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Os desafios da política externa e as
vulnerabilidades do Brasil Samuel Pinheiro Guimaraes Julio 2006 O embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, Secretário Geral do
Ministério das Relações Exteriores, apresentou, na fria e chuvosa noite de
sexta-feira, as linhas gerais da política externa do governo brasileiro,
relacionando-as com os desafios internos que o país enfrenta para reverter os
altos índices de desigualdade social e o quadro de vulnerabilidade econômica e
tecnológica. Falando para um público de cerca de cem pessoas, na reitoria da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a convite do mandato do
deputado federal Henrique Fontana (PT-RS), o embaixador defendeu a política
externa do governo Lula das críticas que recebeu nas últimas semanas,
principalmente a partir do episódio da nacionalização das reservas de gás e
petróleo na Bolívia. Segundo ele, a repercussão que se seguiu a esse episódio
no Brasil foi uma questão de política interna, contaminada pelo cenário
eleitoral, e não propriamente de política externa. Para estabelecer as relações entre as políticas externa e
interna, Samuel Pinheiro Guimarães procurou definir aquelas que considera as
principais características do Brasil e do mundo hoje. A grande característica
da sociedade brasileira, segundo ele, são as disparidades sociais. Disparidades
de renda, de gênero, de etnias e entre regiões do país. Lembrou que o Brasil é
hoje o país com maior concentração de renda do mundo, com cerca de 14 milhões
de pessoas convivendo com a fome e mais de 72 milhões em situação de
insegurança alimentar (segundo pesquisa divulgada no dia 17 de Maio pelo
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística/IBGE). O grupo mais afetado por
essa situação de insegurança é composto por mulheres negras que vivem no Nordeste,
um quadro, assinalou, que resume em um mesmo pacote o conjunto de desigualdades
presentes no Brasil. “O programa Bolsa Família é um reconhecimento da
importância desse tema”, destacou. VULNERABILIDADES EXTERNAS Ao mesmo tempo em que milhões de brasileiros enfrentam
diariamente o drama da fome, o Brasil possui a segunda maior frota de aviões e
helicópteros particulares do mundo. “Alguém aqui possui um avião particular?” –
perguntou Guimarães à platéia. “Ninguém, né. Aqui também não tem ninguém que passa
fome. Nós vivemos entre esses dois extremos”, comentou. Aliada a esta situação
de vulnerabilidade social, o embaixador apontou uma outra vulnerabilidade que é
definidora do que o Brasil é hoje: a vulnerabilidade externa, econômica e
tecnológica. Em relação a esse aspecto, ele apresentou uma resposta aos
críticos da política externa do governo Lula e, mais particularmente, das
viagens do presidente da República ao exterior. “As viagens do presidente à
África, ao Oriente Médio e a outras regiões, criticadas por alguns, tem como um
de seus objetivos justamente reduzir esse vulnerabilidade a choques externos
através da diversificação dos nossos mercados”. O embaixador citou o caso da febre aftosa, que voltou a
atingir o país em 2005, como um exemplo dos efeitos práticos da vulnerabilidade
externa. Segundo ele, o impacto da aftosa só não foi maior na nossa economia
pelo fato de a carne não estar entre nossos principais produtos de exportação e
também pela diversificação da pauta de exportações e dos seus respectivos
mercados. Outro elemento que contribuiu para a redução da vulnerabilidade
brasileira, acrescentou, foi o fim dos acordos com o Fundo Monetário
Internacional (FMI). Mas fez uma ressalva irônica. “Agora falta desinternalizar
as idéias (do FMI, obviamente). Quem quiser que me interprete”, brincou. A
vulnerabilidade brasileira também é tecnológica. Guimarães citou o recente caso
da venda de aviões Super-Tucanos para a Venezuela, inviabilizada pelo governo
dos Estados Unidos que não deu a licença para que empresas norte-americanas
fornecessem certas peças vitais para o avião. AS POTENCIALIDADES BRASILEIRAS “Tivemos aí um negócio de aproximadamente US$ 250 milhões,
inviabilizado por conta de um déficit tecnológico de nossa indústria, que
depende de empresas e de governos de outros países para fechar certos tipos de
negócios”, observou o embaixador. Ele apontou ainda uma outra face dessas
vulnerabilidades, caracterizada pelo déficit que nossas Forças Armadas
apresentam para defender adequadamente todas as fronteiras brasileiras.
Trabalhar pela superação dessas vulnerabilidades, enfatizou, é um dos
principais objetivos do nosso governo e de sua política externa. Uma das
condições centrais para que isso ocorra é o desenvolvimento das potencialidades
brasileiras, defendeu Samuel Pinheiro Guimarães. “O Brasil possui o quinto
maior território do mundo, a décima população e está entre os dez maiores PIBs
(Produto Interno Bruto) do mundo. Só três países têm essas características:
Estados Unidos, China e Brasil”, resumiu. Isso faz com que o potencial de longo prazo da sociedade
brasileira seja extraordinário. Por isso, apontou, uma das grandes tarefas do
governo e do Estado brasileiro é trabalhar para a construção e o
desenvolvimento deste potencial. Não é uma tarefa simples, reconheceu. Entre
outras coisas, pelo fato de que estes desafios devem ser enfrentados em um
ambiente democrático, o que não é nada fácil, considerando as disparidades
sociais e regionais que marcam o Brasil. Algumas das críticas desferidas à política
externa do governo Lula têm a ver justamente com opiniões divergentes acerca de
quais devem ser as linhas estratégicas dessa política. E, em um ambiente
democrático, tal diversidade de opiniões é um fator natural e inevitável.
Escolhas de prioridades, em um país como o Brasil, dificilmente serão
pacíficas. Afinal de contas, cada grupo social organizado vai defender seus
interesses. E o imenso potencial da nossa sociedade terá que se desenvolver
neste ambiente. O ESTADO DE COISAS DO MUNDO Mas o desenvolvimento deste potencial também depende do
cenário internacional e Samuel Pinheiro Guimarães fez uma rápida avaliação
sobre como anda o estado de coisas no mundo. Para ele, uma das principais
características deste cenário é a violência e o desrespeito às regras do
direito internacional. “Os países mais fortes acham que têm, não somente o
direito, mas o dever de impor suas idéias e interesses aos demais países,
dizendo como eles devem se organizar e se comportar. Os princípios da
auto-determinação e da não-intervenção não são aceitos por estes países e o que
vemos hoje é um processo de enorme concentração de poder em nível
internacional, em todos os níveis. Só para dar um exemplo, a força militar dos
Estados Unidos hoje equivale à força dos dez países seguintes somados”. É neste
cenário, que o Brasil procura reduzir suas vulnerabilidades e desenvolver o seu
potencial. E os problemas não se reduzem ao poderio político e militar. Do total de patentes registradas anualmente no mundo, cerca
de 90 mil, as empresas norte-americanas registram cerca de 44 mil, ou seja,
quase a metade, assinalou. Isso significa uma vantagem competitiva muito
grande, pois as patentes significam, entre outras coisas, capacidade de
produzir a um custo mais baixo. Um dos resultados do aprofundamento dessa
distância entre os proprietários de patentes e os demais é o crescimento da
concentração dos mercados, com a formação de oligopólios. O que assistimos
hoje, observou ainda Samuel Pinheiro Guimarães, é um imenso progresso
científico e tecnológico no centro do sistema e, ao mesmo tempo, uma diminuição
da população destes países, especialmente na Europa. A população dos EUA, notou
o embaixador, só não diminuiu por causa da imigração. O resultado dessa
combinação é uma situação de tensão e instabilidade muito grande no sistema
mundial de nações. O PROJETO DE INTEGRAÇÃO FÍSICA DA AMÉRICA DO SUL Diante desse cenário, concluiu, a política externa só faz
sentido se pretende enfrentar esses desafios e buscar um melhor posicionamento
do país no sistema internacional. “Nosso grande desafio é trabalhar para que as
regras do sistema internacional sejam mais favoráveis à sociedade brasileira”,
resumiu. Neste sentido, a emergência de um mundo multipolar interessa muito ao
Brasil, pois aí, a possibilidade de o país desenvolver alianças com outros
países é muito maior. Guimarães lembrou os principais pólos que vêm se formando
no mundo: América do Norte e América Central, capitaneado pelos EUA; a União
Européia (uma estrutura que já conta com uma burocracia de 30 mil funcionários,
moeda, parlamento e legislações próprias); a China (país que, há 20 anos, vem
crescendo a uma taxa média de 10%, e já se constitui na quarta potência
econômica); e a América do Sul, que vem procurando construir um processo de
integração física. O secretário-geral do Itamaraty destacou que essa é uma das
prioridades da política externa do governo Lula: a integração física da América
do Sul para consolidar um pólo Regional capaz de desenvolver a potencialidade
de seus países em um mundo multipolar. Ele citou algumas iniciativas que
apontam para essa integração: a construção da primeira estrada bioceânica, que
vai possibilitar o escoamento da soja brasileira pelo Pacífico (via Peru), a
construção da terceira ponte sobre o rio Orinoco (na fronteira com a Venezuela)
e o projeto do Gasoduto do Sul impulsionado por Brasil, Venezuela e Argentina.
De um ponto de vista mais geral, acrescentou, um dos principais esforços da
diplomacia brasileira é a defesa do Direito Internacional, um esforço para que as
regras desse direito prevaleçam entre os Estados, especialmente os princípios
da auto-determinação dos povos e da não-intervenção, particularmente ameaçados
nos últimos anos. Durante sua estada em Porto Alegre, Samuel Pinheiro
Guimarães lançou sua mais recente obra, “Desafios brasileiros na era dos
gigantes” (Editora Contraponto). No final do primeiro capítulo, ele resume os
principais desafios da política externa brasileira em um trecho que oferece uma
síntese de sua conferência na capital gaúcha: “Os quatro grandes desafios do
Brasil são a redução gradual e firme das extraordinárias disparidades sociais,
a eliminação das crônicas vulnerabilidades externas, a construção do potencial
brasileiro e a consolidação de uma democracia efetiva, em um cenário mundial
violento, imprevisível e instável”. Para ele, qualquer reflexão sobre uma
estratégia de desenvolvimento para o país deve levar esses quatro desafios em
conta e qualquer política externa digna deste nome deve encará-los como tarefas
prioritárias para a defesa dos interesses do país no cenário global e para a
transformação das potencialidades brasileiras em uma realidade. |