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BRASIL,
RÚSSIA, ÍNDIA E CHINA Mauricio
Hashizume Enero 2007 As histórias, as realidades e os desafios de Brasil, Rússia,
Índia e China são, sem sombra de dúvidas, muito diferentes. A troca de
experiências vividas por essas nações reunidas sob a sigla BRIC (formada pelas
iniciais de cada país) – detentores de condições especiais para deslancharem em
matéria de desenvolvimento nas próximas décadas segundo classificação do
Goldman Sachs feita em 2001 - no entanto, trazem elementos valiosos na busca de
caminhos para o enfretamento de problemas comuns relacionados ao crescimento
econômico entre os chamados “emergentes”. Uma das principais lições da China, país que exibe índices
impressionantes de aceleração econômica, consiste na comprovação do papel
estratégico e fundamental da expansão dos investimentos públicos para a
construção de infra-estrutura. De acordo com Elias Jabbour, assessor econômico
da presidência da Câmara dos Deputados e autor do livro “China:
Infra-estruturas e crescimento econômico”, a China investiu, de 1998 a 2005, a
cifra astronômica de US$ 800 bilhões em infra-estrutura; enquanto, no mesmo
período, o Brasil destinou à área apenas US$ 12 bilhões. A opção pela infra-estrutura, observa Jabbour, não é um fim
em si mesmo. A China aproveitou os investimentos para incentivar as cadeias
produtivas internas do país. O assessor compara a opção chinesa com as intensas
discussões no Brasil sobre o marco regulatório e a segurança jurídica em torno
das Parcerias Público-Privadas (PPPs) - um dos principais instrumentos
apresentados como forma de aumentar os recursos para o setor. “Essa preparação
serve ao capital estrangeiro”, avalia. De acordo com o autor do livro e doutorando em Geografia
Humana pela Universidade de São Paulo (USP), o metrô da cidade de São Paulo,
feito apenas com produção nacional, pode ser pinçado como uma prova da
viabilidade do investimento em cadeias nacionais no Brasil. Para se ter uma
idéia, no setor de máquinas e equipamentos, o País está com 50% de sua
capacidade de produção ociosa. O quadro do setor ferroviário resume bem essa
falta de foco nos investimentos: o Brasil exporta ferro e importa trilho da
mesma China, que, além de aquecer a produção, promove um intenso processo de
integração do território nacional. “A China aprendeu com a crise asiática que
precisava, de imediato, alavancar o mercado interno”, sintetiza o assessor. Da Índia, é possível captar outros ensinamentos sobre o
incentivo para a atividade econômica. Um dos palestrantes do seminário “BRIC –
Brasil, Rússia, Índia e China, Oportunidades e Desafios”, realizado nesta
terça-feira (28) na Câmara Federal, o jornalista José Fucs, da revista Época,
relatou o saldo de uma viagem que fez à Ásia há três meses a convite do governo
indiano. Fucs salientou que o ambiente de negócios na Índia não é melhor que o
do Brasil e que vários indicadores da economia brasileira, utilizados como
referência pelo chamado “mercado” são mais favoráveis do que os números
indianos. A título de comparação, a relação entre a dívida e o Produto Interno
Bruto (PIB) na Índia chega a quase 80%. No Brasil, essa relação caiu para 51%. O que explica então as taxas superiores de crescimento da
Índia em comparação com o Brasil? Apesar do tamanho e da proporcionalidade
maior da dívida indiana, apenas 4% do PIB do país são destinados ao pagamento
dos juros da dívida. No Brasil, são consumidos 8% para a mesma finalidade. Os
juros reais da Índia são de 3% - 8% menos inflação de 5%. Já os altíssimos
juros reais no Brasil são de aproximadamente 10% - 13%, menos inflação de 3%.
“Eles não acham que o país vai acabar se os juros baixarem”, relata Fucs.
Essencial para o crescimento, o enfrentamento da questão fiscal (segundo o
jornalista, no Banco Central da Índia, a política monetária com foco na
estabilidade não demove a busca pelo crescimento), conta com a colaboração, do
lado privado, de investimentos pesados em pesquisa e inovação tecnológica em
segmentos como tecnologia da informação (TI) e indústria farmacêutica, além de
um foco especial na produção para mercados de baixa renda. A apresentação da professora Lenina Pomeranz, da
Universidade de São Paulo (USP), especialista em Rússia, durante o mesmo
seminário, destacou a determinação da Rússia na definição de um projeto
nacional, questão que continua em aberto no Brasil. O governo russo pretende
utilizar estrategicamente as reservas de petróleo e gás natural (são atualmente
os maiores produtores do mundo desses dois itens) para tentar reocupar a
posição de destaque alcançada no passado pela União Soviética. Para tanto, a
Rússia tem apostado no modelo de Product Sharing Agreements (PSA), acordos
semelhantes às PPPs brasileiras, para a exploração de recursos naturais em
parceria com transnacionais estrangeiras no Ártico, em condições difíceis. A
Rússia espera ainda ser integrada à Organização Mundial do Comércio (OMC) em
2007, mas enfrenta dificuldades, principalmente em relação a outros países da
Europa. “Há também muito preconceito com o passado soviético”, relatou a
professora. Apesar de aparecer como a nação que menos cresceu
economicamente entre os países do BRIC nos últimos anos, o Brasil deu passos
importantes, argumentou o empresário Ivoncy Ioschpe, presidente do Conselho
Ioschpe Maxion S.A. Para ele, que também participou do evento realizado pelo
Conselho de Altos Estudos e Avaliação Tecnológica da Câmara Federal, o esforço
maior de transição de uma estrutura dos tempos coloniais para a consolidação de
uma sociedade moderna já foi concluído. “Temos uma das malhas industriais mais
completas do mundo”, declarou, ressaltando que nenhum grande setor industrial
desapareceu com a abertura econômica das últimas décadas. Na visão de Ioschpe,
os gargalos para o crescimento econômico, e principalmente para o
desenvolvimento do Brasil como um todo, dependem mais de iniciativas pontuais.
“O Brasil já passou por uma mudança política que os outros [países do BRIC]
ainda não passaram”, afirmou o empresário. A comparação entre os “gigantes emergentes” durante o
seminário, porém, não poupou - além da importância do investimento estratégico
em infra-estrutura como fez a China, da coragem de manter os juros baixos da
Índia e da definição de um projeto nacional consistente como na Rússia - a
necessidade de reorientação da política econômica, bem como de investimentos
estratégicos e políticas públicas consistentes no campo da política industrial,
da educação e da ciência e tecnologia. |