|
11 de Setembro - Cinco anos Luiz Alberto Moniz Bandeira Octubre
2006 Eleito
pela União Brasileira de Escritores o Intelectual do Ano, em 2005, o cientista
político e escritor baiano Luiz Alberto Moniz Bandeira é um crítico ácido da
política externa americana. Em Formação do Império Americano, ele adverte que,
mais dia, menos dia, o sonho americano vai virar pesadelo. “A bolha um dia terá
de estourar”, prevê o vencedor do Troféu Juca Pato, da Alemanha, de onde
conversou com o Jornal do Commercio, por telefone e por e-mail.
JORNAL DO COMMERCIO -Em seu livro Formação do Império Americano, o senhor
cita a previsão de dois senadores norte-americanos a respeito do domínio dos
Estados Unidos sobre o mundo por, pelo menos, 25 anos. Esta
"profecia" vai se cumprir? MONIZ BANDEIRA – Não se trata propriamente de uma profecia, mas de um
cálculo. É claro que os Estados Unidos já não são mais hoje uma estrela de
primeira grandeza, como no tempo da Guerra Fria, em que se confrontava com a
União Soviética e congregava todos os países do Ocidente e outros sob sua
liderança. Hoje as áreas de contestação à sua hegemonia estão a aparecer em
todos os continentes e os Estados Unidos não se mostram capacitados a responder
aos desafios com que se defrontam. Na América Latina, o anti-americanismo
cresce. A Venezuela está em confronto com os Estados Unidos, que não
conseguiram impor a ALCA, em virtude da oposição do Brasil e da Argentina. A
eleição de Evo Morales na Bolívia comprova essa tendência, que também se
manifesta no Equador e no Peru. E o Plano Colômbia não conseguiu estabelecer a
paz no país, onde as Farc dominam cerca de 40% do território. Foi outro
fracasso. A Coréia do Norte e o Irã são outros focos de contestação e que não
se curvam às pressões e ameaças dos Estados Unidos. A invasão do Afeganistão e
do Iraque foi outro fiasco. Os Estados Unidos não venceram a guerra pela
simples razão de que não conseguem estabelecer a paz. A luta continua nos dois
países. E Israel, que serviu aos propósitos dos Estados Unidos ao atacar o
Hezbollah no Líbano, fracassou também no seu objetivo. Não destruiu o Hezbollah
e perdeu sua autoridade moral, em virtude da fúria devastadora de seus ataques,
dos bombardeios indiscriminados, matando civis e destruindo a infra-estrutura
do Líbano.
MONIZ BANDEIRA - Não posso dizer com os dias contados. Mas o fato é que
ela se esgarça, perde força cada vez mais, em decorrência não apenas de fatores
externos, mas também de fatores internos. É lógico que o terrorismo não
constitui um fator de coesão, como o foi o comunismo, representado pela União
Soviética, o Bloco Socialista e partidos comunistas em todos os países. O
terrorismo é um método de luta que os Estados Unidos, inclusive, sempre usaram,
como, por exemplo contra Cuba, e usam. E, do ponto de vista econômico, os
Estados Unidos continuam a emitir dólares sem lastro para comprar energia e
manufaturas e os países que lhes vendem usam os mesmo dólares sem lastro para
comprar bônus do Tesouro americano, financiando assim o déficit da conta
corrente do balanço de pagamentos, que no último mês ascendeu a mais de US$ 900
bilhões. Ao mesmo tempo, apesar da desvalorização do dólar, os Estados Unidos
não conseguem reduzir seu déficit comercial, que conflui com o déficit fiscal e
entram em um círculo vicioso. O enfraquecimento do dólar produz a elevação do
preço do petróleo, do qual os Estados Unidos importam metade do seu consumo
diário, bem como de outras matérias-primas e bens de que necessitam, o que não
permite uma redução substancial do déficit comercial. Por outro lado, o
engajamento nas guerras do Iraque e Afeganistão e as necessidades militares em
todas as regiões do mundo não lhe permitem cortar drasticamente o déficit
fiscal. Os Estados Unidos possuem hoje uma economia de guerra e sem guerras não
podem sustentar o seu funcionamento. Daí que necessitam consumir suas bombas e
outros armamentos, em guerras diretas ou através de Estados-clientes, como
Israel, de modo que possam fazer novas encomendas e manter o complexo
industrial-militar, nível de emprego etc. Como conseqüência, o déficit fiscal
não pode ser reduzido e tende a aumentar. O cenário que o professor Paul
Krugman e o financista George Soros vislumbram, assim como o Asian Development
Bank, é o colapso do dólar, algo como o que sucedeu com a Argentina, talvez
menos intenso, mas que abalará toda a economia mundial. Alguns economistas
entendem que o dólar está sobrevalorizado e pode sofrer uma queda brutal de 15%
a 40%. O que ainda afasta essa possibilidade, mas não a elimina, é o fato de
ser o dólar a moeda internacional de reserva. Mas não se deve esquecer que a
maior parte do petróleo mundial é comercializada em dólar e o colapso do dólar
sem dúvida acarretará uma enorme alta no preço do petróleo, o que também poderá
ocorrer se o Irã for atacado ou os Estados Unidos tentarem desestabilizar o
governo presidente Hugo Chávez na Venezuela. Daí porque há rumor de que certos
contratos de petróleo tendem a passar para o euro o que acentuaria depreciação mais
rápida do dólar. Naturalmente, que um colapso da economia americana, afetará
gravemente todos os países do mundo e provocará mudanças radicais no panorama
internacional. De qualquer modo, mesmo que não ocorra a curto ou a médio prazo,
o colapso, ou que não ocorra, o fato é que se prevê que até 2030 a China vai
superar os Estados Unidos e a tendência do mundo é para a multipolaridade. O
Brasil, se construir a Comunidade Sul-Americana de Nações, pode constituir
outro pólo, ao lado da União Européia, Rússia, Índia, Estados Unidos e China.
JC - Que países poderão fazer frente à atual potência hegemônica?
MONIZ BANDEIRA – A hegemonia americana é atualmente um fato. Sua economia
é da ordem de US$ 12,36 trilhões, mas sua participação no PIB mundial está a
decair, superada pelo conjunto das economias da China, Índia, Brasil e Rússia.
Os EUA, porém, ocuparam militarmente alguns territórios da extinta União
Soviética, e dos Estados que integravam o Bloco Socialista. A estratégia da
ocupação desses territórios pelos EUA no Báltico, depois a Europa Central, a
Ucrânia e a Bielorrússia, até os Bálcãs, e culminou na Ásia Central, com a
invasão do Afeganistão, e em no Oriente Médio, com a invasão do Iraque. As
bases militares americanas estão espalhadas por todas as regiões. Conforme
salientou o professor José Luís Fiori, elas controlam quase todo o
"Rimland", considerada por Nicholas Spykman a área geopolítica mais
importante do mundo para o exercício do poder global e os EUA já construíram um
"cinturão sanitário" separando a Alemanha da Rússia, e essa da China,
a evidenciar que estes países já são, no século 21 considerados e tratados como
os verdadeiros concorrentes dos EUA. A União Européia continua aliada dos EUA,
mas a fratura já foi exposta pela guerra no Iraque. E ela somente poderá
assumir um papel mais ativo e independente, quando construir sua própria força
militar, separada da OTAN.
JC - As fragilidades da economia americana são o seu calcanhar de
Aquiles?
MONIZ BANDEIRA – Os EUA são um império altamente dependente. Dependem de
petróleo e gás e de capitais para financiar a conta corrente do seu balanço de
pagamentos, o que só têm conseguido, artificialmente, mediante a emissão de
dólares sem lastro. Seu consumo diário de petróleo era de 20,03 milhões de
barris em 2003, mas tinha de importar mais da metade, cerca de 13,15 milhões de
barris. Se houver qualquer ataque contra o Irã e/ou a Venezuela, o preço do
petróleo pode disparar, saltar para US$ 200 ou mais. E acontecerá com os EUA? O
maior adversário não é, portanto, nenhum país nem o terrorismo islâmico, mas a
própria fragilidade de sua economia, em que os déficits-gêmeos não poderão ser
sustentados indefinidamente. A bolha um dia terá de estourar. A recessão pode
estar começando. Mas, nos EUA se aguça o problema social. Nos Estados Unidos,
com uma população da ordem de 298,444,215 (Junho de 2006), há cerca de 12%
vivendo abaixo da linha de pobreza. O desastre de Louisiana, em virtude de
furacão Katrina, demonstrou-o o estado miserável em que vive grande parte da população
americana. |