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Cuba, Chile, Venezuela (Prefacio
a “Fórmula para el caos”) Samuel Pinheiro
Guimarães* Febrero 2009 1.
A
obra de Luiz Alberto Moniz Bandeira é fundamental para compreender o passado, o
presente e o futuro da América do Sul e da América Latina. Essa obra é o
resultado de um esforço paciente de pesquisa histórica e de análise política e
inclui livros como Presença dos Estados
Unidos no Brasil; De Marti a Fidel;
Brasil, Argentina e Estados Unidos;
e Formação do Império Americano. Sua
nova empreitada é este livro, Fórmula
para o caos. Uma extraordinária e inédita análise do processo político,
econômico e social que levou à derrubada do governo de Salvador Allende, eleito
democraticamente, e que assim governava o Chile, e da conspiração da CIA com os
grupos civis de extrema direita, com os militares e com a oposição para
derrubá-lo. 2.
A
compreensão da América do Sul é essencial para avaliar as perspectivas que se
abrem e que se impõem ao Brasil, que cada dia mais se entrelaça com a economia
e com a política de seus onze vizinhos de Região. O Brasil tem dimensões
maiores e maior potencial do que cada um de seus vizinhos tomados isoladamente.
Apesar disto, e talvez até por isto mesmo, o desafio da América do Sul se torna
ainda mais importante na medida em que se aprofundam esses laços e assimetrias
e em que emerge um mundo multipolar como desafio, no futuro, à hegemonia
americana e ocidental. Nesse contexto, a América do Sul (e a América Latina)
constituem para os Estados Unidos a principal zona geográfica de interesse
estratégico. Estados Unidos que são, de longe e sem sombra de dúvida, a maior potência
mundial. 3.
Os
Estados Unidos detém 28% do PIB mundial; são responsáveis por 31% do estoque
total de investimentos diretos estrangeiros; participam com 13% do comércio internacional;
realizam 60% das despesas com armas; controlam 40% do total de ogivas
nucleares; geram talvez 40% de toda a produção de audiovisuais e de
“ideologias”; consomem 23% da energia mundial e geram 25% das emissões anuais
de CO2; 31 das 100 maiores mega-empresas transnacionais são
americanas e, finalmente, os Estados Unidos são proprietários de mais de 50%
dos satélites civis e militares que circundam a terra. 4.
Por
outro lado, em um sistema em que se acentuam as assimetrias de poder,
encontram-se nos Estados Unidos apenas 5% da população mundial; mas sua
economia e sua sociedade estão profundamente entrelaçadas com a economia, a
sociedade e o sistema político global e de certos países específicos, a começar
pela América Latina. 5.
Na
América Latina, os países do istmo centro-americano, das ilhas do Caribe e
aqueles situados no norte da América do Sul são vitais para a grande estratégia
norte-americana. A meta fundamental e permanente dessa estratégia é preservar a
posição hegemônica americana no mundo e assim garantir a segurança política e o
bem-estar econômico de sua sociedade como um todo, mas muito em especial de
suas elites. 6.
O
canal do Panamá, por onde transita 4% do comércio marítimo mundial, é
fundamental para a economia norte-americana, ao permitir a ligação entre a
Costa Leste e a Costa Oeste e para seu sistema estratégico, sobretudo naval, ao
tornar possível a rápida passagem de belonaves entre o Atlântico e o Pacífico.
Portanto, as ilhas do Caribe e os países da América Central são elementos essenciais
da integração do mercado doméstico americano, de sua integração com a economia
de outros países, em especial daqueles que constituem o novo pólo econômico
mundial: a China, a Índia e o Japão, e da projeção de seu poder militar nos
oceanos. 7.
Apesar
da reação conservadora da sociedade americana em relação à imigração, os países
da América Central e o México continuam a ser importantes supridores de
mão-de-obra barata para a economia americana. O México, aliás, se encontra
geograficamente na América do Norte e economicamente integrado aos Estados
Unidos, aos quais destina 85% de suas exportações, de onde recebe 51% de suas
importações, em cujo território vivem 27 milhões de mexicanos que remetem ao
México 23 bilhões de dólares por ano. Agora, com os acordos de livre comércio
celebrados com os países da América Central e a República Dominicana, essa área
será uma zona de investimento “maquilador” preferencial para as empresas
americanas. Por meio desses acordos vem se formando um grande espaço econômico
para os bens, serviços e capitais do Canadá ao Panamá (e até ao Chile), na
realização gradual, sutil e sem alardes do grande objetivo estratégico de
articular uma área de livre comércio das Américas, com os Estados Unidos em seu
centro, que se julgava ter fracassado. 8.
A
Venezuela desempenha papel de grande importância para a economia americana. A
Venezuela teve seu petróleo descoberto e sua extração organizada por empresas
americanas, e chegou a suprir no passado 50% das importações americanas de
petróleo enquanto 80% do total das importações venezuelanas, desde alimentos,
como alface, até automóveis e bens suntuários, provinham dos Estados Unidos. A
Venezuela continua essencial, no curto prazo, para o dínamo da economia
americana que é a energia, pois continua a fornecer 10% do total do petróleo
importado pelos Estados Unidos. A Venezuela apresenta a vantagem de se
encontrar fora da principal região supridora, onde se verifica elevada
turbulência de difícil superação, que é o Oriente Próximo (fonte sempre sujeita
a embargos, devido à política americana em relação a Israel e aos países
árabes); fora de região instável, política e socialmente, como a África; e fora
de uma área sujeita à influência de outras potências rivais, como é a Ásia
Central. A Venezuela está próxima do território americano e possui a sétima
maior reserva de petróleo do mundo. E este é um mundo em que o petróleo
participa com 36% de sua matriz energética e na qual continuará a ter
importante participação por muito tempo, segundo a Agência Internacional de
Energia, apesar de toda a preocupação com os efeitos da mudança do clima. Daí a
inconformidade americana com a reorientação política da Venezuela em direção ao
Sul. 9.
A
Colômbia é a maior supridora de narcóticos naturais, em especial a cocaína, para
o mercado americano, que consome cerca de 50% da cocaína produzida no mundo. O
nível de renda, agregado ao alto nível de ansiedade social, que deriva do
individualismo exacerbado, que caracteriza o neocapitalismo, gera uma demanda
que as políticas de repressão policial, por mais vigorosas que sejam, não
conseguem, nem conseguirão, eliminar ou mesmo reduzir significativamente. A
Colômbia é o campo de teste das políticas de erradicação da produção de coca
que, no máximo, provocam a transferência da produção de uma zona geográfica
para outra, e se encontra no epicentro da área de maior tensão do continente
sul-americano, constituindo o terceiro maior destinatário de ajuda militar
americana no mundo. 10.
Os
demais países da América do Sul, apesar de não estarem inseridos nesta primeira
zona estratégica banhada pelo Mar do Caribe, são, todavia, de enorme
importância na medida em que se encontram situados no continente mais próximo
dos Estados Unidos, com a possibilidade de influir sobre a região do Mar do
Caribe. 11.
Os
Estados Unidos sempre compreenderam a importância estratégica da região e, por
isto, consideravam e afirmavam ser a América Latina (e a América do Sul) área
de sua influência exclusiva, onde outras potências não teriam o direito de
intervir nem poderiam ousar intervir, sob pena de reação americana, e
procuraram, com persistência, remover a presença européia na região. 12.
Durante
o período em que se realizou a independência das colônias ibéricas, que vai da
ocupação da Espanha por Napoleão, a prisão de Fernando VII e a fuga da Corte
portuguesa, até o Congresso de Viena, em 1815, e a derrota dos espanhóis em
Ayacucho, se sucedem movimentos de fidelidade a Fernando VII que se transformam
gradualmente em movimentos independentistas, de início, monárquicos e depois
republicanos. Naquele momento, os Estados Unidos, diante da reação conservadora
da Santa Aliança, se apressaram em declarar, em 13.
É
verdade que os americanos, nos primeiros anos após a proclamação de sua
independência como República, estavam “cercados” pelas potências européias
monárquicas em um momento de grande reação (conservadora, absolutista e
autoritária), que se agravou após a derrota de Napoleão. Os americanos
desejavam, por razões nacionais, impedir a recolonização européia e a ameaça
que representaria para a República, bastando lembrar o episódio da guerra
contra o Reino Unido em 1812, e o fato de que os Estados Unidos à época
ocupavam um território de 918.000 Km2, tinham uma população de
apenas 2 milhões de habitantes e nenhum desenvolvimento industrial
significativo. 14.
Os
americanos conseguiram “expulsar”, pela guerra ou pela aquisição, os europeus,
em primeiro lugar de seu território continental, e mais tarde, praticamente, de
todo o Caribe. Os Estados Unidos conquistaram seu território atual com a
aquisição da Flórida, da Louisiana e do Oregon, e mais tarde em guerra contra o
México, e finalmente na guerra contra a Espanha eliminaram os resquícios
significativos de colonização européia nas Américas, da qual restaram apenas
algumas ilhas no Caribe, as três Guianas e as Malvinas. Todavia, os Estados Unidos
sempre relutaram e nunca se decidiram a incorporar ao território da União os
países da América Central e do Caribe, quando poderiam facilmente tê-lo feito.
Isto porque as elites norte-americanas sempre tiveram uma visão negativa da
América Latina por ser ela papista, espanhola, mestiça e retrógrada, como a
obra de Lars Schoultz Estados Unidos:
Poder e Submissão demonstra. Nessa obra podemos encontrar centenas de
declarações de estadistas, altos funcionários e personalidades americanas nesse
sentido, entre as quais se pode citar uma do reverenciado ideólogo da política
exterior americana, George Kennan, que ilustra esse sentimento arraigado: “É
improvável que possa existir qualquer outra região do mundo em que a natureza e
o comportamento humano pudessem se ter combinado para produzir um cenário mais
infeliz e mais sem esperança para a condução da vida humana do que na América
Latina”. George F. Kennan, Memoirs 15.
Por
essas razões, é que os Estados Unidos, que já se haviam tornado a maior
potência mundial, consideraram uma ofensa a Revolução Cubana, pois Cuba era
praticamente uma colônia americana desde a guerra com a Espanha em 1898, que
levara a uma independência limitada, com a chamada Emenda Platt à lei do
orçamento militar americano, de 1902, cujo texto foi incorporado à própria
Constituição cubana. Essa Emenda, apresentada pelo Senador Orville Platt e
votada pelo Congresso americano, conferia aos Estados Unidos o direito de
intervir em Cuba e reservava a eles quatro bases militares, das quais viria a
restar uma, Guantanamo, hoje nefando campo de concentração de prisioneiros da
“guerra” contra o terror, sob o eufemismo de “combatentes ilegais”, aos quais
não se aplicam nem a lei americana nem as convenções internacionais. 16.
A
história das intervenções e ocupações militares norte-americanas na América
Central e Caribe é longa e sangrenta, sendo as mais notáveis as que acorreram
na Nicarágua, 1912/1933 e 1981/1990; no Haiti, 1914/1934; na República
Dominicana, 1903/1904, 1916/1924 e 1965/1966; no México, 1914/1918; em Granada,
1983/1984. 17.
Foram
intervenções e ocupações “domesticadoras”, que se encontram na origem de
movimentos insurrecionais ou políticos de viés esquerdista , anti-imperialista,
autonomista e nacionalista, voltados contra a dominante influência americana,
que se baseou em alianças econômicas e políticas com as oligarquias locais,
descendentes dos colonizadores espanhóis e que mantinham as populações de
origem indígena, negra e mestiça sob sistemática, e mais ou menos violenta,
opressão política, econômica e social. 18.
Assim,
quando a Revolução Cubana triunfa em 1959, com a entrada das tropas de Fidel
Castro em Havana, após dois anos de luta, o enfrentamento do novo governo com
as oligarquias locais e suas aliadas, as empresas norte-americanas, leva à ruptura
com os Estados Unidos, ao embargo comercial, à expulsão da OEA, ao rompimento
de relações diplomáticas com todos os países das Américas, exceto o México, a
uma correspondente aproximação gradual com a União Soviética e à transformação
do regime em socialista. 19.
A
existência de um regime socialista a 100 quilômetros de distância da Flórida e
sua aliança com uma potência, além de européia, comunista se apresentou como
intolerável crime de lesa-majestade aos olhos das elites americanas. Estas
passaram a desenvolver uma campanha sistemática e acirrada contra o regime
cubano, procurando desmoralizá-lo e estigmatizá-lo de todas as formas e
desestabilizá-lo pelo receio do exemplo que poderia vir a ser para os países da
América Central e do Caribe e, eventualmente, da América do Sul. 20.
A
Revolução Cubana dá origem a dois movimentos estratégicos simultâneos da
política exterior americana: primeiro, a Aliança para o Progresso, cujo
objetivo era demonstrar a superioridade do modelo americano de livre
iniciativa, democracia liberal e individualismo como a solução mais eficiente
para superar o subdesenvolvimento latino-americano em competição com o modelo
socialista, proletário, estatizante e solidário que Cuba representava; e, em
segundo lugar, paradoxalmente, o firme apoio a ditaduras civis-militares de
direita, altamente repressoras e violentas como instrumentos de eliminação de
movimentos de esquerda e de seus dirigentes, armados ou não, na América Latina
e do Sul, como se veio a conhecer quando se revelaram os documentos da Operação
Condor. 21.
A
ampla operação organizada pela CIA para a desestabilização e derrubada do
Governo de Salvador Allende no Chile foi um momento emblemático desse processo
ao qual os dirigentes, estrategistas e operadores políticos dos Estados Unidos
dedicaram especial preocupação, atenção e recursos financeiros, de forma aberta
e encoberta. 22.
As
dimensões econômicas e políticas do Chile por si só não poderiam explicar o afã
com que se lançaram os Estados Unidos à empreitada de derrubar o governo de Allende,
eleito democraticamente, e que pretendia implantar, por via pacífica, o
socialismo no Chile. 23.
Tratava-se,
todavia, da necessidade de impedir o surgimento, na sua segunda principal zona
estratégica, de um modelo político, econômico e social alternativo, por via
pacífica, eleitoral e democrática. Sua mera existência poderia estimular os
movimentos políticos revolucionários ou não, contrários aos regimes
civis-militares autoritários ou neo-liberais implantados na região a partir de
1964, quando se dá o movimento armado no Brasil, e que se espraiaram para a
Argentina, a Bolívia e o Uruguai, com pleno apoio do governo “democrático” dos
Estados Unidos. Os círculos intelectuais e de propaganda americanos, para
justificar tal política, criaram a teoria da modernização como antídoto à
subversão socialista e que somente poderia ser implementada pelos segmentos
militares das sociedades sul-americanas, que seriam os que estariam menos
comprometidos com as estruturas oligárquicas tradicionais, responsáveis pelo atraso
econômico e social. Samuel Huntington foi o grande teórico dessa estratégia. 24.
Em
1970, quando Salvador Allende foi eleito, o Chile tinha 9 milhões de
habitantes, em um território de 756.000 Km2, em grande parte
desértico, em que apenas cerca de 3% é arável, com sérias deficiências
energéticas, com um PIB de US$ 13 bilhões e com enorme dependência do cobre,
minério que correspondia a 75% de suas exportações totais. 25.
Apesar
de sua reduzida dimensão e importância econômica, os Estados Unidos
compreenderam o impacto político e estratégico do eventual sucesso de um
governo socialista no Chile. Assim, antes mesmo da eleição de Salvador Allende,
como revelam os documentos americanos até recentemente secretos a que Moniz
Bandeira teve acesso, começaram a articular a derrubada do futuro Governo,
através do financiamento da oposição chilena, dos meios de comunicação, do
treinamento militar dos grupos de extrema direita, do corte de acesso a
empréstimos de organismos internacionais, de campanha difamatória na imprensa internacional
e na imprensa dos países da América do Sul. 26.
Aquela
seria uma operação encoberta de “regime change”, como se chamam hoje operações
mais cínicas, em desrespeito frontal aos princípios das Nações Unidas, cuja
Carta define, em seus artigos 1 e 2, as condições indispensáveis para a
convivência pacífica entre os Estados que constituem a comunidade
internacional: igualdade soberana dos Estados, a autodeterminação dos povos e a
não-intervenção em assuntos internos de países soberanos. 27.
A
obra de Moniz Bandeira revela e detalha passo a passo, comprovando com a
citação de fontes e documentos norte-americanos, chilenos e brasileiros, a
articulação do golpe de Estado que viria a derrubar o governo de Salvador
Allende, democraticamente eleito, e substituí-lo por uma das mais sangrentas e,
como hoje se sabe, uma das mais corruptas ditaduras da América do Sul, que
viria a ser o regime do general Augusto Pinochet Ugarte. Este regime, durante
sua longa duração de 17 anos, recebeu o pleno apoio político, militar e
econômico norte-americano, até mesmo depois de os Estados Unidos, a partir do governo
Jimmy Carter, decidirem reorientar sua
política na América do Sul e estimular a substituição dos regimes militares,
que antes tinham entusiasticamente apoiado, por regimes democráticos civis. 28.
O
episódio chileno é da maior importância no contexto mais amplo da estratégia
norte-americana para a América Central e caribenha e para a América do Sul. 29.
Esta
estratégia apresenta cinco objetivos principais, interligados e permanentes ao
longo de toda a sua história: promover o desarmamento da Região; incorporar a
economia latino-americana à economia norte-americana; garantir o alinhamento
político dos países da Região com os Estados Unidos nas grandes disputas
internacionais; promover governos na América Latina que cooperem com esta
estratégia e combater com firmeza aqueles governos que se lhe opuserem;
promover a união interamericana em preferência à união sul-americana. 30.
Na
execução de cada um desses cinco objetivos estratégicos há três aspectos
táticos importantes: a geração de ideologias que tornem aceitáveis esses
objetivos aos olhos da opinião pública dos países da Região; a adoção de
legislação nesses países que consolidem os instrumentos que garantam esses
objetivos; a cooptação das elites dirigentes dos países da Região para que as
medidas que assegurem tais objetivos sejam implantadas pelas próprias
sociedades “em seu próprio interesse”, sem a aparência de atender a objetivos
de um terceiro Estado. 31.
Um
aspecto importante dessa estratégia é a criação de governos que possam ser
apresentados como “modelos” para os demais Estados da Região e em relação aos
quais se possa argumentar que foram bem sucedidos por terem adotado,
livremente, aqueles objetivos. Neste caso se enquadraram, em diferentes
momentos, o Chile, o México e a Argentina, como não cessaram de reiterar as
autoridades americanas e seus porta-vozes na imprensa e na academia. 32.
Após
a derrubada do governo Allende, os Estados Unidos se empenharam em cooperar com
a ditadura civil-militar de Augusto Pinochet na implantação de um modelo
econômico neo-liberal, de abertura comercial e financeira, de desestatização,
de restrição às atividades dos sindicatos e que viesse a integrar a economia
chilena à economia americana. 33.
O
Chile foi um dos primeiros países a implantar políticas neo-liberais na América
do Sul e no mundo subdesenvolvido 34.
O
Chile, todavia, apesar da permanente propaganda feita em torno de seu modelo neoliberal,
tem apresentado alguns importantes paradoxos: a manutenção de um terço do setor
do cobre, que corresponde à parte central de sua economia, sob propriedade
estatal, o controle do ingresso de capitais especulativos durante os anos 90 e
a estatização do setor do petróleo. Aliás, o setor do cobre ficou vinculado às
Forças Armadas chilenas, pois uma parte da receita com as exportações de cobre
foi destinada, por lei, ao financiamento do orçamento militar. 35.
Mas,
em praticamente todos os outros setores, o governo Pinochet seguiu as políticas
recomendadas pelos chamados Chicago boys,
jovens economistas da escola monetarista de Milton Friedman, cuja idéia central
é liberar totalmente as forças de mercado, eliminar a presença do Estado na
economia como investidor e regulador, e garantir um suprimento regular de
moeda, isto é, não usar a política monetária (através da taxa de juros) para
influir nos rumos da economia. 36.
O governo
de Augusto Pinochet reverteu a reforma agrária; privatizou todas as empresas
que haviam sofrido intervenção e controle operário; implantou uma tarifa
aduaneira externa uniforme e baixa; privatizou as empresas de capital estatal,
desregulamentou o mercado de trabalho e privatizou os sistemas de previdência
social, de saúde e de educação. Na política externa, o Chile rompeu com Cuba e
com os países socialistas e mais tarde viria a se tornar um aliado próximo dos
Estados Unidos nas negociações da Rodada Uruguai, da Área de Livre Comércio das
Américas, na Rodada Doha da OMC e foi o segundo país latino-americano, após o
México, a celebrar um acordo de livre comércio e, na prática, de integração
econômica com os Estados Unidos. 37.
A
reconstrução da democracia no Chile e a sua inserção na América do Sul têm sido
árduas e desafiadoras. Após a redemocratização, em que persistiram durante
longo tempo mecanismos estabelecidos pelo antigo regime para manter o controle
do Judiciário, das Forças Armadas e do Senado, os episódios que cercaram os
processos judiciais contra o general Pinochet e as manifestações de emoção e
pesar durante os seus funerais comprovaram esses desafios, e revelaram a
persistente e profunda divisão da sociedade. Na circunstância sul-americana, o
Chile se vê hoje entre o cosmopolitismo, o interamericanismo e o neoliberalismo
exportador e uma política voltada para a construção nacional, o
sul-americanismo e o desenvolvimento de suas forças produtivas. 38.
As
táticas de subversão e os eventos discutidos em Fórmula para o caos se desenrolaram há 35 anos, mas não pertencem
apenas ao passado magistralmente narrado por Moniz Bandeira, nosso maior
historiador. Sua análise e sua rememoração são necessárias pois, em realidade,
são um modelo que pode vir a ser utilizado em situações do presente sempre que
os governos não se conformem com as pretensões da hegemonia: ações encobertas,
financiamento de agitadores, desmoralização midiática, desabastecimento
provocado, acusação de “contágio” de vizinhos, enfim, tudo o que for necessário
para justificar e promover o golpe de Estado ou a “mudança de regime”. * Samuel Pinheiro Guimarães é embaixador e autor de Quinhentos anos de periferia e Desafios brasileiro na era dos gigantes, pela qual recebeu o Troféu Juca Pato, eleito Intelectual do Ano 2006 pela União Brasileira de Escritores (UBE). |