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O Equador e a crise sem fim Luiz Alberto Moniz Bandeira Mayo de 2005 Em 1961, o embaixador do Brasil em Quito, José
Jobim, percebeu que existiam no Equador condições propícias para a eclosão de
uma revolução, como ocorrera na Bolívia (1952) e em Cuba (1959). A massa do
povo equatoriano, composta de índios, cujo status social era o de pária, vivia
em "níveis de pauperismo aterradores" e, sem qualquer perspectiva de
progresso, não encontraria saída para sua miséria "fora da subversão
social", uma vez que a elite demonstrava "impermeabilidade" para
compreender que uma situação como aquela não mais podia manter-se. Com efeito, um amplo movimento popular irrompeu,
provocando a queda do José Maria Velasco Ibarra, que resistia às pressões dos
EUA para romper as relações diplomáticas com Cuba. A evolução dos acontecimentos no Equador
assemelhou-se, de certo modo, ao que ocorrera no Brasil, dois meses antes,
Agosto de 1961, com a renúncia de Jânio Quadros. A fim de forçar o Equador a
romper relações com Cuba, a CIA fomentara a agitação, para desestabilizar o
governo de Velasco Ibarra, embora o governo pudesse cair nas mãos do
vice-presidente Carlos Arosemena, cujas ligações com a esquerda o tornavam tão
indesejável para os EUA quanto João Goulart no Brasil. Com efeito, foi o que aconteceu. Velasco Ibarra
caiu e quando o Congresso confrontou-se com os chefes militares, que queriam
impedir que Arosemena assumisse o governo, as forças de esquerda mobilizaram-se
e ganharam as ruas em defesa da legalidade. As Forças Armadas cindiram-se. E o
resultado não foi o que a CIA e o Pentágono desejavam. Arosemena foi empossado
na Presidência. O encarregado de negócios do Brasil, Lindolfo
Leopoldo Collor, em informe ao Itamaraty, comentou que era "flagrante a
dívida contraída" pelo governo de Arosemena "com a conspiração
castrista e a rebelião esquerdista, que ajudaram a levá-lo ao poder, a preço de
sangue". E acrescentou que ele herdara "uma estrutura feudal, um país
de riqueza agropecuária presa das flutuações dos preços internacionais, uma
sociedade cheia de preconceitos contra a maioria da população de origem
indígena, um sistema de trabalho semi-escravo, uma história responsável pela
psicologia amargurada e descrente do povo", tornando o Equador um
"exemplo de processo econômico e social", que parecia "feito sob
receita para ilustrar uma ocasional perfeição de análise marxista". Arosemena também recalcitrou, para não romper
relações com Cuba, e foi deposto pelas Forças Armadas, em 1963. Uma Junta
Militar governou o Equador, sem conseguir estabilizar a situação, até 1968, ano
em que Velasco Ibarra outra vez se elegeu e conseguiu completar o mandato em
1972. A situação econômica e social do Equador, porém, não mudou muito, desde
então. Pelo contrário, agravou-se. O Equador tornou-se mais e mais dependente
dos EUA. Abdala Bucaram, político de Guayaquil, foi eleito
presidente pelo Partido Roldosista Ecuatoriano (PRE), em 1996, prometendo
reformas econômicas e sociais para romper o poder da oligarquia. Líder
populista, personalidade excêntrica, vangloriava-se de ser chamado "El
Loco", provocou, no entanto, enorme descontentamento e desencadeou uma
onda de protestos, após seis meses de governo, ao anunciar em 1º de Dezembro de
1996 o aumento dos preços da água, do gás, da luz e dos telefones. O Congresso,
cerca de dois meses depois, aprovou sua destituição por "incapacidade
mental", e seu presidente, Fabian Alarcón Rivera, assumiu interinamente o
governo. Jamil Mahuad, do Partido da Democracia Popular, e Gustavo Noboa, do
Partido Social Cristão, foram eleitos pelo Congresso, em 1998. Mahuad também não governou muito tempo. Assessorado
por economistas argentinos, tratou de dolarizar a economia. Teve então de
decretar estado de emergência e mobilizar o Exército a fim de reprimir as
intensas manifestações da oposição, apoiadas pelos sindicatos e pela
Confederación de Nacionalidades Indígenas del Ecuador. O Banco Central do
Equador aprovou o plano de dolarização em 10 de Janeiro 2000, e Mahuad, no dia
15, apresentou-se ao Congresso para defender as leis necessárias à sua
implementação. O estado de emergência, contudo, não pôde conter a insurreição
dos indígenas (4,2 milhões em uma população de 12 milhões), à qual aderiram os
sindicatos e partidos políticos, que exigiam a renúncia de Mahuad, dos deputados
e do Judiciário. E, em 21 de Janeiro, um grupo de coronéis, liderados por Lucio
Gutiérrez, levantou o Exército, em apoio às comunidades indígenas. Mahuad, ao
perceber que não mais tinha condições, refugiou-se em uma base militar, embora
declarasse que não renunciaria. Os indígenas e os militares ocuparam os
edifícios públicos, as sede dos três Poderes em Quito, e Antonio Vargas, líder
indígena, proclamou a dissolução do Congresso, bem como da Suprema Corte,
anunciou a remoção de Mahuad da Presidência, a formação de um "parlamento
popular", e instituiu uma Junta de Salvação Nacional, com a participação
de Gutiérrez. O Conselho Permanente da OEA logo se reuniu para a
aplicar sanções previstas pela na cláusula democrática, e os EUA ameaçaram
cessar toda a assistência econômica e militar, caso um regime inconstitucional
fosse instalado no Equador. A Junta de Salvação Nacional não pôde resistir. Os
EUA, o maior parceiro comercial do Equador, absorviam cerca de 39% de suas
exportações e forneciam pelo menos um terço de suas importações. Em tais circunstâncias, os militares sublevados
recuaram. A pressão dos EUA compeliu a Junta de Salvação Nacional a
dissolver-se e, após intensas negociações entre indígenas, militares e líderes
políticos, com a participação dos americanos, o Congresso, em 22 de Janeiro,
reuniu-se em Guayaquil e reconheceu o vice-presidente Gustavo Noboa como
sucessor de Mahuad. A eleição do coronel Lúcio Gutiérrez para a
Presidência havia acendido a esperança de que ele realizasse um governo como
Chávez na Venezuela. Ele, porém, acomodou-se. Manteve a mesma política de seus
antecessores, e caiu. Haverá outros capítulos. |