Novas hipóteses econômicas de conflito e a
questão da segurança nacional
Durval de Noronha Goyos
Mayo 2008
Londres – As novas descobertas de reservas de petróleo na Bacia de Santos,
no chamado Campo Carioca, de aproximadamente 33 bilhões de barris, anunciadas
apenas oficiosamente, acrescidas ao potencial adicional existente na plataforma
marítima brasileira, fizeram com que observadores internacionais insuspeitos
colocassem o Brasil como a grande potência energética da próxima década.
De fato, já em 2010, a
produção brasileira de petróleo deverá superar a da República Popular da China
e, com a subseqüente operacionalização dos novos campos, Tupi e Carioca, o país
será um dos maiores produtores mundiais, numa fase em que os preços das
mercadorias energéticas atingiram patamares nunca antes observados. Mais do que
nunca, a prosperidade das nações depende do petróleo.
A História registra muitos conflitos bélicos causados pela busca de fontes de
fornecimento, a partir do Tratado de Versailles de 1919 que, dentre outras
medidas, formatou artificialmente o Oriente Médio, inclusive o Iraque, de modo
a assegurar a provisão de petróleo para a marinha inglesa, que mudava o
combustível de suas naves de guerra.
Por sua vez, num mundo que cada vez mais desconsidera o direito internacional,
de uma maneira muito contundente, a exemplo das recentes aventuras militares no
Iraque, o regime jurídico a respaldar os direitos brasileiros à exploração das
novas reservas está fundado na tênue Convenção das Nações Unidas sobre o
Direito do Mar que, em seu artigo 55 e seguintes, assegura o uso da zona
econômica exclusiva situada até 200 milhas náuticas a contar da costa.
Ora, conforme inúmeras, amplas e abundantes lições do passado, esse direito não
está imune de ser solapado pelo uso unilateral e agressivo da força, ainda que
maquilado para fins de propaganda por ações “para o bem da Humanidade”. Dessa
maneira, a cobiça a nossas reservas de petróleo são uma concreta hipótese de
conflito, para o qual o Brasil deve se preparar.
O cenário torna-se ainda mais preocupante quando se considera que o Brasil tem
cerca de um terço das reservas de água potável do mundo que, segundo a CIA
(Central Intelligence Agency), é a principal hipótese de conflito militar do
século 21. Da água dependem todas as atividades econômicas humanas,
especialmente a agricultura.
No setor agrícola, o Brasil tem mais terras agriculturáveis do que a Rússia, o
Canadá, os EUA, a China, a Índia e a Austrália juntos, com os indispensáveis
recursos aquíferos, para a viabilidade de sua exploração. Através dos anos, e
mesmo hoje, o Brasil tem sofrido ações concertadas de certas potências com o
objetivo de desestabilizar a sua produção agrícola, através de um regime
jurídico multilateral discriminatório, como o GATT (Acordo Geral de Tarifas e
Comércio), dos subsídios ilegais e das barreiras não tarifárias, que distorcem
a atividade econômica e promovem a injustiça numa escala global.
O agronegócio é hoje a fonte da prosperidade brasileira, já que responde por
cerca de um terço do nosso PIB, 40% de nossos empregos, e assegura os
consistentes saldos comerciais brasileiros, já que a balança comercial dos
demais setores é deficitária. No futuro, da agricultura também dependerá grande
parte da prosperidade do Brasil, o que faz a questão para nós um tema de
segurança nacional.
A tais fatores deve ser acrescida a já bastante conhecida questão da Amazônia,
fundamental para o equilíbrio do ecossistema mundial e de há muito objeto da
cobiça de muitos que não souberam preservar suas florestas e não tem o verde em
suas bandeiras.
É
preciso reconhecer-se que, para o cumprimento de sua missão constitucional de
defender o território nacional, as Forças Armadas brasileiras, por falta dos
investimentos adequados, encontram-se amplamente despreparadas para os cenários
de hipóteses de conflito acima elencadas. Diversos governos brasileiros optaram
por gastos públicos em outros setores que os da segurança nacional, após a
redemocratização do país em 1986.
A falta de um poder efetivo de dissuação militar por parte do Brasil poderá
encorajar aventuras militares estrangeiras tendo como alvo a soberania do País.
Assim, se bem que num mundo ideal, que não é o nosso, seria melhor uma
destinação social dos gastos públicos, no triste ambiente em que vivemos em
nosso planeta, a preparação das Forças Armadas brasileiras é uma necessidade
absoluta e urgente.