Itamaraty não é
antiamericano
(Samuel Pinheiro
Guimaraes)
Eliane Cantanhêde
Abril 2007
Para embaixador, política externa é só
"pragmática"
Secretário-geral do Itamaraty diz não haver ideologia no
trabalho do ministério e nega antiamericanismo no governo Lula, mas manda
recados sutis aos EUA.
Depois de atravessar os quatro anos do primeiro governo Lula
falando muito para dentro do Itamaraty e pouco para fora, o embaixador Samuel
Pinheiro Guimarães deu uma rara entrevista em que nega antiamericanismo no
governo e classifica a política externa de "pragmática e não
ideológica". Não deixou, porém, de mandar recados sutis aos EUA. "Um
mundo melhor", segundo ele, "será aquele em que as promessas de
desarmamento se realizem, os preceitos do Direito Internacional sejam
obedecidos pelas grandes potências, as diferenças econômicas entre os Estados
se reduzam e o meio ambiente seja preservado". Por exigência dele, as
perguntas foram feitas por escrito e respondidas por e-mail. Segue a íntegra da
entrevista.
FOLHA - O ex-embaixador em Washington Roberto Abdenur
declarou que há "um substrato ideológico vagamente anticapitalista,
antiglobalização, antiamericano, totalmente superado" na política externa
brasileira. O sr. concorda?
SAMUEL PINHEIRO GUIMARÃES - A política externa do presidente
Lula, conduzida pelo ministro Celso Amorim, é pragmática e não ideológica; é a
favor do trabalho sem ser contra o capital; compreende que a globalização
apresenta oportunidades mas também riscos para os países subdesenvolvidos; é a
favor do Brasil e não contra qualquer país. Como o próprio presidente e o
ministro não se cansam de repetir, a política externa desperta o interesse e
desfruta do respeito de todos os países, ricos e pobres; do Ocidente e do
Oriente; da América do Sul e do Norte, o que se reflete no grande número de
presidentes, primeiros-ministros, chanceleres, autoridades e empresários que
vêm ao Brasil e desejam nossa cooperação política, econômica e social.
FOLHA - Os críticos da política externa afirmam que o Brasil
tem uma participação há anos estacionada em 1,4% da economia norte-americana,
perdendo milhões de dólares em negócios por conta de um suposto
antiamericanismo. Como é possível menosprezar o principal mercado do mundo?
PINHEIRO GUIMARÃES - O aumento da presença da China no
mercado americano fez com que, no período de 1999 a 2006, nas importações
americanas, a participação do Canadá caísse de 19% para 16,9%; a do Japão, de
12,8% para 7,9%; a da Alemanha, de 5,3% para 4,9%; a da França, de 2,5% para
2,0%. Ao contrário, a participação do Brasil cresceu de 1,1% para 1,4%,
refletindo o aumento de nossas exportações de US$ 10 bilhões para US$ 24
bilhões. São as empresas brasileiras que exportam: elas não menosprezaram o
mercado americano, nosso principal comprador, e tiveram todo o apoio do governo
brasileiro em seu esforço.
FOLHA - O sr. é uma espécie de símbolo do suposto
antiamericanismo, inclusive por ser ferrenho adversário da ALCA. Convém ao
governo brasileiro mantê-lo no segundo cargo na hierarquia do Itamaraty? O
objetivo é justamente marcar posição?
PINHEIRO GUIMARÃES - O cargo de secretário-geral das
Relações Exteriores é de livre nomeação do presidente Lula, por indicação do
ministro Celso Amorim. Cabe ao presidente e ao ministro, naturalmente, decidir
sobre o que convém.
FOLHA
- A ALCA acabou, e o chanceler Amorim dizia que o importante era a OMC. Mas as
negociações na OMC também empacaram. Onde o Brasil está errando?
PINHEIRO GUIMARÃES - As negociações na OMC estão em pleno
andamento e há grandes expectativas. O Brasil tem tido papel central nessas
negociações na liderança do G20 [grupo de 20 países em desenvolvimento liderado
por Brasil e Índia] e em entendimentos com os interlocutores dos Estados Unidos
e da União Européia. As perspectivas de uma conclusão positiva para o Brasil
são maiores do que em qualquer outro momento.
FOLHA - A adesão da Venezuela ao MERCOSUL tem sido duramente
criticada, pois seria uma forma de transformar o Bloco em uma ponta-de-lança
contra Washington, ou pelo menos num palanque para o presidente Hugo Chávez
atacar Bush. O bônus da adesão compensa o ônus?
PINHEIRO GUIMARÃES - O comércio entre o Brasil e a Venezuela
passou de US$ 880 milhões em 2003 para US$ 4,1 bilhões em 2006. Empresas
brasileiras fazem grandes investimentos e constroem hidrelétricas, linhas de
metrô, pontes, represas e sistemas de irrigação na Venezuela. Todos os membros
do MERCOSUL estão de acordo quanto à adesão da Venezuela. O MERCOSUL é uma
união aduaneira e não um Bloco político de oposição a qualquer outro país e
muito menos aos EUA, que, aliás, percebem isto perfeitamente.
FOLHA - Pelo menos na retórica, Chávez está ganhando aliados
na Região, como os presidentes Evo Morales, da Bolívia, e Rafael Corrêa, do
Equador. É um novo pólo de poder?
PINHEIRO GUIMARÃES - Cada país da América do Sul tem o
direito de cooperar com os demais países sem que isto signifique a formação de
pólos de poder. Qualquer pretensão hegemônica de qualquer país encontra grande
resistência dos demais, e a forma natural de influência é o exemplo, o que
supõe relações de parceria, como as que o Brasil tem desenvolvido com cada país
da América do Sul, com excelentes resultados.
FOLHA - De outro lado, o governo Bush praticamente escolheu
o Irã como novo alvo, digamos, das preocupações norte-americanas. Esse será um
tema do encontro Lula-Bush em 9 de Março? O que o Brasil tem a ver com isso?
PINHEIRO GUIMARÃES - A agenda do encontro dos presidentes
ainda não está definida. O Brasil, que tem a sexta maior reserva de urânio do
mundo, domina a tecnologia de enriquecimento de urânio e tem uma demanda
interna importante por energia, defende o direito de todos os países de
desenvolver a tecnologia nuclear para fins pacíficos, desde que respeitados
fielmente os compromissos internacionais. Nossa posição na AIEA se pauta por
este princípio e pela preferência pelo diálogo como forma de solucionar
impasses.
FOLHA - Há duas versões no governo e no Itamaraty: uma de
que o sr. é decisivo para a formulação da política externa; outra de que, na
verdade, é o grande executivo que está "botando a casa em ordem".
Qual a verdadeira?
PINHEIRO GUIMARÃES - O presidente formula e dirige a
política externa com o auxílio do ministro. Ao secretário-geral cabem as
tarefas definidas pelo decreto 5979/2006, que são assessorar o ministro na
execução da política e na orientação da secretaria de Estado e das missões no
exterior.
FOLHA - Por que o sr. participou dos primeiros palanques do
presidente Lula na campanha do segundo mandato, mas de repente sumiu?
PINHEIRO GUIMARÃES - Todo cidadão brasileiro tem o direito,
e até o dever, de participar da vida política de seu país.
FOLHA - E por que o sr. decidiu impor livros de sua própria
preferência para os diplomatas que estejam sendo promovidos ou assumindo
missões no exterior? Qual o viés desses livros? E porque o ministro determinou
o fim da prática?
PINHEIRO GUIMARÃES - Gilberto Freire disse: "O livro do
sr. Álvaro Lins sobre o Barão do Rio Branco é um destes livros que desde as
primeiras páginas nos dão o gosto raro de contato com uma obra
monumental". Celso Furtado, sobre Bielschowsky, disse: "Considero
"Pensamento Econômico Brasileiro" o mais importante trabalho já
realizado para caracterizar e apreciar o considerável esforço produzido entre
nós a fim de resgatar o Brasil das armadilhas do pensamento ortodoxo".
Roberto Campos, ex-embaixador em Washington, sobre Bielschowsky, disse:
"Erudito, objetivo e correto. "Pensamento Econômico Brasileiro"
é referência indispensável, por sua análise balanceada e percuciente das
controvérsias ideológicas da época". Rubens Ricupero, ex-embaixador em
Washington, sobre o livro de Moniz Bandeira disse: "É uma obra original,
uma autêntica história conjunta das relações diplomáticas do Brasil e da Argentina
durante 133 anos. Tem razão, assim, o historiador americano Frank Mc Cann, ao
apresentá-la como "leitura indispensável". Não conheço, nem creio que
exista, outro trabalho desse fôlego, cerca de 680 páginas, que cubra de modo
tão completo e analítico o período contemporâneo". Sobre "Chutando a
Escada", de Ha-Joon Chang, professor de Cambridge, na Inglaterra, Charles
Kindleberger, um dos maiores economistas americanos, disse: "uma crítica
estimulante dos sermões dos economistas da corrente dominante dirigidos aos
países em desenvolvimento." O aperfeiçoamento dos diplomatas é uma
necessidade constante. A leitura de três ou quatro livros não poderia jamais
modificar o modo de pensar de qualquer diplomata, mas pode trazer informações
importantes. O ministro Celso Amorim considerou que a celeuma provocada não
justificava a energia despendida.
FOLHA - O que se deve esperar de um bom diplomata? E de um
diplomata brasileiro no mundo atual?
PINHEIRO GUIMARÃES - De um bom diplomata se espera que
defenda e promova os interesses de seu país. De um diplomata brasileiro se
espera que defenda e promova os interesses do Brasil, de acordo com os
objetivos da política externa definidos no Art. 4º da Constituição Federal, em
especial a independência nacional, a não-intervenção e a autodeterminação, e
com a orientação do Presidente da República.
FOLHA - Como o Brasil pode interferir para que o mundo seja
melhor? Aliás, o que seria, a seu ver, um "mundo melhor"?
PINHEIRO GUIMARÃES - O Brasil pode contribuir para a
preservação da paz, para o desenvolvimento econômico e social, para a
construção da democracia na esfera internacional, de tal forma que cada
sociedade, observados os preceitos fundamentais de autodeterminação e
não-intervenção inscritos na Carta da ONU, possa prosseguir em sua evolução
histórica.
Um mundo melhor será aquele em que as promessas de
desarmamento se realizem; em que os preceitos do Direito Internacional sejam
obedecidos pelas grandes potências; em que as diferenças econômicas entre os
Estados se reduzam; em que o meio ambiente seja preservado; em que os direitos
humanos, políticos, econômicos e sociais sejam respeitados; em que a pobreza e
a miséria sejam abolidas; em que cada indivíduo possa desenvolver todo o seu
potencial. Com esses objetivos, o presidente Lula e o ministro Celso Amorim têm
defendido a democratização das instâncias internacionais de decisão, como o
Conselho de Segurança da ONU e o G-8.