União Sul-Americana e globalização mais justa

 

Francisco Carlos Teixeira(*)

Febrero 2006

Embora sob crítica dos setores tradicionais da política e da economia brasileira, o governo Lula vem conseguindo cumprir dois pontos centrais de sua política externa: a Integração Sul-Americana e um inserção mais igualitária na globalização.

Sob pressão crescente dos Estados Unidos, em especial entre 2003 e 2004, para acelerar as negociações para o estabelecimento da Alca em 1º de Janeiro de 2005 (conforme havia sido acordado em 1994 na Cúpula de Miami, entre Bill Clinton e FHC) o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, chegou a ensaiar uma rebelião contra a condução da política externa brasileira pela pasta das Relações Exteriores, criando uma certa balbúrdia na condução dos negócios exteriores. Foi preciso que o próprio Lula da Silva reafirmasse publicamente sua confiança no ministro Celso Amorim e na unicidade da política externa para conter a rebelião. Dessa forma, a política externa foi resguardada, embora o “núcleo” nacional do governo fosse duramente atingido, em especial o BNDES, em nome da restauração da “unidade” de gestão do governo.

Contudo, com grave dano para o equilíbrio do governo (entre “nacionais/desenvolvimentistas” e “liberais/atlantistas”), o deslocamento dos professores Roberto Amaral, Carlos Lessa e Darc Costa não alterou a política nacional em direção à integração sul-americana e à manutenção de uma postura soberana em relações internacionais. O convencimento induzido a partir da ação do núcleo “nacional” já estava suficientemente enraizado para a manutenção das políticas de C&T e da participação do Brasil, em especial na área de infra-estrutura, do esforço de integração continental. Após a fulgurante “queda” de José Dirceu da Casa Civil, coube à nova ministra Dilma Roussef manter, junto ao presidente, o “contraponto” político de caráter “nacional/desenvolvimentista”. De qualquer forma, ao Itamaraty, privado de aliados importantes, cabia agora levar à frente as propostas do núcleo nacional do governo. O único impasse continuava a ser a política artificialmente alta de superávits e de juros, ameaçando as próprias metas do desenvolvimento econômico. A política externa: realismo temperado

Foi através de tal percepção que a oposição à condução da política externa do país tornou-se mais aguda, apontando “falhas” e “erros”. De forma mais sutil, embora não menos insidiosa, várias ONGs, entidades universitárias e pesquisadores norte-americanos, tendo como centro think tanks altamente financiados, insistiam em pautar a discussão brasileira sobre a Nova Ordem Mundial, criando uma agenda paralela capaz de influenciar a tomada de decisões, em Brasília. Buscava-se agir através de similares brasileiros, apoiados em recursos e na prática norte-americana, para daí influir sobre a opinião pública visando a reformulação da política externa. Foi assim, por exemplo, quando Lula da Silva visitou a China Popular – numa larga continuidade da nossa política externa, de Geisel a FHC –, abrindo uma avenida de negócios, gerando renda e emprego. Os críticos locais – principalmente intelectuais e ativistas de ONGs – destacaram apenas o “silêncio” do presidente brasileiro sobre a questão dos direitos humanos na China, como se as muitas ofensas aos direitos humanos no Brasil não fossem um tema suficiente...

Da mesma forma, no final de 2004 e no primeiro semestre de 2005, as pretensões brasileiras aos cargos na OMC e no BID – bem mais uma pretensão da área financeira do governo – foram derrotadas, creditando-se tal “fiasco” inteiramente ao MRE. As vitórias do país na OMC, incluindo-se aí a condenação dos subsídios americanos para o açúcar e soja, foram largamente ignorados.

 

O G-20

Desde 2003, quando o Brasil (ao lado da Índia, China, Argentina e África do Sul) criara o G-20 – grupo de países emergentes, grandes produtores agrícolas – as relações Norte/Sul, para simplificar, ficam mais tensas. Especialmente as questões referentes aos milionários subsídios agrícolas que ameaçavam a boa conclusão da chamada Rodada de Doha da OMC. Os Estados Unidos, a União Européia e o Japão haviam negociado previamente à reunião de Cancún, no México, visando impor seus interesses no estabelecimento das regras do comércio mundial. Fora um ato de arrogância imperial, com uma clara tentativa de impor uma ordem econômica injusta ao conjunto dos povos do planeta. A resposta dos 20 países reunidos em Cancún foi a paralisia total das conversações, com grave risco para a própria existência da chamada Rodada de Doha (em razão da Conferência da OMC em Doha, no Catar, em 2001) e que estabelecera para o 2005 a meta de diminuição drástica das barreiras tarifárias ao comércio de bens agrícolas. Na maioria das vezes, em virtude de interesses eleitorais – a manutenção do voto de grupos de produtores rurais sem condições de competir no comércio mundial – os governos europeus, dos Estados Unidos e do Japão pagam quantias fabulosas para manter no mercado produtores absolutamente não competitivos (como os produtores de açúcar dos Estados Unidos, de arroz do Japão ou de frangos da União Européia). O conjunto de tais subsídios chegou a soma fantástica de mais de U$ 330 bilhões em 2003, distorcendo os termos mundiais do comércio e gerando desemprego e baixa renda nos principais países produtores do Terceiro Mundo.

A partir do fracasso de Cancún, as negociações da Alca tornar-se-iam ainda mais complexas. Os Estados Unidos exigiam uma Alca “completa”, com a abertura total e progressiva dos mercados, como contrapartida à abertura do fantástico mercado americano aos produtos latino-americanos. Muitos produtores no Brasil (e nos demais países do MERCOSUL) viram uma oportunidade única para ter acesso à cornucópia americana. Isso poderia ser verdade para alguns setores, como por exemplo a chamada “linha branca” produzida no Brasil. Entretanto, para a maioria dos produtos, a verdade seria outra. O próprio público americano não iria trocar uma TV “nacional” por uma aparelho produzido em Manaus ou Córdoba, ou ainda pensar em comprar carros brasileiros... Da mesma forma, os Estados Unidos, sob pressão dos seus empresários, sindicatos e do Congresso americano, impunham uma série de restrições não-tarifárias aos produtos estrangeiros, fazendo exigências técnicas e fito-sanitárias de grande de dificuldade de concretização.

 

A política Bush fracassa no hemisfério

Para as economias sul-americanas mais importantes, a abertura, descontrolada, da área de serviços – e em especial na área de construção, serviços médicos e seguros – partiria a coluna cervical de um setor em expansão, de reconhecimento internacional e no qual somos competitivos. Os Estados Unidos possuem hoje um burô federal especializado em obter informações sobre possíveis concorrentes comerciais, que, em seguida, repassa as informações para suas empresas. Uma das principais fontes de espionagem econômica advém da necessária abertura de segredos comerciais e industriais através de empresas americanas de seguros (1).

Contudo, a partir do início de 2005 a maré voltava-se contra a Administração Bush. Primeiro a guerra no Iraque, com a evidência de ser a guerra errada, no lugar errado e com as justificativas erradas. Depois veio o “horror e espanto” do Furacão Katrina, logo seguido de escândalos de corrupção, manipulação e divulgação de mentiras visando justificar a guerra. Em fim, em Setembro de 2005, cerca de 51% do público americano aceitava a possibilidade de um impeachment contra o presidente.

 

A América do Sul se move à esquerda

No continente as mudanças também são bruscas e profundas. Chávez, após uma longa crise, consolida sua posição na Venezuela, diminui, e mesmo ridiculariza, a oposição conservadora, enquanto os opositores liberais são paralisados. Além disso, Chávez adota uma política de defesa nacional baseada na resistência e na guerra assimétrica – conforme a doutrina chinesa –, com grandes compras de material bélico na Rússia, China Popular, Espanha e Brasil, excluindo os Estados Unidos (um fornecedor histórico de armas ao país). Enfim, dá-se uma íntima associação com os chineses, que manifestam forte interesse no petróleo venezuelano.

Na região andina, o chamado Arco Indígena – Bolívia, Equador, Peru – mostra sinais de grande turbulência, com regimes simpáticos aos Estados Unidos sendo varridos do mapa, na Bolívia e no Equador especialmente. A principal base militar americana na região, Mantua, no Equador, passa a ser alvo de vastos protestos populares, bem como a tentativa de construir outra no Paraguai. Mesmo a Argentina, deixada a sangrar sozinha após a crise econômica e institucional de 2001 e 2002, vê crescer um forte sentimento popular contra o livre-comércio, contra o FMI, levando a assinatura de uma declaração de caráter desenvolvimentista com o Brasil, o chamado Consenso de Buenos Aires.

No segundo semestre de 2004, a situação chegou a seu ponto mais baixo, com o surgimento, inesperado, de uma “Questão Nuclear” entre os dois países. Vários analistas neoconservadores americanos, apoiados na imprensa, comparavam a posição brasileira de desenvolver processos autônomos de enriquecimento de combustível nuclear, como um desafio à política de controle de armas de destruição em massa dos Estados Unidos. Assim, na imprensa americana, o Brasil foi, ao longo de Setembro/Outubro de 2004, comparado ao Irã em sua rebeldia contra os mecanismos de verificação da Agência Internacional de Energia Nuclear (ONU). Por trás da crise escondia-se o interesse americano em ter acesso à nova tecnologia e a imposição de um protocolo adicional ao TNP. A visita do então secretário de Estado dos Estados Unidos, Colin Powell, acabou por amainar a crise e desautorizar os neoconservadores americanos.

 

O Brasil insiste numa política soberana

Neste contexto, os Estados Unidos apareciam, no cenário continental, mais e mais isolados. Os “aliados” naturais de Bush – Fox, no México e Uribe, na Colômbia – colecionavam grandes fracassos em suas políticas internas, criando fortes controvérsias no próprio Congresso americano (2).

Neste contexto, o Brasil – pouco antes denunciado pelos neoconservadores como parte do “eixinho” do mal – surgia como a única possibilidade de estabilidade Regional, uma parceria sólida e respeitável. Sem dúvida alguma, a postura brasileira em política econômica – mantendo suas obrigações internacionais e realizando um imenso esforço em termos macroeconômicos (a ponto de ameaçar as próprias metas do governo em termos de emprego e expansão da infra-estrutura, abrindo a disputa com os “nacionais/desenvolvimentista” em torno do “tamanho” do sacrifício do desenvolvimento a ser feito pela estabilidade ) desempenhou, também, um papel relevante na reavaliação operada pela Administração Bush sobre suas parcerias estratégicas ao sul do Rio Grande.

A “inversão de alianças” não foi, contudo, uma operação fácil. O convencimento do grupo neoconservador americano em nada negociar com outros países, explorando até o fundo a posição dos Estados Unidos de país vitorioso na Guerra Fria, estava profundamente arraigado. Foi necessário um forte impacto para a resolução, em força, das posturas internas da América sobre a melhor estratégia sul-americana.

 

O Novo Mapa-Mundi do Pentágono

Para os estrategistas neoconservadores de Washington não havia a menor dúvida de que o Brasil é parte fundamental do que denominam de “functioning core” da Globalização (como os demais membros do MERCOSUL), em oposição aos países “disconneted” (como o Arco Indígena e a Venezuela – isso em termos sul-americanos). Neste sentido o Brasil é um país “amigo”, parte do mundo globalizado e fora das fronteiras do “troubles Gap” formado pelos países “desconectados” (Oriente Médio, Ásia Central, África). O problema, para os interesses americanos, surge quando países do “functionning core”, tais como Brasil, China e Índia “(...) come together to lead a new movement of emergents markets... that is a bad sign” (3). Tais ações ameaçariam o “inner sanctum” da própria Globalização hegemonizada pela hiperpotência, em especial no âmbito das instituições regentes da Nova Ordem Mundial, como a OMC.

O impacto que proporcionaria a mudança, no caso, veio do Oriente. Para além da situação difícil no Iraque, os estrategistas americanos perceberam claramente o avanço econômico chinês sobre o continente, ameaçando e, mesmo, desalojando tradicionais interesses americanos. As possibilidades gigantescas do mercado chinês, abertas aos países sul-americanos, autonomizam suas políticas nacionais frente aos Estados Unidos. Durante longo tempo (e ainda hoje, em vários casos) mais de 50% do comércio exterior de alguns países latino-americanos, no caso da Venezuela cerca de 70%, se fazia exclusivamente com os Estados Unidos. A chegada da China Popular, como grande comprador e grande investidor, ameaça a posição hegemônica no continente, de uma forma como nem mesmo a União Européia ou o Japão ameaçaram nos anos ’60 e ’70 do século XX.

Da mesma forma, para muitos estrategistas americanos, exaustos da guerra sem sentido no Iraque – que concedeu um imenso espaço de manobra para os chineses, enquanto eles mesmos viam-se atrelados à política iraquiana – a real ameaça aos Estados Unidos dá-se hoje no Oceano Pacífico, área pivot dos interesses americanos. Reunindo as maiores economias mundiais, imensos recursos naturais, em face a importantes centros vitais da América, o Pacífico correria o risco de ser hegemonizado pelos chineses, numa aliança com a nova Rússia e a Índia, satelitizando ex-aliados americanos como Mianmá, Indonésia e Coréia do Sul, além de ameaçar a autonomia de Taiwan.

 

Bush repensa a América do Sul

Assim, a proposta de Bush feita em Brasília, no dia 8/11/2005, de uma parceria estratégica com o Brasil, principalmente no âmbito da política sul-americana e na OMC, atende tais objetivos estratégicos. De um lado, aproximar-se do Brasil no continente sul-americano visando tornar Brasília num pilar da estabilidade hemisférica, mediando as relações com regimes progressistas, populistas ou radicais na Venezuela e no Arco Indígena. Em segundo lugar, Bush procurou, abertamente, introduzir uma cunha no G-20, oferecendo uma parceria com o Brasil capaz de isolá-lo da China e Índia.

Assim, enfraquecer-se-ia o grupo de países emergentes, visando manter no interior do “inner sanctum” da Globalização o “functionning core”, a hegemonia americana. O preço de tal aliança estratégica seria relativamente baixo: a derrocada dos subsídios americanos (um ônus orçamentário que ameaça a estabilidade macroeconômica do país) e a demolição das estruturas tarifárias da União Européia, também um grave aborrecimento para o comércio externo americano.

Simultaneamente os Estados Unidos atingiriam um rival de peso – a União Européia – e um adversário estratégico, a China Popular. Cabe analisar os termos de tal parceria para saber se contemplam ou não os interesses nacionais brasileiros.

 

O Tabuleiro Tridimensional

Devemos ter em mente, sempre, a recusa de uma política externa baseada no princípio do “ou isso... ou aquilo”. Na verdade, a política externa do Brasil se move num tabuleiro tridimensonal, onde as jogadas são simultâneas e profundamente conectadas. Num primeiro nível do tabuleiro estão nossas relações com o “globalization core”: Estados Unidos, União Européia e Japão. São relações tradicionais, arraigadas, e fundamentais não só em termos comerciais, como também de fluxos financeiros e de cooperação em ciência e tecnologia. No segundo patamar do tabuleiro tridimensional está o G-20, uma associação informal, não se trata de uma aliança, com países emergentes (China, Índia, África do Sul, Austrália etc.).

Na verdade, no G-20 não há qualquer ligação ideológica ou militância política terceiro-mundista – ausência que foi criticamente cobrada da Política Externa brasileira no Fórum Social Mundial – visando exclusivamente a defesa de mecanismos mais justos no comércio mundial. Por fim, o terceiro nível do tabuleiro tridimensional é o MERCOSUL, hoje quase que inteiramente “platino”, mas com um horizonte imediato de incorporação da Venezuela e através da Casa/Comunidade Sul-Americana dos países do Grupo Andino.

Assim, o país possui hoje uma Política Externa diversificada, sem “questões” radicalizadas com qualquer um dos grupos de nações significantes do moderno mundo globalizado. Exatamente a diversificação, a autonomia e a defesa de nossos interesses possibilitou o estreitamente de laços em todas as dimensões do tabuleiro de xadrez diplomático brasileiro.

 

Notas do autor

1) Nos referimos aqui a ação “econômica” do NCIE/National Counter Intelligence Executive, que busca responder às necessidades das empresas privadas norte-americanas em matéria de informação estratégica na luata por mercados mundiais. Ver DENÉCÉ, Eric e REVEL, Claude. L´autre guerre des États-Unis. Paris, Laffont, 2005.

2) Vicente Fox, presidente liberal e reformista do PAN/Partido da Ación Nacional, utilizado largamente como “porta-voz” do NAFTA, se vê envolto em uma dura campanha de sucessão, onde o velho PRI, com Roberto Madrazo, e a nova esquerda, com Andrés Manuel López Obrador, ex-prefeito da Cidade do México, disputam com chances a presidência do México.

3) Ver BARNET, Th. The Pentagon´s New Map. Nova York, Berkley Books, 2005, p. 55 e ss.

 


(*) Francisco Carlos Teixeira é professor Titular de Historia Moderna e Contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).