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I REUNIÃO
DE CÚPULA DO IBAS (Índia, Brasil e África do Sul) Maurício Hashizume Octubre 2006 BRASÍLIA – “É urgente que recuperemos o tempo perdido”. A
palavra de ordem pronunciada pelo presidente Lula condensou a atmosfera em que
foi realizada, nesta quarta-feira (Sept. 13), a I Reunião de Cúpula do Fórum de
Diálogo Índia-Brasil-África do Sul (Ibas). “A potencialidade das relações entre
África do Sul, Índia e Brasil é de uma grandeza incomensurável e nós ainda não
a descobrimos porque durante décadas e décadas estivemos voltados para uma
relação muito forte com os países do Norte e deixamos num segundo plano, eu
diria, até quase no esquecimento, as relações Sul-Sul”, declarou Lula, sob
olhares atentos do primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh, e do presidente
da África do Sul, Thabo Mbeki. A idéia original de criar o Ibas, aliás, foi, segundo relato
apresentado pelo próprio Lula, de Mbeki. Em 1º de Janeiro de 2003, no dia da
posse do presidente brasileiro, o sul-africano sugeriu que grandes países em desenvolvimento
deveriam se unir. “Chegou a hora do Ibas”, adicionou o presidente da África do
Sul, durante o encontro. Para ele, um dos principais desafios colocados pelo
novo grupo será disseminar o entendimento existente no nível dos governos –
reforçados por “esperanças, aspirações e desafios em comum” - para a base das
sociedades de cada país. Nesse sentido, Mbeki sugeriu uma aliança com setor
empresarial para que seja feita uma análise minuciosa de possibilidades e
demandas. Um dos pontos centrais colocados pelo representante maior da África
do Sul foi o incremento da conectividade entre os países – tanto por meio
físico e logístico (infra-estrutura, transportes, circulação de pessoas,
turismo, etc.) como cultural, com a utilização de tecnologias de informação e
comunicação (TICs), a troca de capital intelectual e o intercâmbio acadêmico. “As vantagens de uma cooperação trilateral como essa são
claramente notáveis quando consideramos, por exemplo, a área de segurança
energética. No Ibas, nós somos favorecidos por ter uma verdadeira soma de
expertise e experiência. O Brasil é o líder mundial no uso de etanol. A África
do Sul tem tecnologia na produção de gás por meio de carvão e uma desenvolvida
indústria de combustíveis sintéticos. A Índia, por sua vez, tem expertise em
energia eólica e solar. O Ibas pode ser efetivo no uso das nossas respectivas
forças competitivas nessas tecnologias alternativas de energia”, salientou, em
seu discurso na Cúpula, o premiê indiano Singh, que citou como referência para
a cooperação trilateral o lema do ex-presidente Juscelino Kubitschek: “50 anos
de progresso em cinco”. O primeiro-ministro indiano deixou o Brasil (rumo a Cuba,
onde participará, assim como Brasil, da XIII Cúpula do Grupo dos 15 e a XIV
Conferência de Cúpula do Movimento dos Países Não-Alinhados), nesta
quinta-feira (14), com um trunfo em mãos. Na Declaração Conjunta da I
Reunião de Cúpula do Ibas, os chefes de Estado e de governo “reafirmaram o
direito inalienável de todos os Estados às aplicações pacíficas da energia
nuclear, de forma coerente com sua obrigação jurídica internacional”. De acordo
com a Associação Nuclear Mundial (World Nuclear Association-WNA), a Índia, que
fechou em Março deste ano acordo histórico de cooperação civil no setor com os
Estados Unidos, está construindo sete usinas com reatores nucleares e tem
planos de erguer mais 24. Outro posicionamento bastante incisivo presente no documento
final tocou a questão da reforma da Organização das Nações Unidas (ONU) e do
Conselho de Segurança (CS) das Nações Unidas, cara especialmente ao Brasil, mas
também da Índia. Os três países reafirmaram seu compromisso “urgente” de buscar
conjuntamente uma decisão sobre a expansão do Conselho de Segurança até o final
deste ano. Terá início, na terça-feira da próxima semana (19), a reunião de
chefes de Estado e de governo da 61ª Sessão da Assembléia Geral das Nações
Unidas. Comércio e negócios Juntos, os países do Ibas reúnem cerca de 1,25 bilhão de
habitantes e o comércio total entre os três chega a US$ 7 bilhões. “Nós temos
que perseguir com determinação a meta de US$ 10 bilhões no comércio entre
países dos Ibas (até 2010) que foi firmado no Plano de Nova Delhi adotado em
Março de 2004”, recomendou Singh. O ministro brasileiro Luiz Fernando Furlan
(Desenvolvimento, Indústria e Comércio), anunciou a meta de aumentar as vendas
do Brasil para os países do Ibas dos atuais 2% para pelo menos 4% nos próximos
quatro anos - veja matéria sobre as negociações
comerciais entre o MERCOSUL, a União Aduaneira da África Austral (SACU) e a
Índia. Furlan destacou prioridades acordadas entre os países. Foram
definidos detalhes de um projeto-piloto na África do Sul, no segmento
sucroalcooleiro com apoio do governo do Reino Unido. Por meio da Empresa
Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o Brasil, que importara sementes
de cana-de-açúcar da África do Sul no passado, retribuirá com a transferência
de variedades mais resistentes às condições climáticas que necessitam de menos
água para se desenvolver. Com a Índia (leia matéria sobre a reunião bilateral
Brasil-Índia), existem projetos na área de Tecnologias da Informação
e Comunicação (TICs) e inclusão digital, produtos farmacêuticos (especialmente
no que se refere ao aproveitamento da biodiversidade), bem como na área de
biodiesel gerado com óleo de mamona, programa desenvolvido em pequena
propriedade no Nordeste brasileiro que interessa à Índia, já que uma
significativa parcela de indianos vive da agricultura familiar. “Participamos de várias cúpulas de negócios, mas pela
primeira vez estamos participando de uma iniciativa com esse perfil de sinergia
trilateral”, observou o ministro do Comércio e Indústria da Índia, Kamal Nath.
Para o ministro do Comércio e Indústria da África do Sul, Mandisi Mpahlwa, a I
Reunião de Cúpula foi um passo de trabalho concreto para destravar o potencial
dessa relação, mas o tema da complementaridade ainda continua muito genérico.
“É preciso identificar melhor as áreas com maior potencial”, consignou,
sugerindo atenção ao setor aeroespacial. Representantes do meio empresarial também participaram da
reunião. Rogelio Golfarb, presidente da Anfavea (Associação Nacional dos
Fabricantes de Veículos Automotores), aludiu para a busca de um comércio
complementar e não predatório (do tipo que substitui a produção interna já
existente em cada país). Ele pediu celeridade nas negociações. “Talvez o nosso
maior desafio seja acelerar esse processo”. O intercâmbio
comercial, na visão de Patrice Motsepe, executivo de uma grande mineradora da
África do Sul, tem a seu favor a existência de um parque industrial forte e
diferenciado nos três países. O presidente da Confederação das Indústrias da
Índia (CII), R. Seshasayee, por sua vez, colocou a busca por um novo paradigma
de crescimento com inclusão social como o principal horizonte de significância
da cooperação Sul-Sul. O encontro empresarial paralelo ao Ibas organizado na sede
da Confederação Nacional da Indústria (CNI) contou com 368 inscritos e foram
marcadas na seção de negócios 127 reuniões presenciais. Estudo especial
elaborado pelo Banco Mundial (Bird) comparou os climas de investimentos entre
os países e confirmou a existência de progresso nas relações trilaterais, mas
atestou também a persistência da falta de conhecimento entre Índia, Brasil e
África do Sul. “Somos países diferentes, mas com desafios idênticos”, ressaltou
o presidente da CNI, Carlos Eduardo Moreira Ferreira. “O que queremos, com o Ibas e outras iniciativas, é aproveitar
melhor oportunidades de cooperação Sul-Sul antes inexploradas. Isso não quer
dizer que o Brasil vá descuidar das relações com o mundo desenvolvido. Essas
duas vertentes de nossa política externa não são jogos de soma zero. São
complementares, uma reforça a outra”, sublinhou o presidente Lula. No caso
específico da Índia e da África do Sul, 87% das vendas brasileiras são de
produtos manufaturados e um dos principais itens de exportação para a Índia é o
de aviões. Para a África do Sul, o Brasil exporta uma quantidade considerável
de automóveis. Nas colocações de Lula, se o Ibas tivesse sido articulado há 20
anos, “possivelmente nós já teríamos crescido economicamente muito mais do que
crescemos”. “De qualquer forma, nunca é tarde para a gente reparar os equívocos
ou os erros históricos que fizemos nas nossas relações com países irmãos. E,
urgentemente, pelos memorandos que nós assinamos aqui, nós precisamos corrigir.
Corrigir economicamente, politicamente e também do ponto de vista cultural”. Intercâmbio acadêmico Foram discutidos três temas gerais no seminário acadêmico
que também foi realizado paralelamente à I Reunião de Cúpula do Ibas nas
dependências do Itamaraty – a necessidade de mais investimentos para estimular
à área de Ciência e Tecnologia (C&T); o tema do desenvolvimento social, que
tratou do combate à desigualdade, de experiências em políticas públicas e de
questões ligadas a propriedade intelectual; e a questão da diversidade
sociocultural, especialmente no que se refere ao incentivo a constituição de
parcerias. Cinco iniciativas centrais de projetos em comum foram
sugeridas pelos acadêmicos de Índia, Brasil e África do Sul. Nas áreas de
cultura da paz e da não-violência, intercâmbio cultural e artístico,
biodiversidade e sustentabilidade, a criação de uma agência de informação que
sirva de canal de comunicação permanente e a constituição de um fundo
específico para incentivo ao intercâmbio acadêmico. |