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Nicholas Spykman e a América Latina José Luís Fiori Diciembre 2007 O principal “geoestrategista”
norte-americano do século XX, nasceu
em Amsterdam, em 1893, e morreu nos Estados
Unidos, em 1943. Era de origem
holandesa, mas fez seus estudos superiores na Universidade da Califórnia, e foi professor da Universidade de Yale, onde dirigiu o seu Instituto de Estudos Internacionais, entre 1935 e 1940. Morreu
ainda jovem, com 49 anos, e deixou apenas dois livros sobre a política
externa norte-americana: o primeiro, America’s Strategy in
World Politics, publicado em
1942, e o segundo, The Geography
of the Peace,
publicado um ano depois da sua morte, em
1944. Dois livros que se transformaram na pedra angular do pensamento
estratégico norte-americano de toda a segunda metade
do século XX, e do início
do século XXI. Nicholas Spykman não foi um
cientista, foi um “geopolítico” e a geopolítica não
é uma ciência, é apenas uma disciplina que estuda a relação entre o espaço e a expansão do poder, antecipando e
racionalizando as decisões estratégicas dos países
que exercem poder fora de suas fronteiras nacionais. É por isto, aliás, que só existe produção geopolítica relevante, nas
chamadas “grandes potências”,
e cada uma delas tem sua própria
“escola geopolítica”, com suas preocupações, objetivos e racionalizações específicas. Como no caso clássico da “escola geopolítica alemã”, de Friederich Ratzel e Karl Haushofer,
com a sua teoria do “espaço vital” e do
“pan-germanismo”, que serviu de ponto de partida para
explicar a “necessidade geográfica” de expansão alemã, na direção da Europa Central, e
da Rússia/União Soviética. Ou também, como no caso da “escola geopolítica inglesa” de Halford
Mackinder, com sua famosa tese de que “quem
controla o “coração do mundo”(
situado mais ou menos entre
Berlim e Moscou), controla também a “ilha mundial” (a Eurásia), e quem controla a “ilha mundial” controla o mundo”. Teoria
que serviu de base para justificar a política externa
britânica durante todo o século
XX, e seu permanente veto e bloqueio
de qualquer aliança entre a
Alemanha e a Rússia/União Soviética. Dentro desta
tradição, não há dúvida que Nicholas
Spykman foi o pai da “escola geopolítica
norte-americana”. Ele partiu das idéias
de Halford Mackinder, mas modificou sua tese central: para Spykman, quem tem
o poder mundial não é quem
controla diretamente o “coração
do mundo”, é quem é capaz de cercá-lo,
como os Estados Unidos fizeram durante toda a Guerra Fria, e seguem fazendo até os nossos dias. Spykman escreveu
seus dois livros antes da entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, e por isto
chama atenção a sua capacidade genial de prever o
que aconteceria depois da
guerra, tanto quanto a semelhança
entre suas propostas
estratégicas e a política externa que os Estados Unidos adotaram
efetivamente, durante a segunda metade
do século XX, na Europa, Ásia e América. Em 1942, Nicholas
Spykman defendeu a necessidade de uma aliança estratégica e de uma hegemonia conjunta, anglo-americana, para “gerir o mundo” depois do fim da Guerra, como de fato ocorreu, E com relação à América, o que foi que previu e propôs Nicholas Spykman? Sobre este
ponto, chama a atenção o
grande espaço que ele dedica na
sua obra à discussão da
América Latina, e em particular, à “luta pela América do Sul”. Ele
parte de uma separação
radical, entre a América dos anglo-saxões e a América
dos latinos. Nas suas palavras “as terras situadas ao sul do Rio
Grande constituem um mundo
diferente do Canadá e dos Estados Unidos. E é uma coisa desafortunada que as partes de fala
inglesa e latina do continente tenham que ser chamadas igualmente de América, evocando uma similitude entre as duas que de fato não existe”(p:46). (1) Em seguida, ele propõe
dividir o “mundo latino” Donde, qualquer
ameaça à hegemonia
americana na América Latina deverá
vir do sul, em particular da Argentina, Brasil e Chile, a “Região do ABC”. Nas palavras do próprio Spykman: “para nossos vizinhos ao sul
do Rio Grande, os norte-americanos seremos sempre o “Colosso do Norte”, o
que significa um perigo, no
mundo do poder político. Por isto, os países situados
fora da nossa zona imediata de supremacia, ou seja, os grandes Estados da
América do Sul (Argentina, Brasil e Chile) podem tentar contrabalançar nosso poder através de uma ação comum
ou através do uso de influências de fora do hemisfério” (p:64) E neste caso, conclui: “uma ameaça à hegemonia
americana nesta Região do hemisfério (a Região do ABC) terá que ser respondida através
da guerra”. (p: 62). O mais interessante
é que se estas análises, previsões
e advertências não tivessem feitas por Nicholas Spykman, pareceriam bravata de algum destes populistas latino-americanos,
que inventam inimigos
externos e que se multiplicam como cogumelos, segundo a idiotia
conservadora. (1) Spykman,
N. , “America’s Strategy in World Politics",
Harcourt, Brace and Company, New York,1942 |