Guerra Fria, não perdera a validade,
constituiu, portanto, uma toleima, sobretudo depois
que o presidente de México, Vicente Fox, em reunião do Conselho Permanente da
OEA, anunciara o propósito de denunciá-lo, dizendo que ele representava não
só um “caso grave de obsolescencia e inutilidad”, como a guerra das Malvinas (1982)
demonstrara, “sino que ha impedido, en contra de sus propósitos, la
generación de una idea de seguridad adecuada a los alcances y necesidades del
hemisferio”[10]. Segundo Fox explicara, com muita lucidez, a nova arquitetura do sistema internacional, punha em evidencia que esse
instrumento se tornara “inservible, puesto que surgió de causas y realidades
que han desaparecido”, e a vulnerabilidade das nações, no novo sistema
globalizado, já não derivava, primordialmente, de considerações militares,
razão pela qual os instrumentos desenhados no passado e concebidos para outras
condições foram superados pelos fatos. Era, por tanto, “indispensable
reconocer el anacronismo del Tratado de Río, el cual surgió como una emergencia
y de acuerdo a las condiciones de la época”[11]. As
atitudes de Celso Lafer concorreram, fortemente, para consolidar a percepção de
que a política exterior de Fernando Henrique Cardoso, assim como a política
econômica, de maneira geral, constituiu simples acessório dos interesses
hegemônicos dos Estados Unidos, no mundo e, em especial, na América Latina. E
contribuíram para desgastar ainda mais o prestígio do governo, ao projetar a
imagem de subserviência aos desígnios dos Estados Unidos, em meio de uma gestão
turbulenta, como nunca houve, a pior na história do Itamaraty. E não se
afiguraram consistentes com os pronunciamentos de Fernando Henrique Cardoso,
contrários à política exterior de George W. Bush, que se recusara a ratificar o
Protocolo de Kyoto - sobre a redução da emissão de gases–estufa - bloqueara os esforços internacionais para
fortalecer a Biological Weapons Convention, denunciara o Tratado ABM
(Anti-Balistic Missile Agreement), e retirara a adesão dos Estados Unidos ao
tratado que criou a Corte Penal Internacional contra os crimes de guerra,
instituída em Haia pela ONU, além de intensificar pressões sobre outros países
para isentar os cidadãos americanos de sua jurisdição.
Pouco tempo depois de Lafer invocar o inepto Tratado do Rio de Janeiro, em face
dos atentados terroristas de 11 de Setembro de 2001, Fernando Henrique Cardoso,
em discurso na Assembléia Nacional da França, referiu-se aos Estados Unidos, ao
proclamar que “a barbárie não é somente a covardia do terrorismo, mas também a
intolerância ou a imposição de políticas unilaterais em escala planetária”[12].
E, durante a visita ao presidente George W. Bush, em Washington, salientou,
diplomaticamente, que havia, “from time to time, some difference” entre
Brasil e Estados Unidos, e, lembrando que na véspera “the President
(Bush) said to be American first”, completou: “Well, I would say the same, to be
Brazil first. That's normal. But then let's see how to cooperate”[13]. O
governo de Fernando Henrique Cardoso, qualquer que fosse seu propósito de
cooperar com os Estados Unidos, não
podia deixar de atender e responder aos interesses concretos do Brasil –
econômicos, sociais e políticos - gerados e modelados pelo processo produtivo,
que o Estado nacional, como instância superior de organização e comando da
sociedade, devia articular e representar.
E a ALCA, em realidade, não convinha ao Brasil, sob vários aspectos. Um
estudo divulgado em 2 de Maio de 2002 pela Secretaria da Receita Federal
demonstrou que os Estados Unidos, México e Canadá seriam os países mais
beneficiados com a formação da ALCA, cujo comercio estaria concentrado em
empresas transnacionais, que sempre distorceram os preços, o mais das vezes,
para transferir lucros ou prejuízos de um país para outro. A Federação das
Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), por sua vez, calculou que o Brasil
perderia US$ 1 bilhão por ano em seu comercio exterior, a partir de 1º de Janeiro
de 2006, data prevista para a implantação da ALCA[14], posto que suas importações ultrapassariam US$ 2,254 bilhões, enquanto as exportações
somente aumentariam cerca US$ 1.252 bilhões, o que agravaria a sua vulnerabilidade, com um crescente
déficit em suas contas externas. Também a Associação Latino-Americana de
Integração (ALADI) concluiu que a ALCA trazia mais ameaças que oportunidades
para Brasil, levando-o a perder o mercado, dentro do hemisfério, para 176
produtos exportados por suas empresas, principalmente nos setores de
manufaturados, o seja, máquinas e equipamentos, automóveis, papel e celulosa e
produtos químicos, em virtude da concorrência dos Estados Unidos e Canadá[15]. E outro estudo, realizado
pelos pesquisadores da Universidade de Campinas, a pedido do Ministro do
Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior de Brasil, embaixador Sergio
Amaral, chegou à mesma conclusão de que a implantação da ALCA, de um lado,vai
incrementar as importações do Brasil e, por outro, inibir suas exportações para
os países de América Latina, ademais de afastar os investimentos estrangeiros,
promover a “desindustrialização e desnacionalização” da economia, ocasionando o
aumento do desemprego e da demanda por dólares, após analisar 18 cadeias
produtivas - os setores que produzem 53,1% do o faturamento industrial
nacional, 57% das exportações y 68,4% das importações totais do país[16]. O Brasil tenderia a regredir à condição de
país agro-exportador e produtor de manufaturas leves ou bens de consumo, uma
vez que a área de livre comércio provocaria a destruição de boa parte do seu
parque industrial, particularmente nos setores mais sofisticados, em que os
Estados Unidos, sem dúvida, predominavam. Não sem razão Fernando
Henrique Cardoso reconheceu que era más fácil, “ideológica e politicamente”,
negociar acordos comerciais com a União Européia do que com os Estados Unidos, para a formação da ALCA, pois apresentavam menos riscos
para a soberania do Brasil[17]. A política exterior de Lula Luiz Inácio Lula da Silva, como candidato do Partido dos Trabalhadores
(PT), à presidência da República, declarou, durante a campanha
eleitoral, que a ALCA não constituía uma proposta de integração, “mas uma política de anexação, e nosso país
não será anexado”[18]. Como candidato, Lula da Silva
podia dizer, livremente, o que pensava. Como chefe do governo, entretanto,
tinha de preservar o relacionamento do Brasil com os Estados Unidos. Assim,
mais por conveniência política do que propriamente por interesses comerciais,
não afastou o Brasil das negociações para a formação da ALCA. E a nomeação dos
embaixadores Celso Amorim e Samuel Pinheiro Guimarães, que Celso Lafer demitira
do IPRI devido aos seus pronunciamentos contra a ALCA, para os cargos de
ministro das Relações Exteriores e secretário-geral do Itamaraty,
respectivamente, demonstrou que o Brasil buscaria com os Estados Unidos
uma “parceria madura, com base no interesse mútuo”, como Lula da Silva declarou no seu discurso de posse[19],
e não fundada na submissão e subserviência. Essa diretriz produziu certo
esfriamento nas relações entre os dois países, após a inauguração do seu
governo, em 1° de Janeiro de 2003. Algumas tensões surgiram por causa da greve
geral na Venezuela, promovida pela oposição, com o discreto beneplácito de
Washington, visando à derrubada do presidente Hugo Chávez, cujo governo
constitucional o Brasil estava a respaldar, desde, aliás, os últimos dias do
mandato de Fernando Henrique Cardoso. Lula da Silva também criticou a guerra contra o
Iraque, deflagrada pelos Estados Unidos
para atender, entre diversos fatores, aos interesses das indústrias bélicas e
companhias petrolíferas americanas. “O presidente Bush (...) desrespeita a ONU, não leva em conta o
Conselho de Segurança e o que pensa o restante do mundo[20].
Acho que isso é grave. Grave para o futuro da ONU, que é uma referência de
comportamento para as nações do mundo inteiro” – disse Lula da Silva[21]. Tais
críticas não impediram que ele, ao visitar Washington, 20 de Junho de 2003, declarasse crer que as relações entre o Brasil e os Estados Unidos poderiam “surpreender o mundo”. Apesar de que existiam diferenças de posições e de
percepções, e de profundas divergências também na área comercial, difíceis de
resolver, um bom relacionamento entre o
Brasil e o Estados Unidos convinha tanto a Lula da Silva quanto a George W.
Bush. E os dois presidentes
empenharam-se em evitar que essas divergências nas negociações comerciais,
tanto na OMC quanto na ALCA, contaminassem o restante das relações bilaterais. Contudo, da mesmo forma que Collor de Mello e
Fernando Henrique Cardoso, que buscaram estabelecer um bom relacionamento entre
os dois países, Lula da Silva não conseguiu evitar as divergências e atritos,
conquanto mantivesse a política de
estabilização econômica e financeira, de acordo com o FMI, fim de evitar a fuga
de capitais e o retorno da inflação. A contenda, sobretudo em torno da
ALCA/MERCOSUL, recrudesceu, agravada por outros litígios, na medida em que os
interesses nacionais do Brasil passaram a prevalecer como vetor da sua política
exterior, em contradição com as pretensões imperiais dos Estados Unidos,
exacerbadas na administração de George W. Bush. E as negociações entre
o Brasil e os Estados Unidos chegaram a um impasse. O projeto da ALCA ia muito além do chamado livre comércio, em sentido
estrito. Incluía aspectos normativos para
serviços, investimentos, compras governamentais e propriedade intelectual que incidiam diretamente sobre a capacidade reguladora dos países. Por
outro lado, os Estados Unidos não se dispunham a oferecer livre acesso ao seu mercado, o maior do hemisfério, para
os produtos em que o Brasil apresentava
vantagens comparativas (sobretudo, mas não apenas agrícolas), e excluíam
das negociações aspectos de importância prioritária, como os subsídios
agrícolas e as medidas anti-dumping[22]. Além do açúcar, a commodity mais protegida
nos Estados Unidos, dois dos produtos brasileiros mais competitivos – aço e
suco de laranja – sofriam restrições tarifárias e não-tarifárias, que visavam a
proteger os fabricantes americanos e impediam o aumento das exportações do
Brasil. E os Estados Unidos sinalizaram que não eliminariam
os subsídios para esses produtos até o que a questão não fosse resolvida, no
âmbito da OMC, com os países da União Européia. Isto significava como
conseqüência do acordo entre a França e a Alemanha, que, não haveria qualquer
alteração em sua política agrícola até 2007 e que aqueles produtos brasileiros
tampouco teriam acesso preferencial ao mercado americano, através da ALCA. Os
Estados Unidos igualmente se recusavam a tratar da lei anti-dumping, que permitia ao governo de Washington aplicar
medidas de salvaguarda a produtos que eles considerassem que estavam sendo
importados a preços sub-valorizados. Cláusula nesse sentido constava das
provisões do NAFTA e o Brasil não a aceitava, na ALCA, pois constituía uma das
barreiras não tarifárias, levantadas freqüentemente pelos Estados Unidos para
proteger suas indústria ineficientes. O
governo de Lula da Silva outrossim se opôs a acordos que somente resultariam em
prejuízo para o Brasil e não aceitou uma redução de tarifas, que tivesse como
base o percentual aplicado, menor que o consolidado na OMC, como fizera o governo de Fernando Henrique Cardoso. “Em vez de nos prendermos a concepções irrealistas de uma ALCA, em torno das quais o consenso se afigura inatingível,
preferimos nos concentrar na ‘ALCA possível’, que concilie
da maneira mais produtiva os objetivos necessariamente diferenciados dos 34 países participantes” –
escreveu Celso Amorim[23], esclarecendo que foi “a partir desse enfoque
consistente e realista” que a declaração
conjunta na reunião dos presidentes Lula da Silva e George W. Bush, em Washington, expressou o entendimento de que os dois países cooperariam
para que as negociações fossem
concluídas, com êxito, nos prazos previamente acordados, os quais,
entretanto, não podiam
prevalecer sobre o conteúdo. Segundo Celso Amorim, o governo
do presidente Lula da Silva não haveria de aderir a
acordos que fossem incompatíveis com os interesses brasileiros, embora
tratasse de explorar, soberanamente, todas as alternativas para a promoção do comércio e a aceleração do
desenvolvimento nacional. Essa
resistência a aceitar acordo incompatíveis com seus interesses nacionais, levou o Brasil e os Estados Unidos a um
atrito, de profunda repercussão, nas negociações, durante a 5.ª Conferência Ministerial da Organização
Mundial do Comércio (OMC), realizada em Cancun (México), em 14 de Setembro de
2003. O Brasil coordenou a formação de um bloco chamado
G-21, liderando, dentro da OMC, os países emergentes, como Índia, China,
México, África do Sul e Indonésia, que não se dispunham a prosseguir com a
agenda, que só interessava às potências industriais, depois de já haverem
reduzido tarifas de bens manufaturados e adotado regras sobre patentes, sem que
nada lhes fosse concedido quanto à liberalização do comércio agrícola. Assim,
os delegados de 146 países não alcançaram em Cancun nenhum entendimento em
relação aos dois principais temas da agenda, agendados nas reuniões de
Cingapura (1996) e Doha (2001). Os
Estados Unidos e a União Européia pretenderam obter um acordo,sujeitando
investimentos, concorrência, compras governamentais e facilitação das trocas às
regras do comércio internacional, mas não quiseram discutir os subsídios que
concediam, anualmente, aos produtos agrícolas e prejudicavam as exportações dos
países em desenvolvimento. “A diplomacia brasileira foi a grande vencedora de
Cancun ao impedir que o comércio agrícola prosseguisse dando cobertura aos
interesses da União Européia e dos Estados Unidos, por efeito de manobras
diplomáticas dos países que detêm maior poder mundial” – comentou o professor
Amado Cervo, concluindo que “o ministro Celso Amorim ergueu uma obra de gênio
da engenharia política”, ao coordenar a formação do G-21 (ou G-mais, como ele
preferiu chamar), o grupo de países em desenvolvimento, reunindo a China,
Índia, África do Sul, Argentina, México, Chile, praticamente toda a América
Latina, a Tailândia, Filipinas, Paquistão, Egito e outros. Esses países, que
representavam mais de 55% da população mundial[24], quase 69% da produção
agrícola e a maioria dos pobres de todos os continentes, não mais aceitaram a
diferença de tratamento que se estabeleceu quando o GATT, no início da década
de 50 do século XX, aprovou um “waiver”, ou seja, uma exceção para a
agricultura, a pedido dos Estados Unidos, e pouco tempo depois julgou como
produtos agrícolas o agribusiness, ou seja, produtos agro-industriais,
tais como óleo e farinha de soja, farinha de trigo, azeite de oliva etc.,
permitindo que os Estados Unidos, França, Alemanha, Japão e outros potências
industriais pudessem conceder-lhes, anualmente, subsídios, no valor mais de US$
300 bilhões, e exportá-los fora das normas de mercado[25]. Segundo informação do
Banco Mundial, o governo americano destinava, anualmente, US$ 3 bilhões às
subvenções para o plantio de algodão nos Estados Unidos. E cerca de ¼ dos
grandes empresários rurais, nos Estados Unidos e na União Européia, ganharam,
durante a década de 90 do século XX, subsídios, que lhes possibilitaram
produzir muito mais colheitas do que necessárias para o consumo doméstico e
vender o excedente, no mercado mundial, a preços mais baixos do que os países
em desenvolvimento da Ásia, África e América Latina[26]. O impasse na reunião da OMC representou uma
derrota para a União Européia e, especialmente, um fiasco para os Estados
Unidos, evidenciando as enormes dificuldades que teriam para avançar nas
negociações sobre a ALCA. O governo de George W. Bush intensificou
então as pressões sobre os países sul-americanos, como a
Colômbia, para que se afastassem da posição do Brasil e do MERCOSUL, com vistas
à reunião sobre a ALCA, em Miami. Esse comportamento,
o chanceler Celso Amorim criticou com dureza, dizendo que era uma “coisa muito
lamentável, muito destrutiva”, posto que os Estados Unidos não estavam a
convencer os países, que integraram o G-plus, liderado pelo Brasil, “mas
fazendo ameaças”[27]. O
embaixador Adhemar Bahadian, encarregado das negociações pelo Itamaraty,
previu, por sua vez, que a ALCA poderia não sair do papel[28].
De fato, a turbulência continuou a abalar as negociações. O confronto entre o Brasil e os Estados
Unidos, explicitado em Cancun, tornara inevitável o colapso da reunião da Comissão de Negociação Comercial (CNC), a instância técnica das
negociações sobre a ALCA, que se reuniu entre 1° e 3 de Outubro, em Porto of
Spain, capital de Trinidad & Tobago. Após intensas conversações, devido à
resistência do Uruguai, o Brasil, com o
apoio da Argentina e dos países do MERCOSUL, apresentou uma proposta conjunta,
a ser debatida na reunião dos ministros, marcada para novembro, em Miami. Essa
proposta colocou as negociações em “três trilhos”, prevendo a derrubada de
barreiras comerciais para outros países
em desenvolvimento em um prazo menor que o que viesse a ser fixado para Canadá
e Estados Unidos e deixando os temas sensíveis, como normas de proteção a
investimentos e à propriedade intelectual, bem como a abertura de compras
governamentais e serviços aos fornecedores estrangeiros, para serem negociados,
separadamente, pelos países que quisessem. O que
acarretou o fracasso da reunião foi, então, o mesmo impasse que ocorrera em
Cancun. Entrementes,
por mais que os governos de Lula da Silva e George W. Bush se esforçassem para
que os atritos na área comercial não repercutissem sobre as relações
bilaterais, as tensões recresceram. O
governo americano, em Janeiro de 2004, instituiu o US-VISIT” (United States Visitor and
Immigrant Status Indicator Technology), o programa que estabelecia o
controle total do ingresso de visitantes, por meio de fotografias e sistemas
computadorizados de reconhecimento de face e digitais, nos 115 portos marítimos
e aeroportos dos Estados Unidos, de todos os estrangeiros, oriundos de países
que necessitassem de visto para entrar nos Estados Unidos. A medida, executada
pelo Homeland Security Secretary, atingiu os visitantes de todos países,
inclusive o Brasil, excetuando, porém,
apenas 27, a maioria europeus. Como
conseqüência, do juiz da 1ª Vara Federal de Mato
Grosso, Juvelier Sebastião da Silva, de Mato Grosso, acolheu a
Ação Cautelar Inominada, movida pelo procurador da República, José Pedro
Taques, concedendo uma liminar[29], e determinou que Polícia
Federal impusesse aos turistas americanos o mesmo tratamento a que seriam
submetidos os brasileiros em viagem aos Estados Unidos. Na sua decisão, ao
acolher o argumento do procurador José Pedro Taques de que, “se eles (os
americanos) podem supor que todo estrangeiro é terrorista, nós também estamos
autorizados a fazer o mesmo”, o juiz Juvelier Sebastião da Silva, observando
que, de acordo com a nova determinação do governo americano, “pessoas de várias
nacionalidades, consideradas desde logo terroristas em potencial”, deveriam ser
fotografadas e teriam suas impressões digitais recolhidas pelas autoridades
norte-americanas assim que entrassem ou deixassem os Estados Unidos, ressaltou
que, obviamente, os cidadãos europeus e de outros países ricos não seriam
objeto do “ato ultrajante”, o qual seria reservado aos nacionais de países
pobres da América Latina, África, Oriente Médio e Ásia. No entanto, uma vez que no direito
internacional público, vigia o chamado princípio da reciprocidade, de modo que as relações entre Estados não se
realizassem de forma desigual, principalmente em se tratando da dignidade da
pessoa humana e de proteção e resguardo dos direitos humanos, o juiz Juvelier
Sebastião da Silva deferiu o pedido de concessão de medida liminar e determinou
à União Federal, que fizesse gestões junto às autoridades norte-americanas no
sentido de que os brasileiros fossem excluídos da exigência que passaria a
vigorar a partir do dia 1 de Janeiro de 2004 para entrada e saída dos Estados
Unidos da América. Enquanto perdurasse a restrição imposta pelas autoridades
norte-americanas, a Polícia Federal devia recolher as impressões digitais dos
nacionais dos Estados Unidos, nos portos, aeroportos e rodovias, quando
entrassem em território brasileiro, “sob pena de ser-lhes negada a entrada
devida”. A
medida, determinada pelo juiz federal Juvelier Sebastião da Silva, afetou,
naturalmente, o relacionamento entre o Brasil e os Estados Unidos, ao gerar
mais um foco de tensões. A Embaixada Americana, em Brasília, emitiu uma nota,
na qual dizia compreender o direito soberano que o Brasil tinha para determinar
quais são os requisitos de entrada no país, mas lamentava a forma pela qual os
novos procedimentos foram iniciados, repentinamente, discriminando cidadãos dos
Estados Unidos, com tratamento excepcional que resultou em longos atrasos no
processamento, quando alguns cidadãos norte-americanos tiveram que esperar mais
de nove horas em sua chegada no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro. O fracasso dos Estados Unidos na tentativa de impor seus interesses,
tanto em Cancun quanto em Port of Spain, indicou, claramente, que a ALCA,
conforme projetada em 1994, se frustrara. E, de fato, frustrou-se. A fim de
evitar o impasse e outro fiasco, na 8.ª Reunião Ministerial, realizada em Miami, os Estados
Unidos fizeram concessões e aceitaram um acordo, em torno do formato da ALCA,
proposto pelo Brasil (ALCA light e a la carte), e
desenhado uma semana antes, em reunião prévia, entre Robert B. Zoellick
e Celso Amorim. Nem os Estados Unidos insistiriam nos itens rejeitados pelo
Brasil, tais como compras governamentais, serviços etc., nem o Brasil exigiria,
como contrapartida, que fosse discutida a questão dos subsídios agrícolas e lei
anti-dumping, que os Estados Unidos não queriam. O acordo resultou de concessões, com base em uma concepção mais
flexível da ALCA, a ALCA Light, fatiada em três trilhos, tal como o Brasil pretendera, restrita aos
temas sobre os quais havia consenso e a um conjunto mínimo de obrigações
comuns, regras básicas, nas 11 áreas em negociação, mas permitindo que cada
país fizesse acordos em separado, nas áreas que lhe conviessem. Esse entendimento somente ocorreu quando o
governo dos Estados Unidos, que percebia o chanceler Celso Amorim como inimigo
ideológico da ALCA, constatou que a campanha contra o Itamaraty, com o apoio do
lobby e de alguns órgãos da mídia dentro do Brasil, não alcançara nenhum
resultado e que o fiasco de Cancun se poderia reproduzir na 8ª Reunião
Ministerial, em Miami, Florida, estado governado por Jeff, irmão de George W.
Bush[30]. O
governo de Lula não pretendera confrontar os Estados Unidos. Apenas tratou de
conduzir as negociações sobre a ALCA de conformidade com os interesses do
Brasil. Indagado pelos repórteres Eurípedes Alcântara
e Vilma Gryzinski, da revista Veja, sobre o que o Brasil
aceitaria perder na ALCA, o chanceler Celso Amorim, prontamente, respondeu: “Não aceitamos perder a
dignidade. Não vamos aceitar modelos que vêm prontos, tudo tem de ser
negociado. O que acontecia antes era uma falsa negociação. As coisas vinham
vindo e, no máximo, eram postergadas. A principal barreira, os subsídios, os
Estados Unidos não discutiam” [31]. Ele explicou que os temas de
natureza normativa e sistêmica tinham de ser discutidos na OMC, pois não fazia
sentido estabelecer uma regra de propriedade intelectual para os Estados Unidos
e outra para a União Européia. Este princípio era também válido para normas de
investimentos e serviços. E, na questão das compras governamentais, o interesse
do Brasil consistia, sobretudo, em preservar sua capacidade de seguir com uma
política de desenvolvimento, como no caso da Petrobrás, que prorizava as
indústrias brasileiras na aquisição de equipamentos para as plataformas de
petróleo, o que não mais poderia
fazê-lo, se esse setor fosse aberto à concorrências das corporações americanas.
As indústria brasileiras de máquinas e equipamentos, principal fator de
autotransformação e auto-sustentação do capitalismo, seriam, possivelmente,
destruídas pelas grandes corporações americanas, levando milhares de
trabalhadores ao desemprego. Ao
mesmo tempo em que resistia às fortes pressões para que aceitasse tais itens na
ALCA, o Brasil sinalizou mais uma vez a autonomia com que implementava sua
política exterior. Em 26 de Setembro de 2003, Lula da Silva visitou Havana,
onde firmou com Fidel Castro 12 instrumentos de cooperação em matéria
financeira, turismo, saúde agricultura, pesca, meio ambiente, educação e
industria siderúrgica, e acordos comerciais, no montante de US$ 200 milhões,
uma parte com financiamento aprovado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social (BNDES), outra com recursos privados de empresas
brasileiras, tais como o Grupo Brasilinvest e a construtora Casa Forma (US$ 112
milhões), para a construção de quatro resorts em Cuba. Entre 2 e 9 de
Dezembro, acompanhado pelo presidente da Comissão de Representantes Permanentes
do MERCOSUL, Eduardo Duhalde, ele visitou cinco países árabes - Emirados Árabes
Unidos (EAU), Síria, Líbano, Egito e
Líbia. E, mostrando mais uma vez o intuito de solidificar a integração com
a Argentina, no MERCOSUL, visitou a
Índia, em 26 de Janeiro de 2004, acompanhado por Eduardo Duhalde. A
estratégia de política exterior do governo de Lula da Silva consistiu, assim,
em construir, primordialmente, vínculos
estreitos de cooperação política e econômica entre Brasil e Argentina, visando
a forjar, a médio prazo, um pólo de poder, na América do Sul, e buscar, ao
mesmo tempo, estabelecer uma aliança, tanto econômica e comercial quanto
política, com a Índia e África do Sul, líderes dos países em vias de
desenvolvimento, que articularam o G-21 para obstar que os as potências
industriais, Estados Unidos e União Européia, impusessem seus interesses,
durante as negociações da OMC, realizadas Cancun. Esse bloco de países em
desenvolvimento deveria também abranger
também a China e a Rússia, países com o quais o Brasil também pretendia
aprofundar as relações comerciais e políticas, a fim de conquistar novos e diversificar suas exportações. Não se
tratava de hostilizar ou afrontar os Estados Unidos, mas de mudar a “geografia
da negociação comercial”, como disse o chanceler Celso Amorim, e negociar de
forma equilibrada, defendo os interesses do Brasil[32]. A
contenda entre o Brasil e os Estados Unidos decorreu, não de uma posição
ideológica do governo de Lula da Silva, mas da contradição entre os interesses
reais dos dois países. Por motivos de política doméstica, os Estados Unidos não aceitavam diminuir o subsídio dos produtos que
exportavam para o Brasil, e não davam compensações em acesso a mercados para
produtos agrícolas do MERCOSUL. E seu interesse na formação da ALCA não
consistia na redução das barreiras
tarifárias, mas em forçar basicamente a abertura de setores estratégicos, como
as compras governamentais e serviços, de modo que pudessem continuar obter
superávits nas suas transações com os países do MERCOSUL. Esses temas, a fim de
evitar que se repetisse na reunião de Miami o fiasco de Cancun, foram transferidos para posterior discussão
na OMC e se estabeleceu um acordo em torno da ALCA Light, conforme o
Brasil propusera. Entretanto, na reunião de Puebla
(México), que se realizou entre 3 e 6 de Fevereiro para prosseguir com as
negociações, os Estados Unidos,
rompendo o acordo de Miami e liderando um grupo de 14 países, entre os quais
Canadá, México, Chile e os da América Central e Caribe (G-14), voltaram a
insistir em uma ALCA “abrangente”, com os itens relativos a compras
governamentais, investimentos, serviços e propriedade intelectual, sem que
aceitassem eliminar os subsídios e subsídios indiretos às exportações agrícolas
- créditos e seguros - bem como nada
propuseram para os outros temas que o MERCOSUL considerava importante:
créditos, seguros e ajuda interna. O secretario de Relações Econômicas Internacionais da
Argentina, Martín Redrado, advertiu que o êxito ou o fracasso da reunião
de Puebla dependia da vontade de negociação dos Estados Unidos, uma vez que o
MERCOSUL já havia cedido bastante, os Estados Unidos não haviam “movido una
sola coma en su posición agrícola”[33]. E, “sin agricultura no hay acuerdo” - disseram Martín Redrado e o co-presidente das negociações, o
embaixador brasileiro Adhemar Bahadian, quando mediavam as deliberações[34]. Esta era uma
condição inamovível. Bem o chanceler Celso Amorim advertira que, se os Estados
Unidos quisessem forçar demais, nada iriam conseguir, nem com o Brasil nem com
outros países da América do Sul[35]. Com efeito, a
reunião de Puebla terminou em um fiasco, como a de Cancun, e as negociações
sobre a ALCA chegaram a um impasse, difícil de superar até 2005, prazo para o
seu encerramento, estabelecido em 1994[36]. As
tensões no relacionamento de Brasília com Washington não se restringiram, no
entanto, às negociações sobre a ALCA ou à imposição aos turistas americanos do
mesmo tratamento a que seriam submetidos os brasileiros em viagem aos Estados
Unidos, com a vigência do “US-VISIT” (United States Visitor and Immigrant
Status Indicator Technology), o programa de identificação dos visitantes,
por meio de fotografias e sistemas computadorizados de reconhecimento de face e
digitais, estabelecido pelo governo de George W. Bush. A medida determinada
pelo juiz federal Juvelier Sebastião da Silva causou enorme impacto político e
contou com o apoio de 99% da opinião pública brasileira. E, através de Portaria Interministerial
10/01, assinada pelos ministros da Justiça e Relações Exteriores, Márcio Thomaz
Bastos e Celso Amorim, respectivamente, e pelo advogado-geral da União, Álvaro
Augusto Ribeiro Costa, o governo manteve a identificação dos americanos, em
todos os portos marítimos, aeroportos e rodovias. Em seguida, Lula da Silva viajou para participar da Cúpula
Extraordinária das Américas, nos dias 12 e 13 de Janeiro, em Monterrey
(México), onde conversou com George W. Bush sobre a questão da
obrigatoriedade de identificação (fotográfica e datiloscópica) de brasileiros e
americanos, e entregou-lhe um documento em que
propunha a eliminação da exigência de visto para a entrada de brasileiros nos
Estados Unidos, o que eliminaria idêntica exigência para o ingresso dos
americanos no Brasil. “Se estamos querendo integração das Américas é natural
que tenha que haver não dificuldades, mas facilidades para as pessoas"
- comentou Celso Amorim. De
fato, a aplicação do programa “US-VISIT” evidenciara a dubiedade do governo
americano, que instituir a área de livre comércio, permitindo a livre
circulação de bens, capitais e serviços, mas, ao mesmo tempo, e discriminava o
Brasil e os países da América Latina. À
mesma época, outra área de conflito com os Estados Unidos configurou-se. O
Brasil estava a converter-se no sétimo país a produzir urânio enriquecido[37], em escala industrial, com
capacidade para suprir 60% das necessidades de suas usinas nucleares, e
exportar até US$ 12,5 milhões ao ano, a partir de 2014, conforme o presidente
da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), Oldair Dias Gonçalves,
anunciara em outubro de 2003[38]. E em Dezembro de 2003, a
Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), encorajada pelo Departamento
de Estado, começou a pressioná-lo para que firmasse um acordo de salvaguarda, que cobrisse as instalações da empresa
estatal Indústrias
Nucleares do Brasil (INB), em Resende, Estado do Rio de
Janeiro. No início primeiro semestre de
2004, os Estados Unidos intensificaram as pressões para que o Brasil aderisse a
um específico Protocolo Adicional ao acordo de salvaguardas do TNP, dando aos
inspetores da AIEA maior autoridade para fazer verificações intrusivas no seu
programa nuclear. Esse Protocolo
Adicional, que estava em negociação desde 1992, seria voluntário, mas a AIEA
pretendeu fazê-lo impositivo e ir além da prática regular, que permitia a
verificação de todos os aspectos do enriquecimento de urânio, salvo sua
tecnologia. Exigia também que o Brasil suspendesse todos os programas de
enriquecimento ou de reprocessamento, que já houvesse começado, e permitisse
tantas inspeções quanto fossem arbitradas, não apenas nas instalações
nucleares, mas em qualquer parte do território considerada suspeita — o que
incluía residências particulares, se assim fosse decidido, respondendo
a qualquer pergunta relacionada com a questão. De conformidade
com a doutrina de George W. Bush, anunciada em 11 de Fevereiro de 2004, os
países que até então não produziam urânio enriquecido não estariam autorizados
a fazê-lo. Apenas o Brasil, entretanto, seria afetado e
prejudicado com a adesão ao Protocolo Adicional, porquanto era, entre os
signatários do TNP, o único país, com uma indústria nuclear capaz de produzir
urânio enriquecido. Esse
problema evidenciou ainda mais o enorme erro cometido pelo governo de Fernando
Henrique Cardoso, levando o Brasil a aceitar o TNP, ao qual a Índia, Paquistão
e Israel não aderiram e as grandes potências, notadamente os Estados Unidos,
estavam a violar, não cumprindo o programa de desarmamento e produzindo novas
armas nucleares. Entretanto, a resistência do Brasil ante as inspeções
intrusivas pretendidas pela AIEA deu origem a intrigas, através de alguns meios
de comunicação, difundindo-se a suspeita de que ele estaria pretendendo também
fabricar armamentos nucleares. The Washington Post publicou um
artigo, no qual considerou que a atitude do Brasil, ao não permitir que os
inspetores da AIEA examinassem as instalações nucleares em Resende, gerava
receio de que “a
new type of nuclear race is underway, marked not by the bold pursuit of atomic
weapons but by the quiet and lawful development of sophisticated technology for
nuclear energy production, which can be quickly converted into a weapons
program”[39]. O articulista, Peter Slevin, assinalou que o projeto do Brasil criava
também um dilema para o presidente
George W. Bush, que passara a exigir restrições mais rigorosas sobre o
enriquecimento de urânio, mesmo para produção de energia elétrica, como parte
da nova estratégia de impedir a proliferação de armamentos nucleares[40]. Por sua
vez, La
Nación,
de Buenos Aires, comentou, em editorial que a
"inesperada noticia” de que o Brasil não autorizaria os inspetores da AIEA a inspecionar a
usina de enriquecimento de Urânio, havia gerado “comprensible inquietud”[41]. E ao
assinalar a existência “temores en relación con las costosas
centrífugas brasileñas”, inclusive, segundo alguns círculos, o
perigo de que essas centrífugas pudessem ter alguma conexão “con
la actividad del doctor Abdul Qadeer Khan, a quien se imputa el haber vendido
ilegalmente secretos científicos a Irán, Libia y -acaso- a Corea del Norte”, formulou várias perguntas, nas quais
transpareceu o intuito de gerar desconfiança e suspeita. “¿Conoce
la Argentina el programa al que no tendrá acceso la Agencia Internacional de
Energía Atómica? ¿Tienen las autoridades argentinas información suficiente
sobre las centrífugas brasileñas, con las salvaguardias de confidencialidad que
son necesarias?”[42]. Por
trás dessa campanha contra a atitude do governo de Lula da Silva havia,
certamente, tanto interesse econômico quanto, igualmente, político e
militar-estratégico. O Brasil, com a sexta maior reserva mundial de urânio e tecnologia própria, comercialmente competitiva, demonstrou
que podia alcançar a autonomia na produção do combustível nuclear, fonte de
energia da maior importância, ante perspectiva de esgotamento das reservas
mundiais de petróleo, ainda na primeira metade do século XXI, e não mais
necessitava remeter o minério bruto para converter-se em gás no Canadá e,
depois, seguir para a Europa, onde a Urenco o enriquecia e o devolvia em forma
de gás para utilização nas usinas Angra I e Angra II. deixaria de ser
exportador do minério e passaria a desempenhar importante papel como global player, no bilionário mercado de combustível
nuclear, como virtual concorrente dos Estados Unidos. O comando
da Marinha, responsável pelas ultra-centrífugas para enriquecimento de urânio,
e as agências brasileiras do setor advertiram o governo de que por trás das
pressões da AIEA, atrás das quais o Departamento de Estado se movia, poderia
existir o objetivo de espionagem da tecnologia de ponta desenvolvida pelo
Brasil e considerada superior à americana e à francesa. E o vice-almirante Othon L. P. da Silva, na
reserva, apontou o motivo estratégico-militar que determinava as pressões desencadeadas
pelos Estados Unidos[43].
Esclareceu que os artefatos bélicos nucleares podiam ser classificados de duas
formas: os de destruição em massa e os inibidores de concentração de forças.
Armas de destruição em massa eram as de fusão (bombas de hidrogênio) e as de
fissão de maior porte. As de baixa potência eram inibidoras, pois qualquer
operação militar para invasão ou ocupação de um território implicava a prévia
concentração de forças. A existência de artefatos nucleares de baixa potência
no território-alvo, com um vetor adequado de lançamento, funcionaria como
poderoso inibidor, e obviamente não agradavam aos “países que têm como opção política permanente a intervenção
militar — independentemente da aprovação da ONU”[44]. A
existência de uma usina de enriquecimento de urânio diminui o tempo entre a
denúncia de todos os acordos e tratados já celebrados, e a eventual fabricação
de artefatos, i. e., making nuclear weapon on short notice. Segundo
o vice-almirante Othon L. P. da Silva, a intenção do presidente George W. Bush
de reiniciar testes nucleares e desenvolver nova geração de pequenos artefatos
com o objetivo de usá-los de forma “cirúrgica”, até mesmo contra países não
nucleares, era preocupante para o mundo. E tais atitudes somadas a agressões,
sem o respaldo do Conselho de Segurança da ONU, como aconteceu com o Iraque,
constituíam forte estímulo à proliferação nuclear, principalmente nos países
islâmicos com os quais os havia potencial de confrontação. Diversos motivos tinha,
portanto, o Brasil para não permitir o tipo de inspeções intrusivas que a AIEA
estava a pretender. E a perspectiva era de que questão se reabrisse em
2005, durante
a conferência de Exame do Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares,
possibilitando que o Brasil denunciasse que as cinco potências nucleares
(Estados Unidos, Rússia, Inglaterra, França e China) não estavam a cumprir o
“compromisso inequívoco” quanto à eliminação total de seus arsenais atômicos. Outros acontecimentos, entrementes, concorreram para conturbar ainda mais
as relações bilaterais entre o Brasil e os Estados Unidos, para o qual o
problema principal constituía a política exterior. O chanceler, embaixador Celso
Amorim obtive outra vitória com a decisão da OMC, na questão dos subsídios aos
produtores de algodão, que causavam perdas comerciais ao Brasil da ordem de US$ 480 milhões. Durante audiência na the House of Representatives Agriculture
Committee, em 28 de Abril de 2004, o
USTR Robert Zoellick declarou que iria recorrer da decisão, mas diversos
deputados reconheceram que os Estados Unidos teriam de desistir da ALCA, se o
veredicto fosse mantido, ao fim da disputa. O deputado Robert Etheridge
(Democrata, Carolina do Sul) advertiu que, se a decisão prevalecesse, seria
“uma perda de tempo” levar a ALCA para a votação no Congresso. E, comentando a
decisão em favor do Brasil, o deputado Bob Goodlatte, presidente
do Commmitee on Agriculture, ressaltou que ganhar acesso para os produtos
agrícolas dos Estados Unidos era “the most important objective of the
ongoing WTO negotiations”[45] . Pouco tempo depois, em 9 de Maio, The New York Times publicou um
longo artigo, assinado pelo jornalista Larry Rohter, no qual atribuía ao
presidente Lula da Silva o costume de beber, ressaltando, já no título, que
esse costume se convertia em preocupação nacional. O artigo, muito vago e sem
qualquer fundamento sério, leviano e infamante, afirmou que a “president's predilection for strong drink” estava a afetar a performance do seu governo[46]. E ainda acentuou que
historicamente os brasileiros tinham razão de ficar preocupados ante qualquer
sinal de “heavy drinking by their presidents”, pois Jânio Quadros,
eleito em 1960, era um notório alcoólatra e renunciara ao cargo, depois de
menos de um ano de sua investidura, dando origem a um período de instabilidade
política que “led to a coup in 1964 and 20 years of a harsh military
dictatorship”[47]. Esse artigo provocou a
indignação do governo e a repulsa de todos os líderes políticos, até da
oposição, bem como da própria imprensa brasileira, e o próprio presidente Lula
da Silva determinou o cancelamento do visto de trabalho de Rohter, implicando a
sua expulsão do Brasil, medida esta que recebeu várias críticas nos meios
políticos, embora contasse com o apoio de grande maioria da população
brasileira. Como
Dora Kramer, colunista política do Jornal do Brasil, observou, Rohter
fez “um relato a respeito de rumores que, nem de longe, figuram na lista das
principais preocupações nacionais em relação ao governo Lula”[48]. E exatamente por isso, devido à sua falsidade, a publicação do artigo em The New York Times, menos
de duas semanas após a vitória do Brasil na OMC, em conjugação com o artigo do Washington
Post sobre a produção de urânio enriquecido nas instalações da INB, em Resende,
e outros fatos, avigorou a conjectura de que estava em curso uma campanha para
desacreditar Lula da Silva, mostrá-lo como incompetente, e criar uma situação
de ingovernabilidade, de modo a permitir a adoção do parlamentarismo com um
chefe de governo mais palatável para Washington. A comparação com Jânio
Quadros, além de descabida[49], foi capciosa,
ao insinuar que o Brasil podia caminhar para uma situação semelhante à criada, com sua renúncia à presidência da
República, em 25 de Agosto de 1961. Tudo indicou que os artigos publicados em The
Washington Post, e por The
New York Times, não foram casuais nem eram inocentes. O ministro de
Planejamento, Guido Mantega, ressaltou que quando um diário, como The New
York Times, passava a publicar esse tipo difamação, algo por detrás havia. “Si fuera un
diario de la prensa amarilla, que viviera de esto, todo bien. Pero lo que vemos
es que con el artículo trataron de desgastar la imagen del presidente Lula” [50].
Na sua opinião, esse intento de desgaste era orquestrado por interesses
norte-americanos, em virtude de que Lula da Silva havia alentado a formação do
G-20 (grupo de 20 países em desenvolvimento), combatia os subsídios agrícolas
concedidos pelos Estados Unidos e estava a dificultar criação da ALCA. Círculos militares e diplomáticos igualmente
suspeitaram de que a CIA estava a desenvolver uma guerra psicológica (media),
no estilo
da grey e black propaganda, empreendida usualmente pela CIA[51], e
sua razão constituía a política exterior do Brasil, que contrariava os
interesses dos Estados Unidos. Embora
mantivesse a política de estabilização monetária, com mais rigor ainda do que
Fernando Henrique Cardoso, e promovesse duas reformas estruturais
(previdenciária e tributária), descontentando os segmentos mais radicais do PT
e da esquerda, mas ganhando o respeito e a simpatia do empresariado e dos
investidores estrangeiros, a política exterior do governo de Lula da Silva, ao
defender, com firmeza, os interesses nacionais do Brasil, tanto em Cancun
quanto em Port of Spain, entrou em rota de colisão com a diretrizes da política
exterior de George W. Bush. Não foi sem
razão, portanto, que a revista americana Newsweek, na semana da reunião de Miami,
circulou com o retrato de Lula da Silva na capa e o título: “The Two Faces of Lula: Wall Street Loves
Him. Washington Loathes Him”[52]. St.
Leon (Baden-Württemberg, Alemanha), Maio de 2004. *
Luiz Alberto Moniz Bandeira é cientista político, professor titular de História
da Política Exterior do Brasil na Universidade de Brasília (aposentado) e autor
de mais de 20 obras, entre as quais Brasil, Argentina e Estados
Unidos:conflito e integração na América do Sul(Da Tríplice Aliança ao Mercosul),
De Marti a Fidel: a Revolução Cubana e a América Latina, e Relações
Brasil-EUA no contexto da globalização, cujo vol. I é Presença dos
Estados Unidos no Brasil e o vol. II, Brasil-Estados Unidos: a
rivalidade emergente. [1] Cardoso, Fernando Henrique - “O Brasil e Clinton”,
in Zero Hora, porto Alegre, 28/2/1993, reproduzido in Ministério das Relações
Exteriores - Política Externa em tempos de Mudança - A Gestão do Ministro
Fernando Henrique Cardoso no Itamaraty, Fundação Alexandre de Gusmão, Brasília,
1994, p. 249. [2] Fonte : Banco Central do Brasil,
Secretaria de Comércio Exterior (SECEX)
e Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior (FUNCEX ). [3] Gazeta Mercantil,
11/12/2001 [4]Mediante a cobrança de um “imposto”, pago pelos
traficantes em territórios controlados pelas FARC e pelo ELN, os objetivos
políticos da guerrilha entreteceram-se com os interesses do narcotráfico. [5] Discurso do Senhor Presidente da República,
Fernando Henrique Cardoso, na abertura da III Reunião de Cúpula das Américas -
Québec, Canadá, 20 de Abril de 2001. [6] O TIAR, também conhecido como Tratado do Rio
de Janeiro, foi firmado em 1947, no
início da Guerra Fria. [7] Discurso do Ministro de
Estado das Relações Exteriores do Brasil, Celso Lafer, na XXIV Reunião de
Consulta dos Ministros das Relações Exteriores da Organização dos Estados
Americanos para servir de órgão de consulta para a aplicação do Tratado
Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR). Washington, 21 de Setembro de 2001. [8] Carta de Celso Lafer ao Autor, São Paulo,
28/7/2003. [9] Entrevista do ex-presidente Fernando Henrique
Cardoso, em Washington, ao Autor, por telefone, em 20/1/2004. [10] Versión estenográfica de
las palabras del Presidente Vicente Fox Quesada, durante la Sesión del Consejo
Permanente de la Organización de Estados Americanos a la que asistió como
invitado de honor, realizada esta mañana en el Salón de las Américas de la sede
de la OEA, en Washington - Sesión del Consejo Permanente de la Organización de
Estados Americanos - 07/09/2001. [11] Ibid. Em 6 de Setembro de
2002, um ano após o discurso do presidente Vicente Fox, o México anunciou haver
depositado o instrumento de denúncia do TIAR ante a Secretaria Geral da OEA. [12] Discurso do presidente da
República, Fernando Henrique Cardoso, em sessão solene na Assembléia Nacional
da República da França. 30 de Outubro de 2001. [13] Remarks by President Bush
and President Cardoso of Brazil in Photo Opportunity - March 30, 2001
- 2:15 P.M.
EST - 2:23 P.M. EST - The Oval Office – The White – Presidente George W. Bush - For
Immediate Release [14] Folha de
S.Paulo,
S. Paulo, 26/07/2002 [15] O Estado de São
Paulo, S.
Paulo, 13/08/2002. [16] Estudo da
Competitividade de Cadeias Integradas no Brasil: Impacto das Zonas de Livre
Comércio. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 11/12/2002. [17] Gazeta Mercantil, São Paulo, 25/10/2001. [18] Folha de S. Paulo,
São Paulo, 24/09/2002. [19] Discurso de Lula da Silva no Congresso
Nacional, 1/01/2003, ibid., p. 41 [20] Pesquisa realizada pela revista
Time, entre seus leitores, indicara que 67.4 % consideravam os Estados Unidos a
maior ameaça à paz mundial, contra apenas 21%, que apontavam o Iraque e 11.6% a
Coréia do Norte. “The Biggest Threat To Peace
- Which country really poses the greatest danger to world peace in 2003? Time
asks for
readers' views”. Time
(Europe) 09/01/2003. [21] Freire, Felipe - “Lula
critica Bush e diz que norte-americano desrespeitou a ONU”, Folha de São
Paulo, 18/03/2003. [22]Amorim, Celso - "A ALCA
possível". Folha de São Paulo, São
Paulo, 8/7/2003 [23] Ibid. [24] Cervo, Amado Luiz - “As lições de Cancun”' - Especial para a Agência Brasil. [25] Becker, Elizabeth - Western Farmers Fear Third-World Challenge to Subsidies. The New York Times, 9/09/2003.
Edition - Final , Section A , Page 1 , Column 2. [26] Ibid. [27] Rossi, Clóvis – “Estados Unidos fazem ameaças pela ALCA” - Folha de S.Paulo, 4/10/2003. [28] Oliveira, Eliane–
“Negociador brasileiro diz que Alca pode não sair do papel”. O Globo,
21/10/2003. [29] “Trata-se de pedido de
medida liminar formulado em sede de Ação Cautelar Inominada atentada pelo
Ministério Público Federal, em desfavor da União Federal, no intuito de que
seja determinado à Requerida que faça gestões junto às autoridades
norte-americanas para excluir os brasileiros da obrigatoriedade de serem
fotografados e de deixarem suas impressões digitais ao entrarem e deixarem os
Estados Unidos da América — Estados Unidos, bem como que seja exigido dos
nacionais norte-americanos, quando entrarem neste país, o mesmo que se está a
exigir dos brasileiros que para lá se dirigem, tudo sob o fundamento de que
cabe ao Brasil zelar pela aplicação dos princípios constitucionais da dignidade
da pessoa humana e da reciprocidade nas suas relações internacionais”. Revista
Consultor Jurídico, 30 de Dezembro de 2003. [30] Rossi, Clóvis - “Governo Bush enxerga em
Amorim alvo ‘ideológico’”, Folha de
São Paulo, 19/11/2003 [31] “Dá para ser em 2004 -O ministro das Relações Exteriores diz que é
possível um acordo sobre [32] Ibid. [33] Clarín, Bs. Aires,
7/02/2004. [34] La Nación, 7/02/2004 [35] “Dá para ser
em 2004 -O ministro das Relações Exteriores diz que é possível um acordo sobre [36] Rossi, Clóvis - “Reunião de
Puebla termina em impasse e deve ser retomada em março para tentar acordo
mínimo”. Folha de São Paulo,
8/02/2004. Sotero, Paulo - Estados Unidos acusam Mercosul por
fracasso em Puebla. O Estado de São
Paulo, 8/02/2004. [37] Apenas seis países
dominavam a tecnologia de ultra-centrifugação: Rússia, China, Japão, e um
consórcio europeu (Urenco) formado por Holanda, Alemanha e Inglaterra –
consórcio este que abastecia as usinas Angra I e Angra II. Em verdade, o
Brasil, desde 1987/88, já dominava o processo de enriquecimento de urânio, por
meio da ultra-centrifugação, tecnologia transferida da Alemanha através dos
cientistas e técnicos brasileiros, que lá foram treinar, de conformidade com o
Protocolo Industrial, adendo ao Acordo Nuclear Brasil-Alemanha, firmado ao
tempo do governo do presidente Ernesto Geisel. [38] A produção de combustível é
a etapa mais importante no domínio da tecnologia nuclear. Para obtê-lo, as
usinas de enriquecimento de urânio utilizam a técnica da difusão gasosa ou da
ultra-centrifugação. Ao negociar o acordo com a Alemanha, nos anos 70, o Brasil
tentou garantir a transferência da tecnologia de ultra-centrifugação, mas a
Urenco e os Estados Unidos se opuseram. O Brasil, então, aceitou a alternativa
da tecnologia jet-nozzle,
constante oficialmente do Acordo Nuclear com a Alemanha. Em 1978, o almirante Othon L. P. da Silva propôs e o
Ministério da Marinha aceitou desenvolver ultra-centrífugas para enriquecimento
do urânio existente ao Brasil e a a primeira operação realizou-se quatro anos
mais tarde, com ultra-centrífuga integralmente idealizada, projetada e
construída no Brasil. Em 1991, entrou em operação um módulo de cerca de 500
ultra-centrífugas, com capacidade para produzir 280 quilos/ano de urânio com
enriquecimento inferior de 5%. Esse teor era superior ao necessário para o
combustível da usinas nucleares de Angra dos Reis e atendia às necessidades de
um reator naval, em desenvolvimento, o qual utilizaria cerca de seis toneladas
de urânio a 5% e permitiria a construção de um submarino nuclear, a operar em um prazo de dez anos. A propulsão
nuclear não era classificada pela AIEA uma aplicação bélica. Nos anos 80, foi
construído o primeiro módulo da Usina Experimental em Aramar, São Paulo, e,
durante o governo do presidente José
Sarney, o Brasil uniu-se à Argentina e criou uma agência binacional para fazer
inspeções nos padrões da AIEA. Depois, Collor de Mello incluiu a AIEA no
acordo, permitindo-lhe o controle direto do urânio enriquecido produzido —
salvaguardados segredos comerciais e tecnológicos. [39] Slevin, Peter.
“Brazil shielding uranium facility”. The Washington Post, 4/04/2004. [40] Ibid. [41] “Brasil y la política nuclear”. La Nación,
Buenos Aires, 7/04/2004 [42] Ibid. [43] Silva, Othon L. P. da “Washington não quer a Usina de Resende”. O
Globo, Rio de
Janeiro 10/03/2004. [44] Ibid. [45] Committee Holds Hearing to Review Agricultural Trade
Negotiations– News from the House Agriculture Committee. U.S. House of
Representatives – Committee on Agriculture. Bob Goodlatte, Chairman.
http://agriculture.house.gov/press/108/pr040428.htm [46] Rohter, Larry. “Brazilian Leader's Tippling Becomes National
Concern”. The New York Times, 9/05/2004.
[47] Ibid. [48] Kramer, Dora. “Reação excede a carência de
fatos”. Jornal do Brasil, Rio
de Janeiro, 11/05/2004. [49] Quadros não renunciou à Presidência
porque tivesse o hábito de consumir
bebidas alcoólicas e sim porque
pretendeu dar um golpe, criando um impasse institucional, para obter a soma
dos poderes legislativos. Ele
Quadro pretendera constituir-se como alternativa para a junta militar que ele próprio sugerira, para evitar a investidura
no cargo do vice-presidente João Goulart. Vide Moniz Bandeira, 1961, p. 11. Moniz Bandeira, 2001, pp. 12/13 [50] “Echan de Brasil a un
periodista de EUA”. La Nación,
Buenos Aires, 12/05/2004. [51] “The
CIA role in the US propaganda programme is determined by the official division
of propaganda into three general categories: white, grey and black. White
propaganda is that which is openly acknowledged as coming from the US
government, e.g., from the US Information Agency (USIA); grey propaganda is attributed
to people or organization who do not acknowledge the US government as source of
their material and who produce the
material as if it where their own; black propaganda is unattributed material,
or it is attributed to a non-existent source, or it is false material
attributed to real source. The CIA is the only US government agency authorized
to engage in back propaganda operation, but it shares the responsibility for
grey propaganda with other agencies such as USIA. (…) The vehicles for grey and
black propaganda may be unaware of their CIA or US government sponsorship. (…)
Thus editorialists, politicians, businessmen and others may produce propaganda,
even for money, without necessarily knowing who their masters in the case are”. Agee, 1975, pp. 70/71. [52] Newsweek, November 24, 2003. |