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NOTAS
PARA UMA REFLEXÃO SOBRE A INSERÇÃO INTERNACIONAL DO BRASIL E DA AMÉRICA DO SUL,
NA SEGUNDA DÉCADA DO José Luis Fiori Abril 2010 1. Brasil e América do Sul: história e conjuntura i. As guerras e disputas políticas e territoriais, durante a
formação dos Estados sul-americanos, no século XIX, não produziram as mesmas
conseqüências sistêmicas - políticas e econômicas - das guerras de centralização
do poder e de formação dos Estados e das economias nacionais européias. E mesmo
no século XX, não se consolidou no continente sul-americano, um sistema integrado
e competitivo, de Estados e economias nacionais, como ocorreu na Ásia, depois
da sua descolonização. Por isto, nunca existiu na América do Sul uma disputa
hegemônica, entre os seus próprios Estados e economias nacionais, e nenhum dos
seus Estados jamais disputou a hegemonia continental com as grandes potências. De fato, desde sua independência, o continente sul-americano
viveu sob a tutela anglo-saxônica: primeiro, da Grã Bretanha, até o fim do
século XIX, e depois, dos Estados Unidos, até o início do século XXI. Como
conseqüência, os Estados latino-americanos nunca ocuparam posição importante
nas grandes disputas geopolíticas do sistema mundial, e funcionaram durante
todo o século XIX, como zona de experimentação do “imperialismo de livre
comércio” da Grã Bretanha. No século XX, e em particular depois da 2ª. Guerra
Mundial, quase todos Estados sul-americanos alinharam sua política externa, com
os Estados Unidos, durante a Guerra Fria, e aderiram com graus diferentes de
sucesso, às políticas econômicas desenvolvimentistas, apoiada pelos Estados
Unidos, até a década de 1970. Depois do fim da Guerra Fria, durante a década de
1990, de novo, a maioria dos governos da Região voltaram a se alinhar ao lado
da política externa e da política econômica preconizada pelos EUA e seu projeto
de “globalização liberal”. ii. No início do século XXI, entretanto, a situação política
do continente mudou, com a vitória - em quase todos os países da América do Sul
– de partidos e coalizões políticas nacionalistas, desenvolvimentistas e
socialistas, que mudaram o rumo político-ideológico do continente, durante a
primeira década do século. No início do período, quase todos os novos governos
de esquerda mantiveram a política macroeconômica ortodoxa dos neoliberais da
década de 90, e só aos poucos foram mudando, em alguns casos, o rumo mais amplo
de sua política econômica, sem conseguir alterar a estrutura e o modelo
tradicional de inserção internacional da economia continental. Assim mesmo, todos estes novos governos se posicionaram
ideologicamente contra o neoliberalismo da década anterior, e mudaram sua
política externa, apoiando a integração político-econômica da América do Sul, e
criticando intervencionismo norte-americano no continente. Este giro político à
esquerda ocorreu de forma simultânea, em quase todo o continente, e coincidiu
com a mudança do governo e da política externa americana, com a nova
administração republicana de George Bush, que engavetou, na prática, o
globalismo econômico liberal, da Administração Clinton, e o seu projeto da
ALCA, para as Américas. Este giro à esquerda coincidiu também com um novo ciclo de
expansão da economia mundial, que se prolongou até 2008, e permitiu a retomada
do crescimento, alto e generalizado, de todas as economias nacionais da Região.
A grande novidade foi a participação da China, que se transformou na grande
compradora das exportações sul-americanas de minérios, energia e grãos. Neste
período também, os altos preços das commodities fortaleceram a capacidade
fiscal dos Estados e ajudaram a financiar várias iniciativas do projeto de
integração da infra-estrutura energética e de transportes do continente. Além
disto, permitiram a acumulação de reservas e a diminuição da fragilidade
externa do continente, aumentando o poder de resistência e negociação da Região. iii. Durante esta primeira década do século, destacou-se
dentro do continente, a rápida mudança da posição política e econômica do
Brasil, que retomou – aos poucos e de forma ainda irregular - a trilha do
crescimento e aumentou sua participação no produto e no comércio dentro e fora
da América do Sul. Ao mesmo tempo, o Brasil assumiu a liderança do processo de
integração do continente e expandiu suas relações comerciais e financeiras com
outras regiões do mundo, projetando sua presença diplomática em várias
instâncias e fóruns multinacionais de negociação, dentro e fora das Nações
Unidas. E hoje o Brasil já tem praticamente assegurada, até o fim da próxima
década, uma posição entre as cinco maiores economias do mundo, quando deverá
ser provavelmente, o maior produtor mundial de alimentos, e um dos maiores
produtores e exportadores mundiais de petróleo, além de seguir controlando a
maior parte dos recursos hídricos e da biodiversidade da Amazônia. Neste movimento duplo, em direção à América do Sul e aos
demais continentes, e zonas de expansão e conflito internacional, o Brasil tem
se apoiado, aliado e competido, a um só tempo, com outros Estados e economias
nacionais que também estão se expandindo rapidamente e reivindicando uma maior
participação nas decisões do núcleo central de poder do sistema mundial, entre
as quais se destacam ,sobretudo, a China e a Índia. iv. Agora bem, depois de quase uma década convergente, a
crise financeira de 2008 provocou uma queda abrupta do crescimento Regional e
uma desaceleração do projeto integração econômica do continente sul-americano.
E quase ao mesmo tempo, ainda na Administração George Bush, os Estados Unidos
abandonaram sua passividade no continente, e decidiram reativar sua IVª Frota
Naval responsável pelo controle marítimo do Atlântico Sul. E logo em seguida,
já na administração democrata do presidente Barak Obama, os Estados Unidos
assinaram o acordo militar com a Colômbia que lhe deu acesso a sete bases
militares dentro do território colombiano, e com isto fragilizou o processo de
integração política, e os planos de defesa conjunta e autônoma do continente. Logo em seguida, os EUA tiveram uma participação ativa na
crise política de Honduras, e unilateral no terremoto que destruiu o Haiti,
demonstrando vontade e decisão de retomar ou reafirmar sua presença e sua
supremaca dentro do “hemisfério ocidental”. Por outro lado, no início de 2010,
o Chile interrompeu a sucessão de vitórias eleitorais da esquerda, e elegeu um
presidente de centro-direita, que reforçará a aliança estratégica com os
Estados Unidos do “eixo anti-bolivariano”, na Região Andina. E com isto, deverá
aumentar as divisões que sempre facilitaram – através da história - a tutela
externa do continente. De qualquer maneira, a configuração completa deste novo
cenário político ainda dependerá das eleições presidenciais no Brasil e
Colômbia, em 2010, e na Argentina e Peru, em 2011. v. Neste momento de incerteza política, uma discussão sobre
a inserção do Brasil e da América do Sul, no cenário internacional, na segunda
década do século XXI, tem que partir de uma definição do que seja uma “inserção
soberana”. Com relação ao que seja uma política externa soberana, nosso ponto de
partida é muito simples: um Estado e um governo que se proponham expandir o seu
poder internacional, inevitavelmente terão que questionar e lutar contra a
distribuição prévia do poder, dentro do próprio sistema. Como condição
preliminar, eles terão que ter sua própria teoria e sua própria leitura dos
fatos, dos conflitos, e das assimetrias e disputas globais, e de cada um dos
“tabuleiros” geopolíticos regionais ao redor do mundo. Para poder estabelecer de forma sustentada e autônoma, os
seus próprios objetivos estratégicos, diferentes das potencias dominantes, e
conseqüentes com sua intenção de mudar a distribuição do poder e da hierarquia
mundial. Por isto, não é possível conceber uma política externa soberana e
inovadora, que não questione e enfrente os consensos éticos e estratégicos das
potencias que controlam o núcleo central do poder mundial. Neste campo, não
estão excluídas as convergências e as alianças táticas, e temporárias, com uma
ou várias das antigas potencias dominantes. Mas toda política externa soberana
e inovadora, sabe que está e estará em permanente competição com estas
potencias, e que terá que assumir as suas divergências, com a visão de mundo,
com os diagnósticos e com as estratégias defendidas por elas, seja no espaço Regional,
seja a escala global. Isto não é uma veleidade irrelevante, nem é o fruto de
uma animosidade ideológica, é uma conseqüência de uma “lei” essencial do
sistema inter-estatal, e de uma determinação que é em grande medida geográfica,
porque o objetivo do “Estado questionador”, é ampliar sempre e cada vez mais, a
sua capacidade de decisão e iniciativa estratégica autônoma, no campo político,
econômico e militar, para poder difundir melhor e aumentar a eficácia de suas
idéias e propostas de mudança do sistema mundial. vi. Do lado oposto, fica mais fácil de definir e identificar
as características essenciais de uma política externa conservadora ou
subalterna. Em primeiro lugar, os conservadores não se propõem mudar a
distribuição do poder internacional, nem questionam a hierarquia do sistema
mundial. Sua reação frente aos desafios colocados pela agenda internacional, é
quase sempre empírica, isolada, e moralista. Os conservadores não têm uma
teoria nem uma visão histórica própria do sistema internacional e dos seus
acontecimentos conjunturais, e são partidários, em geral, de uma política
externa de baixo teor, sem grandes iniciativas estratégicas nacionais, e com
uma alta taxa de submissão aos valores, juízos, e decisões estratégicas das
potencias dominantes. Por isto, consciente ou inconscientemente, os
conservadores delegam a terceiros, uma parte da soberania decisória de sua
política externa, e acabam assumindo, invariavelmente, uma posição subalterna
dentro da política internacional. 2. Um balanço no final da primeira década do século XXI Ao terminar a primeira década do século XXI, entre crise e
guerras, é possível fazer um balanço preliminar da estratégia imperial
americana, que nasceu da crise dos 70 e se aprofundou depois do fim da Guerra
Fria: i. O poder militar americano cresceu de forma contínua e se
projetou sobre todo o mundo, mas a própria dinâmica contraditória da sua
expansão, fortaleceu politicamente e “ressuscitou” militarmente, a Alemanha, a
Rússia e o Japão, e contribuiu para o fortalecimento da China, Índia, Irã,
Turquia, Brasil, países que disputam zonas de influência com os EUA, e
participam da “corrida imperialista” que se explicitou nesta primeira década, e
que deve se intensificar nos próximos anos. Os revezes políticos e militares
dos EUA, na primeira década do século XXI desaceleraram o projeto imperial
americano, mas ele não foi abandonado. Mas apesar disto, estes revezes criaram
novas fraturas e divisões dentro dos EUA. E depois da Guerra do Iraque, está em
curso um realinhamento interno de forças e posições, como ocorreu também na
década de 70, e não é improvável que surja daí uma nova estratégia
internacional. Mas estes processos de realinhamento interno do establishment
americano costumam ser lentos, e os seus resultados finais dependerão ainda da
própria luta interna e da evolução dos conflitos dos EUA com os seus principais
concorrentes nas várias regiões do mundo. Porque apesar dos seus revezes
recentes, e de suas dificuldades econômicas, os EUA seguem sendo o único player
global, que está presente e disputa posições em cada uma, e em todas as regiões
do mundo. De qualquer forma, do nosso ponto de vista, não há
possibilidade que os EUA abdiquem do seu poder, ou renunciem à expandi-lo
permanentemente. Pelo contrário, deverão seguir aumentando sua capacidade
militar em escala geométrica, numa velocidade que aumentará na medida em que se
aproxime a sua ultrapassagem econômica pela China. Qualquer mudança mais
substantiva, nesta correlação de forças, só ocorrerá com o aumento da
capacidade e do poder regional e global das novas potências que estão se
projetando neste início do século XXI. ii. Por outro lado, do ponto de vista econômico, também se
pode dizer que a resposta americana à crise de Bretton Woods acabou se
transformando numa estratégia, que levou à recuperação e à expansão contínua da
economia americana, cada vez mais associada ao crescimento da economia chinesa,
sobretudo a partir de 1990. Este novo eixo dinâmico da economia mundial, por
sua vez, provocou uma mudança estrutural da economia mundial, com o
deslocamento para a Ásia, do seu principal centro de produção e acumulação de
capital, e com o surgimento de uma economia nacional – a chinesa - com um poder
gravitacional, sobre o conjunto da economia capitalista, equivalente ao dos
Estados Unidos. Esta nova configuração estrutural, e sua expansão contínua,
explica o aumento da “pressão competitiva”, dentro da economia mundial, na
primeira década do século XXI. iii. Por isto, do nosso ponto de vista, esta pressão
econômica, somada à competição geopolítica, e à corrida imperialista que está
em curso, são manifestações essenciais, e são ao mesmo tempo o anuncio de que o
“sistema inter-estatal capitalista” está atravessando uma grande “explosão
expansiva”. Nestes momentos, é impossível prever com precisão o futuro. O o
único que se pode dizer, é que são transformações seculares dentro de um mesmo
universo, que seguirá se expandindo, enquanto for constituído e liderado por “Estados-economias
nacionais” capitalistas, complementares e competitivas. iv. Assim mesmo, no horizonte de curto prazo, entretanto, o
“núcleo duro” da competição geopolítica mundial deverá estar composto velos
Estados Unidos, China e Rússia. Três “Estados continentais”, que detém um
quarto da superfície da terra, e mais de um terço da população mundial. Nesta
nova “geopolítica das nações”, a União Européia terá um papel secundário, ao
lado dos Estados Unidos, enquanto não dispuser de um poder unificado, com
capacidade de iniciativa estratégica autônoma. E a Índia, Irã, Brasil, Turquia,
África do Sul, e talvez a Indonésia, deverão aumentar o seu poder Regional, em
escalas diferentes, mas não serão poderes globais, ainda por muito tempo. Na
segunda década do século XXI, a nova “corrida imperialista” provocará um
aumento dos conflitos localizados, entre os principais Estados e economias do
sistema, mas ainda não está no horizonte uma nova “guerra hegemônica”. Por outro lado, do ponto de vista econômico, as novas crises
financeiras que seguirão não deverão interromper o processo em curso de
deslocamento do centro da acumulação capitalista, para a Ásia, e para algumas
outras economias nacionais, dispersas pelo mundo, entre as quais, o Brasil e a
Rússia, e em menor escala, a África do Sul, a Turquia, a Indonésia e o próprio
Irã. Ou seja, no médio prazo, deverá ocorrer uma convergência assintótica,
envolvendo numa mesma competição geopolítica e econômica, quase os mesmos Estados
e economias que deverão alcançar as primeiras posições na hierarquia
internacional do poder e da riqueza mundial, ao lado dos Estados Unidos e da
velha Europa. v. Por último, para avaliar a importância das próximas
crises financeiras e políticas que deverão se manifestar e ocorrer na próxima
década, é importante compreender que: em primeiro lugar, quase todas as grandes
crises do sistema mundial foram provocadas até hoje, pela própria potência
hegemônica; em segundo lugar, que estas crises são provocadas quase sempre,
pela expansão vitoriosa (e não pelo declínio) das potências capazes de
atropelar as regras e instituições que eles mesmos criaram, num momento
anterior, e que depois se transformam num obstáculo no caminho da sua própria
expansão; e em terceiro lugar, que o sucesso econômico e a expansão da potência
líder é sempre uma força e um impulso fundamental para o fortalecimento de
todos os demais Estados e economias que se proponham concorrer ou “substituir”
a potência hegemônica. Mas o que é mais esdrúxulo é que, as crises provocadas
pela “exuberância expansiva” da potência líder, quase sempre afetam, de forma
mais perversa e destrutiva, aos “concorrentes” mais do que ao próprio líder ou
hegemon, que costuma se recuperar de forma mais rápida e poderosa do que os
demais. Seja como for, é dentro deste contexto geopolítico e
econômico, que se pode e deve pensar as alternativas de mais longo prazo, de
inserção internacional soberana da América do Sul e do Brasil, na segunda
década do Século XXI. 3. Brasil: possibilidades e escolhas i. Brasil é - hoje - o segundo player mais importante,
dentro do tabuleiro geopolítico da América do Sul ,e
já tem tido uma importância maior nos desdobramentos político-ideológicos da
América Central e do Caribe. Depois de assumir a liderança militar da missão de
paz das Nações Unidas no Haiti, o Brasil tomou uma posição decidida a favor da
reintegração de Cuba na comunidade americana e tem defendido, em todos os foros
internacionais, o fim do bloqueio econômico norte-americano à Cuba. Ao mesmo
tempo, tem assumido sua influência políitico-ideológica sobre alguns novos
governos de esquerda da América Central, e tomou uma posição rápida e dura
frente ao golpe de estado militar de Honduras, em Junho de 2009, e frente à
crise provocada pelo terremoto do Haiti, no início de 2010. Mas apesar do seu maior ativismo diplomático, o Brasil ainda
não tem capacidade de projetar seu poder afirmativo ou de veto, à Região
centro-americana, nem tem nenhuma disposição de competir ou questionar o poder
americano no seu “mar interior caribenho”. Mais ao sul, entretanto, o Brasil
tem exercido uma política cada vez mais ativa, mesmo quando conviva com uma
desaceleração temporário do processo de integração econômica do continente. Com
a criação da UNASUL, e do Conselho Sulamericano de Defesa, o Brasil se
distanciou e esvaziou o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca e a
Junta Interamericana de Defesa que sempre contaram com o aval norte-americano.
Além disto, nesta últimos dois anos, o Brasil teve uma participação ativa e
pacificadora, nos conflitos entre Equador e Colômbia e entre Colômbia e
Venezuela, na conflito interno da Bolívia, quando se transformou numa ameaça de
guerra civil e de secessão territorial. ii. De qualquer forma, uma coisa é certa: o futuro do
projeto sul-americano dependerá cada vez mais das escolhas brasileiras, e da
forma que o Brasil desenvolva suas relações com os Estados Unidos. Do ponto de
vista econômico, a pressão dos mercados internacionais e as novas descobertas
do petróleo da camada do pré-sal, também estão oferecendo para o Brasil a
possibilidade de se transformar numa economia exportadora de alta intensidade,
uma espécie de “periferia de luxo” dos grandes potências compradoras do mundo,
como foram no seu devido tempo, a Austrália e a Argentina, entre outros. Mas
existe a possibilidade do Brasil escolher um outro caminho que combine seu
potencial exportador, como uma estrutura produtiva industrial associada e
liderada por uma economia mais dinâmica, como é o caso contemporâneo do Canadá,
por exemplo. Além disto, neste momento, o Brasil também dispõe de uma
terceira alternativa, absolutamente nova para o país, e que aponta de certa
maneira, para a reprodução da estrutura produtiva da economia norte-americana:
com uma indústria de alto valor agregado, e uma enorme capacidade de produção e
exportação de alimentos e outras commodities de alta produtividade, incluindo o
petróleo, no caso brasileiro. Por outro lado, no campo político, depois da
hegemonia das idéias neoliberais e privatistas, e de uma coalizão de poder
partidária do “cosmopolitismo subserviente”, no campo internacional, está se
consolidando no Brasil um novo consenso desenvolvimentista, democrático e
popular que transcende cada vez mais as siglas partidárias. As perspectivas
futuras desta nova coalizão, entretanto, dependerão da estratégia internacional
dos próximos governos brasileiros. O Brasil pode se transformar num “aliado estratégico” dos
Estados Unidos, da Grã Bretanha e da França, com direito de acesso à uma parte
de sua tecnologia de ponta, como no caso do Japão ou mesmo de Israel, que
construiu seu arsenal atômico com a ajuda da França. Mas o Brasil também pode
escolher um caminho próprio de afirmação internacional. Mas, se o Brasil quiser
mudar de posição e de estratégia, dentro das “regras” do sistema mundial, terá
que desenvolver um trabalho extremamente complexo de administração contínua das
relações de complementaridade e competição com os Estados Unidos, e com as
outras grandes potências, a partir dos seus próprios interesses econômicos e
geopolíticos. Numa disputa prolongada pela hegemonia da América do Sul, como se
fosse uma “luta oriental” com os Estados Unidos. Caminhando através de uma
trilha muito estreita e durante um tempo que pode se prolongar por várias
décadas. Além isto, para liderar a integração sul-americana no mundo, o Brasil
terá que inventar uma nova forma de expansão econômica e política continental e
mundial, sem “destino manifesto” nem missão missionária, e sem o imperialismo
bélico das duas grandes potências anglo-saxônicas. |