O PARADOXAL SÉCULO BRASILEIRO

 

 

 

 

Estado de S. Paulo

 

Octubre de 2003

 

 

Um comentário jornalístico não há de ter a pretensão de abranger - que dirá esgotar - toda a vasta gama de aspectos passíveis de análise da massa de dados reunida em meio milhar de páginas da publicação Estatísticas do século 20, o estupendo trabalho que o IBGE acaba de divulgar. Trata-se do mais completo levantamento de informações quantitativas sobre o Brasil dos últimos cem anos - os fundamentos de uma trajetória nacional singular -, em que pese a discutível fidedignidade dos números compilados nas primeiras décadas do período.

Dele resulta um retrato tão rico em matizes e paradoxos como as oceânicas transformações por que passou o País nessa quadra mais fecunda de sua história - desde a metamorfose de uma economia agrária baseada, havia pouco, no trabalho escravo, para um moderno sistema produtivo fabril, com crescente incorporação de tecnologias de ponta, já a caminho da era pós-industrial, até a irrupção de uma vibrante e heterogênea sociedade urbana, substituindo-se aos padrões de organização e valores típicos do mundo rural.

A perspectiva proporcionada pelos marcos sucessivos desse percurso representa, antes de tudo, um breve contra o pessimismo. Neste ano em que se revêem, sempre para baixo, as estimativas do desempenho econômico do País - as projeções mais recentes apontam para uma expansão do PIB de irrisório 0,6% -, é reconfortante a oportunidade de refletir sobre as adversidades que foi preciso superar para o Brasil chegar a ser a nação que mais se desenvolveu no último século - depois da Coréia do Sul e Taiwan, que nasceram artificialmente na metade do século. E essa capacidade de superação dos desafios só fez aumentar com a modernização social.

Ao longo dos anos 1900, e aceleradamente a partir da sua quinta década, consolidou-se a crença no progresso como destino inexorável do País, uma espécie de segunda natureza da brasilidade - e a ideologia nacional por excelência. No imaginário brasileiro, a figura deplorável do Jeca Tatu, de Monteiro Lobato, parece simbolizar um passado muito mais remoto do que indicariam os calendários. Mas, por estranha que soe essa idéia, não estava escrito nas estrelas que o Brasil alcançaria o século 21 na posição que ocupa no cenário mundial.

Com amplas regiões inóspitas ou inadequadas para a atividade produtiva, metade da população analfabeta em pleno ano de 1950, taxas asiáticas de crescimento demográfico e índices africanos de mortalidade infantil e expectativa de vida, além do arcaísmo institucional e da corrupção endêmica, o País poderia perfeitamente bem continuar sendo um "gigante adormecido". Ou poderia ter regredido. Na Argentina, os generais quiseram desindustrializar o País - o que não passaria pela cabeça do mais intratável linha-dura do regime de 1964.

Não apenas não aconteceu nem uma coisa nem outra - o PIB brasileiro aumentou 110 vezes entre 1901 e 2000 e o PIB por habitante, 12 vezes, mais do que a população, que cresceu cerca de 10 vezes - como ainda mudaram dramaticamente o perfil, a mobilidade e os padrões de interação social. Um migrante nordestino iletrado ou quase foi absorvido pelo parque industrial paulista, melhorou de vida, instruiu-se, alargou o seu horizonte, foi para o sindicalismo e daí para a política. Ninguém melhor do que Luiz Inácio da Silva, o Lula, encarna o que houve de mais luminoso no século 20 brasileiro.

E, apesar disso, parece inexistir força humana capaz de apagar a marca de Caim deste País com vocação para o crescimento - a extrema desigualdade, que perpassa todas as dimensões da vida nacional, as regiões, os sexos e as etnias. Já seria de envergonhar se, em geral, a concentração da renda tivesse diminuído menos do que o possível enquanto o Brasil crescia a taxas sem precedentes, ou se tivesse permanecido mais ou menos constante, em alto patamar, enquanto tudo o mais mudava. A tragédia brasileira é o País ter ficado mais desigual ao mesmo tempo em que ficava mais próspero.

Em 1960, no auge do desenvolvimentismo, os 10% do topo da pirâmide social eram 34 vezes mais ricos do que os 10% da base. Em 1991, 60 vezes. O Brasil fechou o século 20 como o sexto país mais desigual, embora de 1991 até 2001 a diferença tenha declinado para 47 vezes. A desigualdade, ninguém ignora, é inerente ao capitalismo e, em princípio, tende a ser tanto maior quanto mais livre for o jogo das forças de mercado. Mas o capitalismo no Brasil foi tudo menos livre. Na realidade, o mesmo modelo que produziu o desenvolvimento, com participação direta do Estado e sob intrincado sistema de controles estatais, produziu os seus injustos efeitos. E hoje, exangue, o máximo a que o Estado se dispõe é acudir os mais pobres entre os pobres.